Fogo a bordo

Passageiros em pânico no incêndio do navio

Num momento em que virtualmente todo mundo assistiu a Titanic, é possível que cada um dos 2.575 passageiros e 868 tripulantes do navio Ecstasy se tenha imaginado, na segunda-feira passada, na pele das vítimas do naufrágio cinematográfico. Pelo menos por alguns minutos, quando os turistas, entre eles 63 brasileiros, se aglomeraram no convés superior, vestindo coletes salva-vidas, e o fogo se espalhava na outra ponta da embarcação. Rebocadores enviados do Porto de Miami, de onde o Ecstasy saíra menos de três horas antes, conseguiram apagar, no início da noite, o fogo, que produzia grossas colunas de fumaça. O medo acabou sendo o único ponto comum entre o incidente no litoral americano e a tragédia de 1912. Diferentemente do transatlântico que foi a pique depois de bater num iceberg em sua viagem inaugural, o Ecstasy cumpria itinerário de rotina, um cruzeiro de quatro dias entre Miami e Cozumel, no México. E os passageiros nem sequer teriam tempo de iniciar um romance como o dos personagens centrais do filme. A melhor das distinções foi que o Ecstasy voltou ao ancoradouro sem nenhuma vítima grave, apenas alguns casos de intoxicação.

Com aquela explicação clássica que não convence ninguém, a companhia de navegação viu no incidente uma demonstração da eficiência do salvamento. Os passageiros, evidentemente, não encontraram nenhuma qualidade num cruzeiro que termina em incêndio. "Não me digam que está tudo sob controle quando obviamente não está", disse a americana Beverly Goldman na terça-feira, já em terra firme. Outra passageira garantiu ter avisado a tripulação de que a fumaça invadia sua cabine pelo sistema de ventilação quase uma hora antes de os alto-falantes avisarem que algo de errado acontecia na popa do navio. A primeira explicação para o incêndio foi que o fogo se originou de uma faísca na lavanderia do navio, mas os encarregados da investigação não descartam nenhuma hipótese. Os brasileiros a bordo — cinqüenta saídos do Maranhão e treze de São Paulo — chegaram a se preocupar com suas bagagens, mas logo as tiveram de volta. Apesar do susto, o incêndio trouxe à luz estatísticas animadoras: dos 45 milhões de americanos que embarcaram em cruzeiros nos últimos dez anos, nenhum morreu em qualquer tipo de acidente. No mesmo período, o número mundial de turistas dessa modalidade de viagem quase dobrou. Ao que parece, há um apelo romântico nessas breves férias no mar. Tanto que dois casais pretendiam contrair matrimônio durante a viagem do Ecstasy. Tiveram de se contentar com cerimônias num hotel de Miami, custeadas pela Carnival, empresa proprietária do navio.




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