Encontro feliz

Aumenta o número de crianças adotadas
com a ajuda de instituições de apoio

Foto: Claudio Rossi
Regina e Maurício, com Gabriel e os seus novos filhos: a adoção de parentes biológicos saiu em um mês

Como a maior parte dos brasileiros interessados em adotar uma criança, os paulistanos Maurício França e Regina Barros sonhavam com uma menina branca recém-nascida. Depois de um ano de espera, o casal nem sequer tinha recebido um telefonema do fórum onde se havia cadastrado. Decidiu então recorrer a um grupo de apoio à adoção, o Acalanto, formado por voluntários. Regina e Maurício, que já tinha um filho natural, Gabriel, começaram a freqüentar reuniões, receber orientações de psicólogos e refletir sobre a criança que ambos esperavam. Por que menina? Por que bebê? Por que só um? Os dois se deram conta de que, acima de tudo, queriam mais filhos. Em um mês, já estavam em casa com João Paulo, 7 anos, Mônica, 5, e Jéssica, 3, todos da mesma família biológica (as meninas são irmãs e o menino é tio delas). Motivo: a Justiça dá preferência para a adoção de menores com laços familiares entre si. "Nós é que fomos adotados por eles", afirma França. É a mesma história do contador Eugenio Conceição e da bancária Giani Guimarães, de Curitiba, que levaram também um mês para adotar as irmãs Daniele e Franciele, hoje com 11 e 10 anos. "É como se elas sempre tivessem estado conosco", diz Giani.

Outros candidatos a pais adotivos estão deixando para trás idéias preconcebidas e partindo para as chamadas adoções modernas, tardias e inter-raciais. Isso graças ao trabalho dos grupos de apoio, que nos últimos três anos cresceram, ganharam força e agora trabalham junto com os juízes. "A mentalidade do país em relação à adoção está mudando", declara o juiz Carlos Eduardo Pachi, da Corregedoria-Geral da Justiça de São Paulo. "O trabalho desses grupos é sério e nos ajuda a criar uma nova cultura de adoção." No país, já existem cerca de vinte entidades filantrópicas como a Acalanto, criada em 1993. Com isso, o número de crianças abandonadas que permaneciam à espera de adoção vem diminuindo (veja o quadro abaixo). Pelos dados do Tribunal de Justiça de São Paulo, 80% dos brasileiros que se cadastram para adotar uma criança ainda preferem um recém-nascido de cor branca. Por isso, podem esperar até cinco anos ou mais, enquanto do outro lado muitas crianças também aguardam. "Esse nó começa a ser desatado quando se descobre que nem sempre adotar uma criança branca recém-nascida é a melhor solução", diz a psicóloga Lidia Dobrianskyj, pesquisadora da Universidade Federal do Paraná, especializada em adoções.

Segundo ela, os futuros pais adotivos acham que é melhor a criança não trazer recordações do passado. Isso, contudo, pode provocar outro tipo de problema. "Ao saber que são adotadas, mais tarde, essas crianças idealizam como teria sido a vida se tivessem conhecido seus pais biológicos", explica Dobrianskyj. "Crianças mais velhas, ao contrário, sabem que estão em melhores mãos." Toda a ação dos grupos de apoio é voltada para instruir os casais, adequar suas expectativas e acelerar o processo de adoção. "Por que esperar quatro ou cinco anos por uma adoção idealizada, se existem tantas crianças precisando de uma família?", diz a professora primária Cynthia dos Santos Miranda, de 46 anos, fundadora do Acalanto. "Para isso, basta predisposição afetiva." Mãe de dez filhos, três biológicos e sete adotivos, Miranda adotou um menino com 8 anos, hoje seu maior companheiro. A professora acha que agora se fala mais abertamente em adoção. "Antigamente, as famílias que adotavam crianças mudavam de bairro para os vizinhos não saberem", conta. "Estamos melhorando muito."

Alice Granato e Luciano Patzsch




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