Edição 1949 . 29 de março de 2006

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Música
Tiozinhos do rock

Em seu quarto disco-solo, o cantor Nasi
mostra como envelhecer no mundo pop

Otávio Dias de Oliveira
Nasi: sim, o tempo passa


Um dilema já enfrentado há algum tempo em países onde o gênero tem raízes mais distantes, como Inglaterra e Estados Unidos, está se apresentando agora aos artistas brasileiros: como envelhecer no rock? O lançamento de Onde os Anjos Não Ousam Pisar, disco-solo do cantor Nasi, faz saltar essa questão. Nasi tem 44 anos e também é vocalista do Ira!, grupo paulista surgido em 1980. Isso significa que ele começou a cantar rock na saída da adolescência e continua fazendo a mesma coisa ao entrar na meia-idade. Ou seria quase a mesma coisa? Qualidade das canções à parte (e algumas são bastante boas, como Corpo Fechado), Onde os Anjos Não Ousam Pisar é interessante porque mostra muito bem o que a idade dá e tira dos roqueiros.

Os efeitos do tempo sobre um ouvinte de rock são um tema que o escritor inglês Nick Hornby tem explorado com atenção quase que filosófica. Se você se esforça um pouco para amadurecer, costuma dizer ele, a idade traz benefícios como autoconfiança (que torna dispensável o apoio de rebeldes musicais), maior discernimento (estético inclusive) e um decréscimo na paciência com coisas que são apenas barulhentas e inconseqüentes. Tudo isso reduz a tolerância ao rock, embora não seja sábio excluí-lo totalmente do horizonte. Nas circunstâncias corretas, afirma Hornby, um bom riff de guitarra pode ter o mesmo efeito de uma dieta calórica: uma injeção de energia. O músico de rock passa pelas mesmas transformações do ouvinte. Mas, se não quiser se aposentar, precisará achar o equilíbrio entre seus interesses de meia-idade e a necessidade mercadológica de fazer canções que atraiam adolescentes e pós-adolescentes – os grandes consumidores do gênero.

Uma das estratégias mais comuns é fazer experiências em searas mais nobres, como a do jazz ou até a da música erudita. Por exemplo: Roger Waters, líder do Pink Floyd, criou uma ópera sobre a Revolução Francesa. E o cantor Elvis Costello, que moldou sua carreira no movimento punk, gravou discos de jazz e compôs um balé e uma ópera. Outra coisa que os artistas fazem, sobretudo quando têm preocupações políticas, é usar sua celebridade. Ao transformarem discurso em ação, eles ganham um sentido "adulto" de poder e força. Foi o caminho seguido por Bono Vox, do U2, e pelo cantor Sting.

A saída mais melancólica é fingir que o tempo não passa. Isso equivale a insistir nas letras pueris, nas poses de garotão. Infelizmente, esse tem sido o caminho preferido dos roqueiros brasileiros. O Capital Inicial decidiu gravar agora músicas que seus integrantes compuseram mais de vinte anos atrás, no grupo Aborto Elétrico. O Kid Abelha faz canções para meninas que colecionam papel de carta. Os Titãs criam letras de protesto com palavrões, como Vossa Excelência. Em contraste, a saída de Nasi até que é honrada. Ele exibe um certo estoicismo – como se dissesse "pois é, o tempo passa mesmo, aqui estou eu com três filhos e uma voz mais rouca, mas na ativa". Ele também está seguro de seu gosto e decidido a fazer o que quer: o novo CD demorou três anos para ficar no ponto com seus blues, rocks e algumas colagens de estilos. O espírito adolescente sobrevive nas letras. "Eu sou um animal!", canta ele. Ou então: "Mulher é como sombra, se você corre atrás ela foge". No Brasil ou lá fora, o melhor trabalho de um roqueiro é sempre feito na juventude. Mas é possível envelhecer com graça.

 
 
 
 
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