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E o mar cobriu a terra
Ondas
gigantescas arrasam aldeias e matam
milhares em Papua Nova Guiné, no sul do Pacífico
Parecia o fim do
mundo. Primeiro o chão tremeu. Depois se ouviu um
estrondo e três ondas gigantescas, a maior delas com 10
metros de altura, encobriram sete aldeias à beira-mar na
ilha de Papua Nova Guiné, um país no Pacífico Sul.
Aterrorizada, a população tentou fugir, mas não deu
tempo. Em segundos, a violência da água arrastou casas,
árvores, animais e pessoas na noite de sexta, 17. Quando
a maré baixou, a devastação era total. Como se uma
enorme vassoura tivesse varrido a paisagem. Havia
cadáveres em meio a troncos e restos de construções.
Dos 10.000 habitantes da região, 6.000 estavam mortos ou
desaparecidos. As tsunamis, como são chamadas as ondas
gigantescas formadas por terremotos no fundo do mar, são
um fenômeno conhecido na região, mas raramente os
efeitos são tão devastadores.
As ondas que engoliram as aldeias
foram formadas por um terremoto que chacoalhou o subsolo do mar, a 30
quilômetros da costa. A energia liberada pelo tremor levantou tsunamis
tão altas quanto as melhores ondas para a prática do surfe, com a diferença
que, em vez de quebrar na praia, elas avançaram por terra firme. Ao se
formar, em águas profundas, uma tsunami é apenas uma marola imperceptível.
Só ganha altura e se torna potencialmente destruidora quando atinge águas
rasas (veja desenho). Para os moradores do litoral, o único aviso
de aproximação de uma tsunami é o brusco e acentuado recuo da maré, minutos
antes. Quase sempre é tarde demais para fugir. Nenhuma região litorânea
está a salvo dessas marés gigantes. O risco, contudo, é maior no Oceano
Pacífico devido à grande atividade sísmica. Na tragédia mais famosa e
letal, uma tsunami (onda grande do porto, em japonês) matou 27.000 pessoas
no Japão em 1896. Seis anos atrás, uma onda de 18 metros de altura varreu
a Nicarágua e outra, de 26 metros, cobriu uma aldeia na Indonésia.
Geração
desaparecida O maremoto que desabou há
dez dias sobre as aldeias de Papua Nova Guiné foi
especialmente devastador para crianças e velhos, pois
muitos adultos se salvaram nadando ou subindo em
palmeiras. O resultado é que há pouquíssimas crianças
entre os sobreviventes. "As escolas vão fechar por
falta de alunos, todos morreram", disse Dickson
Dalle, coordenador dos trabalhos de salvamento, em
entrevista à agência de notícias Reuters. Nos dias
seguintes, barcos recolheram centenas de cadáveres que
boiavam na praia ou numa lagoa à beira-mar. Em pouco
tempo, porém, tornou-se insuportável o mau cheiro dos
corpos em decomposição expostos ao calor tropical. As
equipes de resgate foram forçadas a enterrá-los em
valas coletivas e afastar a tiros os porcos e cachorros
que tentavam devorá-los. O governo de Papua Nova Guiné
acha que não será fácil reconstruir as aldeias e
aconselhou os sobreviventes a não retornar, por
enquanto, ao lugar. Um conselho que talvez nem fosse
necessário, já que a maioria se recusa a descer das
montanhas, com medo supersticioso de novas tragédias.
A maior parte dos
sobreviventes fugiu para as montanhas, escondendo-se da
fúria de Masalai, o espírito maligno que habita o mar,
segundo a crença popular na Papua Nova Guiné. O país,
uma grande ilha dividida com a Indonésia, ao norte da
Austrália, é um dos países mais pobres e isolados do
mundo. Parte de seus 4,5 milhões de habitantes sobrevive
da caça, pesca e coleta, em condições de vida
semelhantes às da Idade da Pedra. O isolamento da
região arrasada pelo maremoto é tão grande que não
há estradas ligando-a ao resto do país. São comuns as
lutas tribais entre os clãs, nos quais predominam os
cultos de adoração aos espíritos da natureza. Para
essa gente, só mesmo o demônio Masalai seria
suficientemente malvado para provocar tantas mortes e
destruição.
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