Sujos e felizes

Caro e incômodo, o rali ganha fiéis adeptos que
buscam deixar o stress em trilhas sacolejantes

Foto: Oscar Cabral Foto: Claudio Rossi
Rali em Avelar e Marcos Ermírio de Moraes, organizador do Rally dos Sertões: levando os
jipeiros a "lindos lugares"

À beira de um riacho, uma dezena de jipes forma fila na estrada de terra, enquanto um deles tenta alcançar a outra margem. Depois de patinar inutilmente por cinco minutos, o piloto desiste e pede a ajuda de um guincho. A cena atrai a atenção dos pacatos moradores de Avelar, vilarejo em Pati do Alferes, município a 250 quilômetros do Rio de Janeiro, escolhido como parte do roteiro de um rali com cinqüenta participantes que haviam saído de casa na tarde de sexta-feira 17 para passar o fim de semana lutando contra esse tipo de dificuldade. Contratempos fazem a delícia de quem participa das provas off-road, competições que testam a habilidade dos motoristas e a resistência dos veículos em vencer as piores trilhas e estradas que puderem encontrar. Nos últimos tempos, o esporte vem ganhando adeptos. Prova disso é o Rally dos Sertões, o mais longo do país, que deu a largada na semana passada em São Paulo. Neste ano o evento teve duas vezes mais participantes do que em 1996. Durante doze dias, 51 pilotos iriam correr contra o relógio para atravessar 5.000 quilômetros no interior do país, passando por Minas Gerais, Tocantins, Maranhão, Piauí e Ceará.

Alguns ralis recebem patrocínio de fabricantes de carros, como o promovido pela Mitsubishi, que juntou 120 participantes amadores na cidade paulista de Campos do Jordão três semanas atrás. Embora em franco crescimento, o off-road está longe de ser um esporte popular. Além do gasto com carro e equipamento, as despesas de viagem são elevadas. Para participar do Rally dos Sertões, a taxa era de 4.300 reais. Além de cara, a diversão requer estoicismo. Os competidores passam por lugares inóspitos, onde nem sempre há boas acomodações. Mas há outra forma de encarar as coisas. "São lugares lindos, que dificilmente essas pessoas conheceriam de outra maneira", diz Marcos Ermírio de Moraes, filho do empresário Antônio Ermírio de Moraes, dono do grupo Votorantim. Marcos é um dos organizadores do Rally dos Sertões.

Aragão (à dir.)
com Fridman:
volta de avião
  Foto: Oscar Cabral

Mais do que a vitória, os aficionados do esporte buscam superar-se e deixar o stress do dia-a-dia nas trilhas sacolejantes. Ao voltar para casa, todos estão exaustos, sujos e contentes. "A gente chega ao fim do dia cansada mas feliz", diz a analista de sistemas carioca Kimie da Silva, de 46 anos, que quase todo fim de semana participa de ralis em seu Land Rover. Há três anos, o empresário carioca Magno Aragão, 31 anos, achou que tinha feito mau negócio ao aceitar um jipe na troca de um dos carros da família. Hoje, em seu apartamento em Niterói, no Rio de Janeiro, ele coleciona 21 troféus de ralis. No ano passado, comprou por 55.000 reais uma Pajero. Junto com o co-piloto Flávio Fridman, Aragão quer ser ainda mais competitivo. Para isso, pagou 5.000 reais para colocar no carro uma nova suspensão e computador. Aos sábados, vai para lugares longínquos e selvagens. Aos domingos, despacha o carro de volta num caminhão e vai para casa ao encontro dos filhos. De avião.

Roberta Paixão




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