Adeus, conexões

Vôos internacionais agora saem de várias
capitais, reduzindo tempo e custo das viagens

Christiano Caldeira, de Salvador

Até o início desta década, viajar para o exterior era suplício para os brasileiros que não morassem em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Antes de embarcar para o destino, era preciso fazer uma conexão em outro aeroporto nacional, perder horas e paciência nessa operação e, muitas vezes, ainda pagar mais caro pela passagem. Em 1990, existiam apenas dezessete vôos internacionais, sem conexões no Brasil, que partiam de outras cidades fora do eixo formado pelas duas maiores capitais brasileiras. Hoje, graças a um bem-sucedido programa de atração de visitantes estrangeiros para o Nordeste e a Amazônia e ao aumento do turismo entre os brasileiros em decorrência da estabilidade econômica, a oferta de vôos internacionais está mais descentralizada. Já é possível alcançar 25 destinos no exterior, em 42 vôos, a partir de onze cidades brasileiras (veja quadro).

O melhor exemplo dessa tendência é o aeroporto de Salvador. Nos últimos quatro meses, o número de vôos internacionais ali aumentou 57%. Agora é possível embarcar da capital baiana para catorze cidades da Europa e das Américas sem fazer escalas ou conexões no Brasil. Até o final da década passada, a cidade contava com apenas dois vôos internacionais. Nos anos 90, a situação foi mudando e hoje Salvador é o terceiro trampolim para viagens internacionais do país, atrás apenas do Galeão, no Rio, e de Guarulhos, em São Paulo.

Mais barato — O crescimento da oferta de vôos em outras capitais acompanha o aumento do número de brasileiros que viajam para o exterior. Com a oferta de pacotes turísticos mais baratos e o aumento do poder aquisitivo da população, sair do país em férias deixou de ser programa de gente muito rica e se tornou bem mais acessível à classe média. Os números comprovam. Nos últimos seis anos, o número de brasileiros que viajam para o exterior mais do que dobrou. Eram 2,3 milhões em 1992. No ano passado foram 4,8 milhões. De 1996 a 1997 essa cifra aumentou 26%. No ano passado, 40% dos pacotes turísticos para o exterior vendidos no Brasil foram comercializados fora dos Estados de São Paulo e do Rio.

Embora os brasileiros que pretendem passar férias longe se beneficiem das mudanças, é a briga das cidades pela atração dos turistas estrangeiros que impulsiona a criação de novos vôos. Em 1990, pouco mais de 1 milhão de turistas estrangeiros vieram ao Brasil. Em 1997, esse número quase triplicou. Os americanos e os argentinos são os que mais aparecem. Eles representam 46% dos 2 milhões de passageiros que entram no Brasil por via aérea (outro milhão vem de navio ou por estradas, a partir dos países vizinhos). O Recife entrou na disputa por esse público e hoje é o quarto aeroporto brasileiro em oferta de destinos internacionais. O Aeroporto dos Guararapes recebeu 160.000 estrangeiros no ano passado.

Em Fortaleza, o Aeroporto Pinto Martins alcançou a condição de internacional em setembro do ano passado e já envia ao exterior uma média de passageiros próxima à do Recife e de Salvador. As capitais nordestinas estão longe dos números registrados no Galeão, que no ano passado contabilizou 2,7 milhões de embarques e desembarques internacionais, mas a tendência é que esse fluxo aumente. "Esse é o caminho para mercados emergentes como as cidades do Nordeste", afirma o presidente da Embratur, Caio Luiz Carvalho. De Manaus e Belém saem vôos diretos para Miami e Orlando, além das capitais de países vizinhos. No sul do país, os principais destinos sem escalas ou conexões são as cidades do Mercosul, com Buenos Aires na liderança.

A descentralização de vôos é um alívio para o bolso, as pernas e a paciência de quem não é paulista ou carioca. Até dois anos atrás, um baiano que quisesse conhecer Frankfurt, na Alemanha, teria a viagem de nove horas entre o Brasil e a Europa esticada em pelo menos mais seis horas em virtude da conexão no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. Hoje pode embarcar direto no aeroporto de Salvador e a passagem sai cerca de 100 reais mais em conta. O advogado baiano Sílvio Cardim viaja para o exterior há muito tempo e diz que se tornou "alérgico a conexões". Numa ocasião, chegou à capital paulista no início da manhã e passou o dia no aeroporto esperando o embarque noturno para a Europa. Agora só faz vôos diretos a partir de Salvador. "Conexões, só em último caso", diz.

A. Caires


O campeão do nevoeiro

Com apenas dois anos de existência, o Aeroporto Internacional Afonso Pena, de Curitiba, tornou-se o sexto mais movimentado do país. Em compensação é o que mais tempo permanece fechado devido ao mau tempo. Nesse quesito, o aeroporto curitibano é imbatível. Em virtude do nevoeiro, especialmente pela manhã, entre janeiro e junho deste ano o aeroporto paranaense permaneceu 228 horas sem operar pousos e decolagens. Já foram cancelados 148 vôos, sem contar os aviões que tiveram de esperar até três horas em outros aeroportos para poder decolar com destino a Curitiba. O aeroporto curitibano ficou 45 vezes mais tempo parado do que o de Guarulhos, em São Paulo, outro muito afetado pelos nevoeiros. Com a agravante de que, enquanto as cinco horas e dois minutos de interrupção no tráfego paulista se concentraram em junho, os problemas do Afonso Pena acontecem o ano todo. Se as horas de inoperância fossem ininterruptas, o aeroporto paranaense teria ficado fechado por quase dez dias seguidos.

A região em que o aeroporto foi construído já era criticada desde que a obra era apenas um projeto, por ser muito propícia à formação de nevoeiros. As inversões térmicas são freqüentes e a umidade relativa do ar é sempre alta, graças à proximidade com a Serra do Mar e o litoral paranaense. Além disso, as frentes frias surgem com freqüência e os ventos, que poderiam dissipar mais rapidamente os nevoeiros, são calmos. Apesar desse cenário nebuloso, o Afonso Pena, que custou 150 milhões de reais, foi inaugurado com o equipamento convencional de navegação, o Instrumental Landing System I, ILS-I, que só permite pousos quando a visibilidade é de até 60 metros na vertical e 800 metros na horizontal. Em vez de comprar um equipamento melhor, a Infraero preferiu investir na decoração do aeroporto, que tem elevadores panorâmicos e painéis do artista plástico Poty Lazzarotto. Em Guarulhos, onde as inversões também são corriqueiras, trabalha-se com o ILS-II, que permite o pouso em piores condições de visibilidade.

Construído em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, o novo aeroporto está numa área estratégica, onde estão sendo instaladas as montadoras Renault, Chrysler e Audi/Volkswagen. A inadequação do equipamento às condições locais, no entanto, fez com que empresários paranaenses se unissem para solicitar à Infraero a aquisição do ILS categoria III, inédito em aeroportos nacionais. "O prejuízo diário é de 400.000 reais quando o Afonso Pena está fechado", afirma o presidente da Associação Comercial do Paraná, Ardisson Naim Akel. A Infraero considera exagero a aquisição do ILS-III. "Poucos aeroportos do mundo o têm", explica o coronel Noberto Brum, do departamento de comunicação da estatal. "O Heathrow, em Londres, tem o ILS-III, só que lá há nevoeiro em mais da metade do tempo e são transportados 50 milhões de passageiros por ano. Não há necessidade de um equipamento tão caro aqui." O movimento anual no Afonso Pena é de 1,6 milhão de passageiros.

Pressionado pelas queixas dos passageiros, o Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias entrou em contato com o Departamento de Eletrônica e Proteção ao Vôo do Ministério da Aeronáutica. "Eles já estão estudando a aquisição de um ILS-II", conta o presidente do sindicato, o brigadeiro Mauro Gandra. A instalação do equipamento exigirá a construção de uma nova pista, para não interditar as existentes. "Se correr tudo bem com a licitação, em dois anos a obra estará pronta", diz Gandra. Até lá, decolar e pousar em Curitiba continuará sendo um transtorno.




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