Edição 1949 . 29 de março de 2006

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Cinema
Bollywood vem ao Rio

Aishwarya Rai, uma das maiores estrelas
do planeta, está filmando há um mês
no Brasil – e quase ninguém notou


Isabela Boscov

 

Reginaldo Teixeira
AFP
Aishwarya, com Abraham, no Rio, e num sári tradicional: Índia tipo exportação

Na Índia, eles não podem dar três passos na rua sem se ver no centro de uma multidão de adoradores. Quando visitam Londres, sede de uma das maiores comunidades asiáticas do Ocidente, costumam hospedar-se no Crowne Plaza de Buckingham, para aproveitar a proximidade com o palácio da rainha Elizabeth II e sua segurança. No Rio de Janeiro, porém, eles têm passado perfeitamente despercebidos – sinal de que os brasileiros ainda não acordaram para a segunda maior invasão cinematográfica (a primeira, claro, é a americana) já registrada na história: aquela que Bollywood, como é chamada a indústria de cinema de Mumbai, ex-Bombaim, vem orquestrando. Em território carioca desde 28 de fevereiro para filmar a continuação do sucesso indiano Dhoom (uma aventura no estilo de Missão Impossível), astros de primeira magnitude, como John Abraham e a belíssima Aishwarya Rai, têm freqüentado boates, palmilhado praias, subido o Corcovado e trabalhado – como VEJA registrou – em filmagens no Aeroporto do Galeão e até na Marquês de Sapucaí sem atrair mais do que alguns olhares curiosos. No que depender do fervilhante cinema indiano, porém, essa indiferença não vai perdurar. Um gigante que a cada ano produz 800 filmes e vende em média 3 bilhões de ingressos só em seu próprio país, Bollywood está se dando conta daquilo que sua colega mais célebre, Hollywood, já calculou na ponta do lápis: para lucrar de verdade, é preciso exportar.

Graças à sua investida no restante do Oriente, facilitada pela afinidade cultural, hoje 40% do que Bollywood fatura já vem de mercados estrangeiros. Mas por que se contentar com países nos quais o ingresso de cinema é barato se se pode vender para tantos outros onde o bilhete custa uma fortuna? Esse é o raciocínio que começa a orientar os produtores de Bollywood – e ele lhes foi ensinado pela recente pujança econômica de seu próprio país. Estima-se que, nos últimos anos, 150 milhões de indianos tenham ascendido à classe média e se tornado freqüentadores dos caros multiplex instalados nas grandes cidades. Não só o retorno financeiro aumentou como Bollywood despertou para o fato de que é preciso atender aos gostos mais mundanos desses emergentes. E aí, em parte, está a chave para sua planejada incursão ocidental.

O típico filme de Bollywood é, aos olhos do Ocidente, uma criatura exótica. De acordo com regras estabelecidas e respeitadas há décadas, ele deve conter sempre drama, comédia, aventura e romance – em nenhuma ordem em particular, e sem aviso prévio quanto às mudanças de registro. Os astros e especialmente as estrelas devem trocar de roupa dezenas de vezes, pela única razão de que a platéia gosta de ver figurinos bonitos e coloridíssimos. E, a intervalos regulares, eles devem também cantar e dançar (numa produção típica, doze vezes ou mais). Não que os atores precisem ser afinados. Em geral, as canções são dubladas: um cantor faz todas as vozes masculinas e uma cantora, todas as vozes femininas. O enredo é quase sempre uma variação em torno de três personagens – um mocinho valente, um vilão de bigodes retorcidos e uma mocinha virginal (e virgem). A Índia que deu origem ao Kama Sutra definitivamente não é a mesma que abriga Bollywood: a moral sexual indiana é uma das mais inflexíveis do mundo. Casais não se beijam em público nem na tela. Quando a temperatura começa a esquentar entre o mocinho e a mocinha (e é praxe haver uma cena do "sári molhado", em que os dois se atiçam mutuamente sob as águas de uma cachoeira ou de uma fonte), dá-lhe dança. Segundo os especialistas, esse tipo de filme sempre terá lugar de honra na produção de Bollywood. Primeiro, porque ele é de grande apelo junto ao imenso contingente rural e tradicional do país. Depois, porque esse exotismo é indivisível de seu charme.

Para atravessar fronteiras, porém, esse estilo requer adaptações. Em Lagaan, um dos filmes indianos mais comentados dos últimos tempos (e o terceiro em toda a história a ser indicado ao Oscar, em 2002), o ator-produtor Aamir Khan – espécie de Tom Cruise local – respeitou todas essas convenções, mas moderou-as. Reduziu o número de intervenções musicais, recrutou alguns atores ingleses e enfiou no enredo um (longo, longuíssimo) jogo de críquete. Cineastas como Mira Nair, de Um Casamento à Indiana, e Gurinder Chadha, de Driblando o Destino e Bride & Prejudice (este com Aishwarya Rai), também têm feito sucesso conjugando o colorido e a musicalidade nativos a tramas facilmente assimiláveis pelo Ocidente. Em outra parte de Bollywood, contudo, há uma revolução ainda mais profunda em andamento. Em Dhoom II, cujo set carioca VEJA visitou, Aishwarya – ou Esha, como os colegas a chamam – não veste sári, e sim um moderninho jeans de cintura baixa. Também não interpreta uma mocinha inocente, mas uma detetive que se faz passar por bandida para desbaratar uma quadrilha e, catástrofe, se apaixona pelo líder dos criminosos. Outra integrante do elenco, a ex-modelo Bipasha Basu, protagoniza peripécias sobre uma prancha de surfe e está freqüentando aulas quatro vezes por semana, na Praia do Pepê. Para atrizes que alguns anos atrás cairiam em desgraça por andar de mãos dadas com um homem, trata-se de uma verdadeira declaração de independência. Mas as mudanças não param por aí: Bollywood, pátria por excelência do escapismo – mais até do que sua contrapartida americana –, tem também filmado roteiros que tratam da condição feminina, de diferenças religiosas e de problemas sociais. Segundo os mesmos especialistas que prevêem vida longa ao típico filme de Bollywood, essas inovações ainda não disseram a que vieram. Tanto podem ajudar o cinema indiano a transitar pelo Ocidente quanto podem descaracterizá-lo e, assim, neutralizar aquele que é seu maior atrativo para o público estrangeiro.

O que é certo é que, por maior que seja o ímpeto com que Bollywood venha a romper barreiras, não se verá no Brasil, na Austrália ou na França uma repetição de um fenômeno ainda mais indiano do que o curry: a idolatria que os fãs dedicam a seus astros. A Índia vive fraturada entre centenas de castas e de seitas religiosas, mas une-se na devoção aos ícones do cinema. Dizer que Aishwarya Rai é uma versão indiana de Julia Roberts, por exemplo, não chega nem perto de descrever a realidade dos fatos. No Rio, a Miss Mundo 1994 circula tranqüila. Em seu país, ela é uma divindade, tão inatingível quanto qualquer outra do panteão hinduísta (e não é improvável que tenha ainda mais fiéis do que este). Quando Amitabh Bachchan, uma lenda viva de Bollywood, começou a apresentar uma edição de Who Wants to Be a Millionaire? na televisão indiana, em 2000, ele derrubou de tal forma a venda de ingressos de cinema que os donos de circuitos exibidores se juntaram para pedir a ele que mudasse o horário do programa (foram atendidos). Vários anos antes, em 1982, Bachchan já ocasionara uma comoção popular sem precedentes. Hospitalizado por causa de um acidente de filmagem, ele levou adoradores a penitências carnais (um deles correu 800 quilômetros de costas como oferenda aos deuses) e foi visitado pela primeira-ministra Indira Gandhi, de quem não se esperava mesmo nada menos do que isso. Esse fanatismo que Bachchan, Aishwarya ou outros do mesmo calibre, como Salman Khan e o Aamir Khan de Lagaan, são capazes de inspirar tem contudo um reverso: o horror que os indianos dedicam aos atores que vivem de interpretar vilões (que não raro se vestem a caráter em suas entrevistas e aparições públicas). É célebre, por exemplo, o caso de Pran Sikand, que por mais de duas décadas foi o vilão cinematográfico que os indianos mais amavam odiar: diz a lenda que, durante esse mesmo período, nenhum cartório do país registrou um menino com o nome de Pran. Que ninguém conte aos fãs, então, o que Aishwarya Rai andou fazendo no último domingo, em companhia de toda a sua equipe: enquanto a alguns milhares de quilômetros de distância dali seus compatriotas garantiam a paz de suas vacas sagradas, ela se refestelava na churrascaria Porcão Rio's. Até para as deusas, um rodízio é uma tentação irresistível – nem que seja só para olhar.

Com reportagem de Diana Rocha, do Rio de Janeiro

 

 

 
 
 
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