|
|
Cinema Bollywood
vem ao Rio Aishwarya Rai, uma das maiores
estrelas do planeta, está filmando há um mês no Brasil
e quase ninguém notou  Isabela
Boscov
Reginaldo
Teixeira
 | AFP
 | | Aishwarya,
com Abraham, no Rio, e num sári tradicional: Índia tipo exportação |
Na Índia, eles não podem dar três passos na rua sem se ver
no centro de uma multidão de adoradores. Quando visitam Londres, sede de
uma das maiores comunidades asiáticas do Ocidente, costumam hospedar-se
no Crowne Plaza de Buckingham, para aproveitar a proximidade com o palácio
da rainha Elizabeth II e sua segurança. No Rio de Janeiro, porém,
eles têm passado perfeitamente despercebidos sinal de que os brasileiros
ainda não acordaram para a segunda maior invasão cinematográfica
(a primeira, claro, é a americana) já registrada na história:
aquela que Bollywood, como é chamada a indústria de cinema de Mumbai,
ex-Bombaim, vem orquestrando. Em território carioca desde 28 de fevereiro
para filmar a continuação do sucesso indiano Dhoom (uma aventura
no estilo de Missão Impossível), astros de primeira magnitude,
como John Abraham e a belíssima Aishwarya Rai, têm freqüentado
boates, palmilhado praias, subido o Corcovado e trabalhado como VEJA registrou
em filmagens no Aeroporto do Galeão e até na Marquês
de Sapucaí sem atrair mais do que alguns olhares curiosos. No que depender
do fervilhante cinema indiano, porém, essa indiferença não
vai perdurar. Um gigante que a cada ano produz 800 filmes e vende em média
3 bilhões de ingressos só em seu próprio país, Bollywood
está se dando conta daquilo que sua colega mais célebre, Hollywood,
já calculou na ponta do lápis: para lucrar de verdade, é
preciso exportar. Graças à
sua investida no restante do Oriente, facilitada pela afinidade cultural, hoje
40% do que Bollywood fatura já vem de mercados estrangeiros. Mas por que
se contentar com países nos quais o ingresso de cinema é barato
se se pode vender para tantos outros onde o bilhete custa uma fortuna? Esse é
o raciocínio que começa a orientar os produtores de Bollywood
e ele lhes foi ensinado pela recente pujança econômica de seu próprio
país. Estima-se que, nos últimos anos, 150 milhões de indianos
tenham ascendido à classe média e se tornado freqüentadores
dos caros multiplex instalados nas grandes cidades. Não só o retorno
financeiro aumentou como Bollywood despertou para o fato de que é preciso
atender aos gostos mais mundanos desses emergentes. E aí, em parte, está
a chave para sua planejada incursão ocidental.
O típico filme de Bollywood é, aos olhos do Ocidente, uma criatura
exótica. De acordo com regras estabelecidas e respeitadas há décadas,
ele deve conter sempre drama, comédia, aventura e romance em nenhuma
ordem em particular, e sem aviso prévio quanto às mudanças
de registro. Os astros e especialmente as estrelas devem trocar de roupa dezenas
de vezes, pela única razão de que a platéia gosta de ver
figurinos bonitos e coloridíssimos. E, a intervalos regulares, eles devem
também cantar e dançar (numa produção típica,
doze vezes ou mais). Não que os atores precisem ser afinados. Em geral,
as canções são dubladas: um cantor faz todas as vozes masculinas
e uma cantora, todas as vozes femininas. O enredo é quase sempre uma variação
em torno de três personagens um mocinho valente, um vilão
de bigodes retorcidos e uma mocinha virginal (e virgem). A Índia que deu
origem ao Kama Sutra definitivamente não é a mesma que abriga
Bollywood: a moral sexual indiana é uma das mais inflexíveis do
mundo. Casais não se beijam em público nem na tela. Quando a temperatura
começa a esquentar entre o mocinho e a mocinha (e é praxe haver
uma cena do "sári molhado", em que os dois se atiçam mutuamente
sob as águas de uma cachoeira ou de uma fonte), dá-lhe dança.
Segundo os especialistas, esse tipo de filme sempre terá lugar de honra
na produção de Bollywood. Primeiro, porque ele é de grande
apelo junto ao imenso contingente rural e tradicional do país. Depois,
porque esse exotismo é indivisível de seu charme. Para
atravessar fronteiras, porém, esse estilo requer adaptações.
Em Lagaan, um dos filmes indianos mais comentados dos últimos tempos
(e o terceiro em toda a história a ser indicado ao Oscar, em 2002), o ator-produtor
Aamir Khan espécie de Tom Cruise local respeitou todas essas
convenções, mas moderou-as. Reduziu o número de intervenções
musicais, recrutou alguns atores ingleses e enfiou no enredo um (longo, longuíssimo)
jogo de críquete. Cineastas como Mira Nair, de Um Casamento à
Indiana, e Gurinder Chadha, de Driblando o Destino e Bride &
Prejudice (este com Aishwarya Rai), também têm feito sucesso
conjugando o colorido e a musicalidade nativos a tramas facilmente assimiláveis
pelo Ocidente. Em outra parte de Bollywood, contudo, há uma revolução
ainda mais profunda em andamento. Em Dhoom II, cujo set carioca VEJA visitou,
Aishwarya ou Esha, como os colegas a chamam não veste sári,
e sim um moderninho jeans de cintura baixa. Também não interpreta
uma mocinha inocente, mas uma detetive que se faz passar por bandida para desbaratar
uma quadrilha e, catástrofe, se apaixona pelo líder dos criminosos.
Outra integrante do elenco, a ex-modelo Bipasha Basu, protagoniza peripécias
sobre uma prancha de surfe e está freqüentando aulas quatro vezes
por semana, na Praia do Pepê. Para atrizes que alguns anos atrás
cairiam em desgraça por andar de mãos dadas com um homem, trata-se
de uma verdadeira declaração de independência. Mas as mudanças
não param por aí: Bollywood, pátria por excelência
do escapismo mais até do que sua contrapartida americana ,
tem também filmado roteiros que tratam da condição feminina,
de diferenças religiosas e de problemas sociais. Segundo os mesmos especialistas
que prevêem vida longa ao típico filme de Bollywood, essas inovações
ainda não disseram a que vieram. Tanto podem ajudar o cinema indiano a
transitar pelo Ocidente quanto podem descaracterizá-lo e, assim, neutralizar
aquele que é seu maior atrativo para o público estrangeiro.
O que é certo é que, por maior que seja o ímpeto com que
Bollywood venha a romper barreiras, não se verá no Brasil, na Austrália
ou na França uma repetição de um fenômeno ainda mais
indiano do que o curry: a idolatria que os fãs dedicam a seus astros. A
Índia vive fraturada entre centenas de castas e de seitas religiosas, mas
une-se na devoção aos ícones do cinema. Dizer que Aishwarya
Rai é uma versão indiana de Julia Roberts, por exemplo, não
chega nem perto de descrever a realidade dos fatos. No Rio, a Miss Mundo 1994
circula tranqüila. Em seu país, ela é uma divindade, tão
inatingível quanto qualquer outra do panteão hinduísta (e
não é improvável que tenha ainda mais fiéis do que
este). Quando Amitabh Bachchan, uma lenda viva de Bollywood, começou a
apresentar uma edição de Who Wants to Be a Millionaire? na
televisão indiana, em 2000, ele derrubou de tal forma a venda de ingressos
de cinema que os donos de circuitos exibidores se juntaram para pedir a ele que
mudasse o horário do programa (foram atendidos). Vários anos antes,
em 1982, Bachchan já ocasionara uma comoção popular sem precedentes.
Hospitalizado por causa de um acidente de filmagem, ele levou adoradores a penitências
carnais (um deles correu 800 quilômetros de costas como oferenda aos deuses)
e foi visitado pela primeira-ministra Indira Gandhi, de quem não se esperava
mesmo nada menos do que isso. Esse fanatismo que Bachchan, Aishwarya ou outros
do mesmo calibre, como Salman Khan e o Aamir Khan de Lagaan, são
capazes de inspirar tem contudo um reverso: o horror que os indianos dedicam aos
atores que vivem de interpretar vilões (que não raro se vestem a
caráter em suas entrevistas e aparições públicas).
É célebre, por exemplo, o caso de Pran Sikand, que por mais de duas
décadas foi o vilão cinematográfico que os indianos mais
amavam odiar: diz a lenda que, durante esse mesmo período, nenhum cartório
do país registrou um menino com o nome de Pran. Que ninguém conte
aos fãs, então, o que Aishwarya Rai andou fazendo no último
domingo, em companhia de toda a sua equipe: enquanto a alguns milhares de quilômetros
de distância dali seus compatriotas garantiam a paz de suas vacas sagradas,
ela se refestelava na churrascaria Porcão Rio's. Até para as deusas,
um rodízio é uma tentação irresistível
nem que seja só para olhar. Com
reportagem de Diana Rocha, do Rio de Janeiro
|