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| Moema Cavalcanti |
A imagem lastimosa da chegada ao aeroporto de São Paulo dos dekasseguis, os nipo-brasileiros, rechaçados do Japão pela crise asiática, marca uma nova etapa na construção da identidade nacional. O povoamento do nosso território por cerca de 4 milhões de africanos (até 1850) e 5 milhões de europeus, levantinos e nipônicos (até 1950) teve cores dramáticas. Guerras sem quartel contra os indígenas, deportação de milhões de escravos, desembarque de proletários brancos e asiáticos em condições de semi-servidão. Veio também gente espontaneamente, tangida pelas desgraças que a impelia aos diversos quadrantes do mundo.
Todo esse mundaréu de imigrantes tinha idéia de que havia por aqui terras e matas virgens, mas sabia pouco a respeito do país onde iria deitar raízes. Houve no passado, e ainda tem curso no presente, um "american dream", atraindo para os Estados Unidos milhões de estrangeiros esperançosos de uma rápida ascensão social na democracia mais rica do mundo. Imaginar que tenha existido um "sonho brasileiro", da dimensão do fenômeno americano, seria forçar a barra. As sondagens mostram que os brasileiros em geral aqueles cujas origens remontam aos primeiros povoadores e os aqui chegados posteriormente nutrem esperanças no vir-a-ser do país. Mas nem sempre têm boas lembranças do que ficou para trás. O reverso da idéia de "Brasil, país do futuro" embute um esconjuro do passado brasileiro: nosso azar não é eterno, as coisas só podem melhorar.
Sair do país natal, emigrar para ganhar o pão cotidiano em terras estrangeiras, é sempre um trauma. Tanto para os emigrantes como para a nação que os vê partir. Há, ou deveria haver, certa vergonha entre os que ficam, vendo seus concidadãos pobres, mal preparados, deixar a pátria madrasta. Na altura que Portugal registrava saídas maciças de emigrantes, na segunda metade do século XIX, o grande historiador e político lusitano Oliveira Martins (1845-1894) ironizou o destino de seu país, que se apresentava como uma potência européia, mas gerava "gado humano para exportação". No Brasil das últimas décadas deste século, teatro das primeiras vagas de emigração de nossa história, não há debate sobre o assunto. Decerto porque existem muitos deserdados que aqui ficam. Decerto, também, porque as divisas que nossos emigrantes têm remetido ajudam a recauchutar as reservas do Banco Central. Há cálculos das perdas financeiras do país com o desemprego dos emigrantes. Mas pouco se fala sobre o drama do desenraizamento familiar e cultural do trabalhador brasileiro no estrangeiro, sobre o "dilaceramento do desaninho", na expressão do escritor português Miguel Torga, imigrante no Brasil na sua juventude.
Quando o emigrante é brasileiro de extração recente, descendente próximo de imigrantes, o sentimento parece ser ainda mais complexo. E alguns de nossos emigrantes, enquanto voavam do Brasil para Nova York ou Boston, deviam perguntar-se: por que cargas-d'água, cinqüenta anos atrás, os meus avós não embarcaram num navio do Japão, da Itália, da Europa Central, do Oriente Médio direto para os Estados Unidos?
Muitos dekasseguis imaginaram reencontrar no Japão suas antigas origens. Não foi bem assim. Houve sucessos, mas também muita frustração depois da longa viagem através do Pacífico. Agora, nos aeroportos de São Paulo e do Paraná, se desenrola o último ato do drama da imigração que arribou no Brasil. No falhanço do reencontro com o Japão desponta o encontro definitivo com a brasilidade. Diz-se que o choro dos dekasseguis no retorno é mais forte do que seus prantos na ida para o Japão. Talvez porque já saibam das dificuldades para transformar a pátria madrasta em mãe gentil dos filhos deste solo.
Luiz Felipe de Alencastro é historiador
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S.A. |