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| Cena do porto carioca na virada do século e o escritor Adolfo Caminha: retrato do submundo | |
Pois é, o exército dos puritanos
alertas gritou "epa!" e tirou do ar com uma
única explosão o distinto par de lésbicas de Torre
de Babel. Se as personagens Leila e Rafaela não
fossem bonitas, ricas e felizes, poderiam continuar nas
telas, como o caricato Cintura da minissérie Hilda
Furacão, a provar que o grande público só aplaude
os homossexuais dos quais pode rir. Essa tentativa
frustrada de tratar o tema a sério na TV coincide com
mais uma volta às livrarias de Amaro e Aleixo, os
amantes que escandalizaram o Brasil em 1895, quando o
cearense Adolfo Caminha (1867-1897) lançou Bom-Crioulo
(editora Artium, 138 páginas, 19 reais), tido como
"o primeiro romance gay brasileiro". Curtinho,
fácil de ler (mas não de julgar), ele emerge de um
século de censura velada ou oficial intermitente e chega
junto com A Normalista (idem, 257
páginas, 24 reais), do mesmo autor, como parte de um
projeto de resgate de obras e escritores marginalizados
da nossa marginalizada literatura.
Adolfo Caminha foi um escandaloso na vida
e na arte. Oficial da Marinha em Fortaleza, teve de
mudar-se para o Rio de Janeiro e abandonar a carreira por
ter "roubado" a esposa de um oficial do
Exército e por insistir em viver às escâncaras com
ela. Como escritor, abraçou o naturalismo, a escola
literária da vida como ela é, mais copo de cólera do
que sonho de valsa. A Normalista, de 1893, narra a
história de Maria do Carmo, uma estudante sonhadora na
provinciana Fortaleza, despertada para o sexo pelas mãos
de seu tutor e padrinho, que a deflora. Bom-Crioulo,
com ação situada no Rio menos de uma década depois da
Abolição, atreve-se a colocar em cena o negro Amaro, o
bom crioulo do título, que seduz o branco Aleixo. Para o
leitor de hoje, o resgate de Caminha, principalmente o de
Bom-Crioulo, é interessante sob mais de um
aspecto, porque cada pequeno detalhe puxa de nossa
memória informações aprendidas e esquecidas. Dá
prazer escavá-las e ligá-las com coisas da atualidade.
Está-se falando da baixa sociedade do Rio, com sua
mistura de imigrantes pobres, negros desocupados e
forasteiros do Norte e do Sul. Ou então do passeio entre
palavras caídas em desuso ou ainda correntes, como
"rolo" e "frege", sinônimos de
confusão e desordem.
É, sobretudo, o caráter dos personagens, interpretado à luz da psicologia anterior a Freud, que passa uma impressão de algo pré-histórico e causa grande estranhamento. Em Bom-Crioulo, o negro bom e másculo vira mau, mas ama de fato. O branco efeminado, por sua vez, troca o amante pela senhoria do cortiço, mas permanece na clave feminina, pois a mulher é um virago. Basta ler o fecho de A Normalista para sentir a ambigüidade que nos faz vacilar no julgamento dos caracteres. Esse é o parapeito que evita a queda de ambos os romances no moralismo chinfrim, com amores proibidos condenados a epílogos infelizes, amém. Os finais, é melhor não contar. Suficiente dizer que os livros se salvam. E Caminha também, mais moderno do que parece.
No século passado, as novelas saíam nos jornais e chamavam-se folhetins. No gênero, o Aluísio de Azevedo de clássicos como O Cortiço mesmerizava os leitores com sua lógica. Menos coerente, Caminha seria demais para o público dos folhetins, tanto quanto o romance das lésbicas de Torre de Babel é para o da TV. Nada disso impede, porém, que a vida continue a ser como sempre foi.
Mirian Paglia Costa
Copyright © 1998, Abril
S.A. |