O ícone negro

Herói da luta contra o racismo, Mandela visita o
Brasil antes de deixar o poder e uma herança difícil

Vladimir Netto

O menino Rolihlahla nasceu na tribo tembu, em Qunu, perdeu o pai cedo, foi educado pelo sábio Tatu Joyi, que lhe ensinou as primeiras magias, virou líder do Transkei e enfeitava o peito nu com miçangas da realeza tribal. É assim, adornada por palavras estranhas, que começou a ser construída uma das mais fascinantes biografias deste século: a de Nelson Rolihlahla Mandela, o herói da luta contra o apartheid, regime racista que durante quase cinco décadas massacrou os negros da África do Sul. Hoje, com 80 anos, idade em que os homens em geral só têm razões para se queixar da vida, Mandela é um político em absoluta paz com a própria biografia. Dedicou a vida à libertação do seu povo, começando pela militância num partido negro e pela adesão à luta armada. Passou 27 anos numa prisão, onde entrou com 44 anos e saiu com 72, para ser consagrado como o primeiro presidente negro da História da África do Sul. Virou herói dos negros e símbolo para todos os povos que lutam por liberdade, pelo direito à autodeterminação. Na semana passada, esse mito vivo desembarcou no Brasil, provavelmente na sua última viagem ao país antes de deixar o poder, no ano que vem. Almoçou nos jardins do Alvorada com o presidente Fernando Henrique, visitou o Congresso, recebeu um reitor e uma comitiva do PT liderada por Luís Inácio Lula da Silva.

Com biografia heróica e inatacável, Mandela era companhia extraordinária para os candidatos ao pleito de outubro. O presidente Fernando Henrique planejava uma visita mais grandiosa, de quatro dias, na qual Mandela desembarcaria em Salvador para visitar o Pelourinho, passaria por Brasília, comeria uma feijoada na quadra da Mangueira, no Rio de Janeiro, e visitaria São Paulo. Com o peso dos seus 80 anos, Mandela preferiu uma agenda mais tranqüila e ficou a maior parte do tempo na suíte do hotel em Brasília, junto com sua mulher, Graça, viúva do ex-presidente de Moçambique Samora Machel, com quem se casou, numa solenidade cheia de astros e estrelas de Hollywood, três dias antes de vir ao Brasil. Depois de cumprir seus compromissos, na terça-feira Mandela posou, constrangido, para uma foto ao lado de Lula (veja quadro). No dia seguinte, tomou o avião para Ushuaia, cidadezinha no extremo sul da Argentina, onde se encontrou novamente com Fernando Henrique e os demais presidentes dos países do Mercosul. Fez discurso pedindo a unidade das nações pobres do Hemisfério Sul e, mais uma vez, conquistou a platéia com seu carisma.

Anjo vingador Eleito em 1994, no primeiro pleito multirracial da África do Sul, que marcou o enterro do regime racista, Mandela chegou ao poder com enorme autoridade moral, mas sob uma nuvem de previsões sombrias. Depois de quase cinco décadas isolados em guetos e vivendo sob um regime bárbaro de segregação racial, cuja brutalidade só é comparável ao nazismo, muitos previram que os negros iriam armar-se para a revanche contra a minoria branca, provocando um banho de sangue no país. Com baixa escolaridade e sem experiência na administração pública, os negros iriam também, segundo essas previsões agourentas, conduzir à decadência a África do Sul, a maior potência econômica da região, dona de 50% do PIB industrial do continente africano. Depois de 27 anos de cadeia, Mandela deixou a prisão, não como anjo vingador, mas como pacificador da nação. Sentou-se à mesa de negociações com Frederik de Klerk, último líder do regime que instituíra o apartheid, mas já um político sensível à necessidade de compartilhar o poder com os negros. Em 1993, Mandela dividiu com De Klerk o Prêmio Nobel da Paz. No ano seguinte, presidindo o país, conseguiu o feito memorável de capitanear uma transição pacífica do regime racista para a democracia.

Brancos ao mar — Duas forças levaram a esse desfecho. Nos anos 50, Mandela, um advogado ativo e carismático que militava no partido do Congresso Nacional Africano, atiçava as massas negras contra o apartheid com uma campanha de desobediência civil. Nos anos 60, depois do célebre massacre de Sharpeville, no qual a polícia matou 67 negros, Mandela resolveu fundar a Lança da Nação, um grupo guerrilheiro, para derrubar o apartheid. Excelente orador e péssimo atirador, foi preso em 1962, condenado à prisão perpétua e usou seu tempo de carceragem para uma lição de vida. O prisioneiro 466 saiu conciliador e sem ódio. Com um perfil levemente semelhante ao de Ernesto Che Guevara, guerrilheiro da Revolução Cubana, Mandela se transformara numa personalidade mais parecida com a de Mahatma Gandhi, pacifista libertário da Índia. Do outro lado do balcão, encontrou os líderes brancos com uma disposição à negociação que nunca se vira antes. A minoria branca já não estava disposta a seguir os preceitos de Hendrik Verwoerd, ideólogo do apartheid dos anos 40 segundo o qual os brancos deveriam fazer qualquer sacrifício em nome da pureza racial.

Sob o comando de Mandela, a África do Sul deu um belíssimo exemplo ao mundo, mas os desafios que tem pela frente são monumentais. No ano que vem, Mandela concluirá seu mandato e se aposentará da política. Pretende que seu sucessor seja o atual vice-presidente, o negro Thabo Mbeki, um tipo cosmopolita, fumante de cachimbo, homem de diálogo mas com maior inclinação esquerdista. Sem a biografia de pai da pátria, Thabo Mbeki enfrentará uma herança difícil. Os negros devotam um respeito reverencial a Mandela, mas estão cada vez mais impacientes com a lentidão das mudanças. Antes confinados aos guetos e às áreas rurais, os negros agoram andam livremente pelo país, mas têm inchado as favelas na periferia das grandes cidades. Em Johannesburgo, a segunda maior cidade do país, um negro tem dez vezes mais chance de ser vítima de um assassinato do que um branco. O desemprego no país é enorme, perto de 30%, mas entre os brancos a taxa não passa de 6%. Os sistemas de educação e saúde estão sobrecarregados, os filhos dos negros ainda morrem de tuberculose e a diferença de escolaridade permanece abissal. Entre os negros, 46% são analfabetos. Entre os brancos, só 1%. Para piorar, há combates sangrentos entre negros de diferentes tribos e partidos políticos.

Fortaleza medieval — Com uma dominação branca de 350 anos, radicalizada no período grotesco do apartheid, os brancos aceitaram o fim do regime racista, em parte porque concluíram que poderiam manter seu confortável padrão de vida. Estavam certos. Hoje, os brancos, que compõem 12% da população, ainda são donos de metade da renda nacional, os maiores conglomerados empresariais do país estão nas suas mãos, e apenas 8% dos bons empregos são ocupados por negros. Se os brancos sul-africanos morassem num país independente, seriam a 24ª nação mais confortável do mundo, atrás da Espanha. Já o país dos negros ficaria na 123ª posição, ao lados das nações mais pobres do planeta. Ainda assim, os brancos estão insatisfeitos. Muitos estão deixando o país, para fugir da criminalidade em alta e da política de "ação afirmativa", que cria espaços privilegiados para os negros nas escolas e empresas. Nos dois primeiros anos do governo Mandela, 30.000 sul-africanos deixaram o país, a maioria deles pertencente à categoria dos profissionais brancos bem qualificados, gente que faz falta na hora de reconstruir o país. A tendência de evasão permanece com a perspectiva da aposentadoria de Mandela, pois há grupos negros que só esperam o herói nacional partir para, como dizem, "jogar os brancos ao mar".

Com uma renda per capita um pouco inferior à do Brasil, os 43 milhões de sul-africanos, brancos e negros, têm enfrentado também um problema econômico. No governo Mandela, a inflação e o déficit público estão sob controle, mas a economia está parada e o desemprego é uma chaga ardente. O país está pagando pelos erros do passado. Os líderes do apartheid ergueram uma catedral de privilégio do capitalismo branco, com uma economia altamente protegida e oligopolizada, o que derrubou a capacidade de sua indústria de competir no mundo. Para Mandela, abrir as fronteiras econômicas do país foi uma atitude muito mais pacífica do que no caso do Brasil. A razão é simples. Durante décadas, o mundo condenou o apartheid e clamou pela libertação de Mandela, enquanto submetia a África do Sul a todo tipo de boicote, do esportivo ao econômico. Assim, os sul-africanos negros sempre viram o mundo como aliado, uma espécie de tribunal moral. Quando Mandela começou a integrar a economia sul-africana ao mundo, não houve resistência. Apesar disso, o país tem recebido pouco investimento externo, não consegue atender às demandas sociais e está menos integrado ao comércio mundial do que o Brasil. O país, que, neste final de século, era a fortaleza mais retrógrada do planeta, com idéias pré-iluministas e um ideário medieval, naturalmente não consegue mudar de uma hora para outra. O melhor resumo dos desafios talvez tenha sido feito pela escritora Nadine Gordimer, Nobel de Literatura em 1991. "Eu gostaria de saber", diz ela, "por que depois de quatro anos todos esperariam que nós tivéssemos uma democracia perfeita. Dêem-nos um pouco mais de tempo".

Uma foto a contragosto

O PT teve duas grandes decepções na semana passada. A primeira aconteceu com o presidente Nelson Mandela, herói da luta contra o regime racista da África do Sul. Na sua visita ao Brasil, Mandela mostrou-se à vontade com o presidente Fernando Henrique, almoçou no Palácio da Alvorada, posou sorridente para fotos (acima) e ainda elogiou o governo. Falou bem do Plano Real, do Comunidade Solidária e do programa de agricultura familiar. O PT, que sempre tratou o líder sul-africano como um aliado, um político muito mais afinado com as idéias petistas do que com os tucanos, ficou perplexo. E esforçou-se para fotografar Luís Inácio Lula da Silva com Mandela, como forma de recuperar uma certa proximidade. O encontro, marcado às pressas, durou vinte minutos. A comitiva petista chegou ao hotel de Mandela em Brasília com um fotógrafo, Juan Pratginestos, que acabou barrado na porta. O fotógrafo tentou a escada de serviço, mas foi barrado de novo. A salvação foi a câmera do presidente da CUT, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho. Visivelmente constrangido, Nelson Mandela posou para a foto. Não sorriu, como nas fotos que tirou ao lado de FHC.

A outra decepção veio com a visita ao Brasil de Peter Mandelson, eminência parda do primeiro-ministro inglês, Tony Blair. Mandelson chegou na segunda-feira, jantou com Fernando Henrique e deu uma entrevista dizendo que as idéias de Lula são "retrógradas". Quando o trabalhista Blair foi eleito, no ano passado, derrotando os conservadores, o PT interpretou a ascensão do político inglês como um renascimento da esquerda européia e um sinal de que o "neoliberalismo" estava com os dias contados. Associando-se à vitória de Blair, o PT chegou a colocar algumas idéias do primeiro-ministro no seu programa de governo. Tudo era entusiasmo até o momento em que Mandelson, definindo o PT como atrasado, acabou com a ilusão dos petistas. O partido de Lula está tentando agora um encontro com o líder socialista francês, Lionel Jospin. Tem esperança de receber um afago depois de tantas decepções.

Fotos: Jamil Bittar/Folha Imagem, Divulgação




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