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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
Em se plantando dá
"A educação melhora somente
quando se
torna o centro de gravidade do governo, e
assim persiste por vários anos. Competência
e pragmatismo são tudo. Partido não interessa"
Ante o atraso enorme da educação
brasileira, somos soterrados pelo pessimismo, sobretudo ao notar
que as lideranças nacionais não têm sequer a
consciência do problema. Nessas horas, é bom lembrar
que vivemos em um país federativo, onde há um bom
naco de responsabilidade na mão dos estados. E, se prestarmos
atenção, alguns levaram a sério a decisão
de tirar o atraso. Vejamos o exemplo de dois estados pouco lembrados:
Acre e Sergipe.
No Acre, completam a segunda
gestão um governador e um vice que puseram a educação
no primeiro plano. Encontraram um estado conflagrado e com suas
escolas degradadas. A primeira providência que tomaram foi
melhorar a gestão e reduzir uma burocracia central inchada,
emagrecendo-a de 1.200 para 400 funcionários. Em seguida,
as atenções focalizaram a construção
e a reforma das escolas. Escola bonita e cores alegres fazem subir
o astral de todos. Recentemente, a escolha de diretores passou a
ser feita em duas etapas: concurso e eleição.
Para os alunos repetentes, foi
criado o Poronga, um programa inovador, utilizando a experiência
e os materiais do Telecurso 2000. À medida que mais alunos
de escolas públicas chegavam ao fim do ensino médio,
o governo fez um acerto com a universidade federal, pelo qual o
estado financia a expansão da sua rede em outras cidades.
Os resultados estão aí.
A matrícula cresceu, tirando o estado da rabeira. Melhor
ainda, os escores do Sistema Nacional de Avaliação
da Educação Básica (Saeb) mostram expressivo
aumento na pontuação em português (matemática
ainda é um problema).
Ilustração Ale Setti
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Faz poucos anos, Sergipe resolveu cuidar seriamente de seu ensino.
O governador define a educação como sua prioridade.
Iniciou dois programas com o Instituto Ayrton Senna, experimenta
um novo método de alfabetização infantil e
está implantando as fórmulas gerenciais do professor
Vicente Falconi Campos.
As avaliações mostram
quais são os professores com melhor desempenho, para recompensá-los
com prêmios e um subsídio para que comprem o próprio
computador. Algumas escolas estão sendo convertidas em estabelecimentos-modelo,
começando a receber estudantes selecionados por seu talento.
Foram criados pré-vestibulares gratuitos para alunos da escola
pública e são oferecidos prêmios aos mais bem
colocados na universidade federal. Ainda é cedo para os resultados
aparecerem no Saeb e no censo escolar. Mas, se o estado persistir
nessa linha, é inevitável que os resultados sejam
visíveis em breve.
Tais avanços confirmam
os registrados em Minas Gerais, na década de 90, onde se
originaram algumas das idéias adotadas pelo Acre e por Sergipe.
Por exemplo, dinheiro para as escolas, redução severa
da burocracia central e um sistema pioneiro de avaliação,
de todas as escolas. Os diretores passaram a ser escolhidos por
concurso seguido de eleição dentre os mais bem colocados.
A fórmula mostrou resultados excepcionais. Nas avaliações
do Saeb, após oito anos, Minas saltou da nona para a primeira
colocação.
Esses três exemplos têm
muitos traços comuns. O primeiro e mais decisivo é
o comprometimento do governador e de sua equipe próxima.
A educação melhora somente quando se torna o centro
de gravidade do governo, e assim persiste por vários anos.
Competência e pragmatismo são tudo. Partido não
interessa.
A burocracia das secretarias
precisa ser domada, pois é foco crônico de fisiologismo,
reduz a capacidade do estado de oferecer educação
de qualidade e sangra os orçamentos. As intervenções
são poucas, cuidadosamente escolhidas e implementadas seriamente.
É preciso que as ações mirem naquilo que aperfeiçoa
a sala de aula. Mil penduricalhos e programinhas não resultam
em nada.
Finalmente, todos tiveram uma
pontaria certeira para identificar e atrair as melhores cabeças
do país, a fim de ajudar na concepção e na
execução dos planos. Igualmente, são importados
os programas mais inteligentes e eficazes, vários deles iniciativas
da responsabilidade social de empresas. Os resultados tardam pouco.
Se dois estados de pouca tradição prévia na
área estão acertando, aí está a prova
eloqüente de que é possível melhorar a nossa
educação.
Claudio de Moura Castro é
economista
(Claudio&Moura&Castro@attglobal.net)
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