Uma Inglaterra
para o século 21

Os planos de Tony Blair para entrar no próximo
milênio com um país mais ágil, criativo e arrojado

A maioria dos turistas vai à Inglaterra atraída pelo chá das 5, pelos cavalheiros de chapéu-coco na city londrina e pelos pubs onde se serve a típica cerveja morna. Nem de longe é esse país que Tony Blair tem em mente quando se põe a falar na "Nova Bretanha". Vista do gabinete do primeiro-ministro no número 10 da Downing Street, a Inglaterra é uma nação ágil, arrojada e criativa, o mais pós-industrial rincão do planeta. Como Blair acredita que nem todo mundo percebeu a diferença, a prioridade de seu governo é mudar a imagem do país, para torná-lo um modelo para o século XXI. É o que a imprensa apelidou de "Cool Britannia", juntando a gíria que significa "na moda" com um dos hinos nacionais, Rule Britannia.

O momento é realmente especial, com o país mergulhado em efervescência econômica. Ao contrário do que ocorre na maioria de seus vizinhos na União Européia, o desemprego é baixo (4,5%) e o crescimento, animador (2,5%), com fartura de novos negócios. A música pop, com sucessos como a banda Oasis e as Spice Girls, já é o principal item da pauta de exportação inglesa. Na área de jogos para computador, a Inglaterra responde por 25% das vendas mundiais, atrás apenas do Japão. Nem parece o mesmo país onde, apenas treze anos atrás, a primeira-ministra Margaret Thatcher jogou tudo num feroz confronto com 180.000 mineiros de carvão em greve. A indústria carvoeira emprega hoje 13.000 pessoas, ninharia em relação ao ramo de hotelaria e alimentação, com 300.000 empregados.

Ou tudo ou nada Blair concluiu que o futuro depende de o país se especializar nas chamadas indústrias criativas, como serviços, lazer e design. Seu governo está tão entusiasmado com o sucesso de filmes como Ou Tudo ou Nada que na semana passada, na contramão da política de acabar com os subsídios à indústria, anunciou a criação de uma versão inglesa da Embrafilme. Após dezoito anos de governos conservadores, o próprio Blair transpira juventude e charme, em contraste com seus predecessores, a austera Thatcher e o cinzento John Major. Terá sucesso em convencer o mundo e os próprios ingleses de que o país pode voltar a ser um líder mundial?

A questão é fundamental para a política externa que mais conta nos dias de hoje: a dos negócios. Como a produção pode ocorrer em qualquer lugar, o que pesa na hora da compra são o prestígio da empresa e a respeitabilidade do país de origem. Numa pesquisa realizada em trinta países, destinada a apurar quais são os dez setores em que a Inglaterra mais se destaca, oito pertencem à indústria cultural. Parece bom, mas tem seus riscos. "Não somos respeitados em outras áreas, apesar de sermos líderes de mercado, como no caso dos produtos farmacêuticos", observa a publicitária Lucy Farey-Jones, diretora de uma agência que tem entre seus clientes o Partido Trabalhista. O ponto fraco de Cool Britannia é exatamente o de tentar vender apenas um aspecto do país, o de produtor de moda. "Se a moda acaba, volta-se a ser o país do chá das 5 e dos hooligans", diz Farey-Jones.

Caça à raposa — O que Blair está fazendo é enfatizar um aspecto da Velha Albion, o mais parecido com o futuro. Os negócios de vanguarda estão concentrados nas grandes cidades, sobretudo em Londres. A Inglaterra tradicional e rural não o vê com bons olhos. No início do ano, 250.000 pessoas se reuniram na capital para protestar contra novidades como o projeto de proibir a caça à raposa e a proliferação de casas de campo em terras antes dedicadas à pecuária. "Não deve ser fácil para os marqueteiros do governo decidir qual das duas imagens enfatizar para atrair turistas", observa o historiador Ken Lunn, da Universidade de Portsmouth. "Mas não há dúvida de que a mentalidade dos ingleses está mudando e o Partido Trabalhista soube tornar-se o porta-voz dessa mudança."

Os ingleses estão trocando em massa a mal-afamada culinária gordurosa e insípida pelos temperos franceses e tailandeses. A própria bandeira nacional foi apagada dos aviões da British Airways no ano passado, dando lugar a desenhos de inspiração multiétnica. O símbolo desta nova Inglaterra está sendo construído na periferia leste de Londres: o Millennium Dome, um enorme pavilhão cor de alumínio que abrigará a exposição universal a ser aberta no último dia do século XX. O que se destaca agora no horizonte de Londres não é mais o Big Ben, mas a silhueta do Canary Wharf, o mais alto edifício comercial da Europa e a própria representação do país sonhado por Blair. A ironia é que ambos começaram a ser construídos em governos conservadores. A prosperidade econômica também é uma herança de Margaret Thatcher. Se tudo der certo, Blair deixará sua marca como o homem que preparou a Inglaterra para o próximo milênio.

O que é cool

Indústria cultural, design e tecnologia de ponta

Cozinha francesa e tailandesa e champanhe

Família real

Banda Oasis

Autonomia para Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte

Os filmes Trainspotting e Ou Tudo ou Nada

Millennium Dome

União Européia

Informalidade

O arranha-céu Canary Wharf

BMW

Decoração minimalista

Restaurantes e casas noturnas

Futebol

O que não é cool

Indústria siderúrgica e de mineração

Peixe com fritas, torta de rins e cerveja quente

Partido conservador

Cantora Shirley Bassey

Bandeira britânica

Dramas históricos da BBC

Museu de cera de Madame Tussaud

Protocolo

Império britânico

Os tradicionais prédios do governo

Rolls-Royce

Cortinas de veludo e papel de parede

Ternos, tailleurs e chapéus

Pubs

Críquete

Vida no campo




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