O som da terra

MST lança disco para insuflar a revolução

Mais aborrecido do que ler a cartilha do MST, só mesmo ouvir o disco do MST. Lançado na semana passada, Arte em Movimento pretende mostrar que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra também é cultura. Vendido apenas nas secretarias da entidade, o CD reúne composições feitas por seus integrantes, que costumam ser cantadas nas marchas ou nos acampamentos. Algumas delas são interpretadas pelos autores. Outras foram entregues a cantores — famosos, como Beth Carvalho, ou meio assim de segundo time, como Chico César e Leci Brandão — que simpatizam com a causa. O CD tem até uns baiões de bom molejo, compostos por um certo Zé Pinto. As letras, porém, são de rolar de rir. Derramam toda aquela lengalenga socialista de primeira hora que só sobrevive na imaginação do MST.

E tome pau no imperialismo, nos capitalistas, nos donos de terras, no governo e até — pasme — na colonização portuguesa. E tome louvação a Che Guevara, à vida em Cuba e à "América livre". Até que, no ponto alto do disco, o cantor Zé Geraldo solta a voz nos seguintes versos: E a luta por reforma agrária/a gente até pára/se tiver enfim/coragem a burguesia agrária/de ensinar seus filhos/a comer capim.

Em outra música, informa-se que nem só de Débora Rodrigues, a ex-sem-terra que posou nua para a Playboy, vive o feminismo do MST. As vitórias contra o chauvinismo capitalista já chegaram, sim, ao movimento. Canta o companheiro, ops, camarada Antônio Gringo: E vai também a mulherada/com muita participação/mostrando com capacidade/que tem outras lutas além do fogão.

Dá para acreditar?

Okky de Souza




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