|
|
![]() |
O
administrador Abelardo Piza Marcondes, 23 anos, fez uma prova que incluía questões de geografia e história para conseguir vaga de trainee na área de crédito do BankBoston: "Fazia tempo que eu não estudava essas matérias" |
| Fotos: Claudio Rossi |
A disputa por um emprego nas maiores
empresas brasileiras está começando para os estudantes
que concluirão a faculdade no final deste ano. Quem já
passou pela experiência sabe que, perto dela, o funil do
vestibular parece brincadeira. Dos 4 500 jovens
profissionais que se candidataram a uma vaga de trainee
na Cargill, que atua no ramo de alimentos, dezoito
conseguiram o emprego no início deste ano. Isso dá 250
candidatos por vaga. Na Credicard, de cartões de
crédito, a relação foi de 235 candidatos por vaga. Na
Nestlé, produtora de alimentos, 161. Para efeito de
comparação, um dos vestibulares mais disputados do
país, o de engenharia da computação na Universidade de
São Paulo, teve 43 candidatos por vaga no ano passado.
Em todas as grandes companhias que adotam a política de
recrutar profissionais recém-formados, a disputa é mais
pesada do que nas mais concorridas universidades
brasileiras. Quem é contratado ganha salário inicial
que varia de 1.500 a 2.000 reais. Durante o programa, que
dura de um a dois anos, conhecerá diferentes
departamentos da empresa e receberá reforço teórico
equivalente a um curso de pós-graduação. Ao final do
programa, poderá obter uma vaga nos degraus iniciais da
carreira executiva. Para animar os candidatos: o
administrador Ricardo Gonçalves entrou na Nestlé como
trainee, em 1970. Hoje é o presidente da empresa.
Na época da contratação de Gonçalves, as exigências eram outras. A seleção era feita apenas nas faculdades consideradas de primeira linha e o que mais contava era o desempenho escolar do candidato. "Hoje as empresas querem pessoas com senso crítico, que saibam apontar problemas e sugerir soluções", diz Sofia Esteves, diretora da Companhia de Talentos, firma de consultoria que ajuda a organizar os programas de treinamento da Gessy Lever, do Citibank, da Brastemp e de outras empresas de grande porte. Notas altas, é claro, ajudam. O candidato precisa ter ainda boa formação geral. Isso inclui as viagens de turismo ou de estudos que ele possa ter feito. Também é considerada a preocupação em manter-se atualizado. O domínio de um idioma estrangeiro, de preferência o inglês, é uma exigência. Esteja preparado. No processo de seleção, é comum que o entrevistador surpreenda o candidato com uma pergunta sobre um fato publicado nos jornais na semana anterior.
![]() |
A
paulista Érika de Oliveira Araújo, de 22 anos, formou-se em letras e, graças ao fato de falar alemão, conseguiu ser uma das trainees de recursos humanos na Mercedes-Benz: "Aplico o que aprendi na faculdade" |
Já na semana que vem as empresas começam a afixar nas faculdades cartazes com o anúncio do processo de contratação para 1999. A partir daí, o recém-formado terá de procurar a empresa, e não esperar ser descoberto. "Ter iniciativa é fundamental para conseguir a vaga", diz o consultor de recursos humanos Simon Franco, especializado na contratação de executivos. As maiores empresas concentram a divulgação de seus programas nas faculdades de São Paulo, Rio de Janeiro ou de cidades onde estão instaladas. A montadora Fiat, por exemplo, recruta mais pessoas de Belo Horizonte. A Electrolux, de eletrodomésticos, renova seu corpo de executivos com profissionais formados em Curitiba. Mas nada impede que estudantes de qualquer cidade do Brasil enviem currículo. Um conselho dos consultores: não espere a formatura para se candidatar. Procure já o endereço das empresas de seu interesse na Internet e mande a papelada. Se você não tem com a rede familiaridade suficiente para seguir essa orientação, aprenda agora. O domínio do uso dos computadores é outra exigência.
Sem mágicas A seleção é sempre muito parecida, e não existem fórmulas mágicas para garantir a vaga. O principal conselho é ser sincero em todas as etapas. Uma mentira desmascarada é muito pior que um honesto "não sei". A primeira triagem é feita entre os currículos que chegam à empresa. Nessa fase, mais da metade dos candidatos é eliminada. Os que passam são convocados para testes, entrevistas e trabalhos de dinâmica de grupo. Aí serão avaliadas a capacidade para trabalhar em equipe e a desenvoltura do candidato diante de problemas semelhantes aos que enfrentará no trabalho. O engenheiro mecânico Glauber Fullana de Assis, de 27 anos, foi no ano passado um dos trainees da Fiat. "As pessoas que não estavam se entrosando ou não se esforçavam para trabalhar em grupo não conseguiram a vaga", diz ele. Hoje, menos de dez meses depois de ter concluído o programa, ele já recebeu uma promoção por mérito e tem sob seu comando 98 funcionários.
Copyright © 1998, Abril
S.A. |