Tudo contra o social

"Nesse campo, o Brasil perde para
toda a vizinhança latino-americana"

Marcos Sá Corrêa

Elizabeth Tognato

Teste de urna: Lula anuncia que gastará 50 bilhões de reais no combate à pobreza e Fernando Henrique promete duplicar para 40 bilhões o orçamento da Saúde, mas como bilhão, em boca de candidato, soa muito parecido, o presidente esclarece que, em contraste com o adversário, ele sabe dizer de onde virá o dinheiro para cumprir a promessa. Ganhou Fernando Henrique. Certo?

Não, errado. Ambos perderam a oportunidade de sacar um relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada sobre gastos sociais no Brasil levado neste mês pelo economista Marcelo Côrtes Néri a uma conferência internacional em Santo Domingo. O Ipea, agência do Ministério do Planejamento que se dedica a decifrar com números os enigmas nacionais, responde: o dinheiro que circula pelo governo com esse título costuma perder freqüentemente o endereço dos pobres. Portanto, mais importante do que explicar de onde ele vem é dizer para onde ele vai. Senão, ele se esconde em gabinetes.

Veja-se um exemplo tirado do mostruário de êxitos de Fernando Henrique: o Programa Nacional de Alimentação Escolar. Alimentou 35 milhões de crianças no ano passado e agora foi refogado pelos marqueteiros de Brasília, para encorpar o trivial da campanha. Entregue ao Comunidade Solidária, sua verba cresceu 62% desde 1994 e chegou a 672 milhões de reais. Alguém sabe quanto é isso? É mais ou menos 1,4% mais do que os 663 milhões que, na mesma época, a União despejou em benefícios extra-salariais sobre os servidores públicos.

À primeira vista, uma conta nada tem a ver com a outra. Mas elas são ligadas, em primeiro lugar, pelos laços da aritmética. Nesse caso, formam uma subtração: o recurso consumido pelo tíquete-refeição dos funcionários não pinga evidentemente no prato da escola. Mas a contabilidade oficial não pensa assim. Para ela, trata-se de uma soma. As duas despesas se empilham no carnê de compromissos sociais da República. Ali, multiplicando-se num labirinto de rubricas, produzem um milagre contábil. O Brasil é o recordista latino-americano em gastos sociais. Destina-lhes 21% do PIB, juntando a União, os Estados e os municípios. Seria um feito suficiente para sacudir o berço esplêndido se não pesassem nesse número todos os serviços que o Estado presta de preferência à parte da sociedade brasileira situada da classe média para cima, desde a Previdência e os benefícios de servidores até a manutenção de universidades públicas e programas de apoio à ciência e à tecnologia.

Debulhada, a conta fica em 2% do PIB. É o que sobra para os "gastos sociais básicos" — educação fundamental, saneamento, distribuição de alimentos, controle sanitário e outras providências recomendadas pela ONU contra a pobreza. Nisso, o Brasil perde para toda a vizinhança latino-americana. É um país onde em elevador social pobre não entra. Pelo visto, em programa social também não.

Uma experiência simples da Secretaria de Saúde da Bahia acabou com uma cena que era comum na região metropolitana de Salvador, a de mães em início de trabalho de parto na fila de espera dos hospitais. Uma central telefônica, que funciona o dia todo, informa onde há leitos disponíveis entre as dez maternidades públicas da região. A gestante informa se já está em trabalho de parto e recebe uma reserva no hospital mais próximo. Assim, quando ela chega à maternidade, já há uma equipe médica de plantão. Desde março, quando foi implantada, a central já fez reservas para 3500 partos, um em cada quatro dos ocorridos nos hospitais públicos.

Foto: Aristeu Chagas




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