|
|
Música Tiozinhos
do rock Em seu quarto disco-solo, o cantor Nasi
mostra como envelhecer no mundo pop
Otávio
Dias de Oliveira
 | | Nasi:
sim, o tempo passa |
Um dilema já
enfrentado há algum tempo em países onde o gênero tem raízes
mais distantes, como Inglaterra e Estados Unidos, está se apresentando
agora aos artistas brasileiros: como envelhecer no rock? O lançamento de
Onde os Anjos Não Ousam Pisar, disco-solo do cantor Nasi, faz saltar
essa questão. Nasi tem 44 anos e também é vocalista do Ira!,
grupo paulista surgido em 1980. Isso significa que ele começou a cantar
rock na saída da adolescência e continua fazendo a mesma coisa ao
entrar na meia-idade. Ou seria quase a mesma coisa? Qualidade das canções
à parte (e algumas são bastante boas, como Corpo Fechado), Onde
os Anjos Não Ousam Pisar é interessante porque mostra muito
bem o que a idade dá e tira dos roqueiros.
Os efeitos do tempo sobre um ouvinte de rock são um tema que o escritor
inglês Nick Hornby tem explorado com atenção quase que filosófica.
Se você se esforça um pouco para amadurecer, costuma dizer ele, a
idade traz benefícios como autoconfiança (que torna dispensável
o apoio de rebeldes musicais), maior discernimento (estético inclusive)
e um decréscimo na paciência com coisas que são apenas barulhentas
e inconseqüentes. Tudo isso reduz a tolerância ao rock, embora não
seja sábio excluí-lo totalmente do horizonte. Nas circunstâncias
corretas, afirma Hornby, um bom riff de guitarra pode ter o mesmo efeito de uma
dieta calórica: uma injeção de energia. O músico de
rock passa pelas mesmas transformações do ouvinte. Mas, se não
quiser se aposentar, precisará achar o equilíbrio entre seus interesses
de meia-idade e a necessidade mercadológica de fazer canções
que atraiam adolescentes e pós-adolescentes os grandes consumidores
do gênero. Uma das estratégias mais
comuns é fazer experiências em searas mais nobres, como a do jazz
ou até a da música erudita. Por exemplo: Roger Waters, líder
do Pink Floyd, criou uma ópera sobre a Revolução Francesa.
E o cantor Elvis Costello, que moldou sua carreira no movimento punk, gravou discos
de jazz e compôs um balé e uma ópera. Outra coisa que os artistas
fazem, sobretudo quando têm preocupações políticas,
é usar sua celebridade. Ao transformarem discurso em ação,
eles ganham um sentido "adulto" de poder e força. Foi o caminho seguido
por Bono Vox, do U2, e pelo cantor Sting. A saída
mais melancólica é fingir que o tempo não passa. Isso equivale
a insistir nas letras pueris, nas poses de garotão. Infelizmente, esse
tem sido o caminho preferido dos roqueiros brasileiros. O Capital Inicial decidiu
gravar agora músicas que seus integrantes compuseram mais de vinte anos
atrás, no grupo Aborto Elétrico. O Kid Abelha faz canções
para meninas que colecionam papel de carta. Os Titãs criam letras de protesto
com palavrões, como Vossa Excelência. Em contraste, a saída
de Nasi até que é honrada. Ele exibe um certo estoicismo
como se dissesse "pois é, o tempo passa mesmo, aqui estou eu com três
filhos e uma voz mais rouca, mas na ativa". Ele também está seguro
de seu gosto e decidido a fazer o que quer: o novo CD demorou três anos
para ficar no ponto com seus blues, rocks e algumas colagens de estilos. O espírito
adolescente sobrevive nas letras. "Eu sou um animal!", canta ele. Ou então:
"Mulher é como sombra, se você corre atrás ela foge". No Brasil
ou lá fora, o melhor trabalho de um roqueiro é sempre feito na juventude.
Mas é possível envelhecer com graça. |