Bucaneiros do som

As gravadoras combatem os CDs
falsos, que mordem 15% do mercado

A cantora Roberta
Miranda: passando
o trator sobre os CDs "frios"
Foto: Ray Ng  

A abertura da CD Expo 98, a maior feira do mercado fonográfico da América Latina, na semana passada, no Rio de Janeiro, deveria ser motivo de comemoração para as gravadoras brasileiras. Não foi. A indústria fonográfica nacional, a sexta no ranking mundial, esperava aumentar suas vendas de CDs em 5% neste ano, mas já amarga uma queda de 15%. O grande vilão são os piratas, que têm demonstrado crescente poder de fogo. No ano passado, abocanharam o equivalente a 3% do mercado legal de compact-discs, e, neste ano, estima-se que a mordida se quintuplique. O Brasil é o quarto país do mundo em venda de fitas cassete e CDs falsificados, atrás apenas da Rússia, China e Índia. Entre os países que integram o seleto grupo dos dez maiores mercados fonográficos do mundo, só o Brasil tem um porcentual tão alto de pirataria: 98% dos cassetes e 15% dos CDs são falsos.

O avanço dos bucaneiros sobre o filão dos compact-discs está deixando as gravadoras de cabelo em pé. "A indústria brasileira perdeu todo o mercado de cassetes e teme que o mesmo aconteça com o de CDs", diz o americano Jason Berman, presidente eleito da IFPI, a federação internacional da indústria fonográfica, que congrega 1.300 gravadoras em setenta países. Enquanto o governo não deflagra uma ação mais efetiva contra essa atividade, as sete maiores gravadoras brasileiras vêm lutando contra ela com as armas que têm. Em 1996 criaram a Associação Protetora dos Direitos Intelectuais Fonográficos, APDIF, para combater a pirataria. Só neste ano, os produtores fonográficos estão investindo 4 milhões de dólares para reprimir a atividade ilegal no Brasil. A rota da pirataria começa, na maioria das vezes, no Sudeste Asiático e na China, onde ficam as fábricas de CDs frios. De Macau, Taiwan, Hong Kong e Cingapura saem 70% dos carregamentos piratas. Os produtos falsos entram no Brasil pela fronteira com o Paraguai e também pelos principais portos e aeroportos brasileiros (veja quadro).

Sertanejos e baianos — A pirataria transformou-se num problema mundial: no ano passado, o mercado fonográfico paralelo movimentou 5 bilhões de dólares, 13% dos 38 bilhões comercializados oficialmente. Os falsificadores levam vantagem em tudo: só investem nos CDs de sucesso, não têm gastos com direito autoral nem propaganda. Com isso, seus produtos chegam às mãos do consumidor por preços mais baixos do que os originais. Sua qualidade de reprodução também é bastante inferior. Como 70% dos CDs e cassetes vendidos no Brasil são de repertório nacional, os compositores e intérpretes brasileiros são os mais prejudicados porque ficam sem receber por seu trabalho. Os mais pirateados são Roberto Carlos, Amado Batista, Roberta Miranda, Paralamas, Só pra Contrariar, além de duplas sertanejas e grupos de música baiana. Para mostrar o engajamento dos artistas brasileiros no combate à pirataria, a CD Expo 98 começou com um gesto simbólico: a cantora Roberta Miranda passou com um trator por cima de 1.000 CDs falsos empilhados no Riocentro.

 



 





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