|
|
Cinema Como
sobreviver ao dilúvio Versátil
e talentoso, o diretor brasileiro Carlos Saldanha se destaca no mercado
ultracompetitivo da animação com A Era do Gelo 2
 Isabela
Boscov Divulgação
 | | O
mamute Manny, o tigre Diego e a preguiça Sid: afinal, o que querem as fêmeas?
|
Se
viver num mundo coberto de gelo não é para qualquer um, sobreviver
ao degelo desse mesmo mundo pode ser ainda mais atordoante e é com
esse argumento simpático, sobre a troca do familiar pelo desconhecido,
que A Era do Gelo 2 (Ice Age: the Meltdown, Estados Unidos, 2006)
não apenas consolida a divisão de animação do estúdio
Fox como uma das forças do mercado, junto com a Disney, a Pixar e a DreamWorks,
mas também confirma a posição de seu diretor, o carioca Carlos
Saldanha, como um dos mais versáteis e empreendedores artistas do ramo.
O filme que estréia nesta sexta-feira no país novamente acompanha
as aventuras do mamute Manny (no original, com a voz de Ray Romano), do tigre
Diego (Denis Leary) e da preguiça Sid (John Leguizamo). No desenho original,
de 2002, o trio tinha de devolver um bebê humano à sua tribo. Agora,
eles enfrentam uma responsabilidade consideravelmente maior: salvar todos os seus
contemporâneos, uma verdadeira arca de Noé, das enchentes monumentais
que o aquecimento global está prestes a provocar. Manny, em especial, está
com a agenda cheia: durante essa corrida contra o relógio, ele terá
de encontrar tempo para seduzir Ellie (Queen Latifah e, na dublagem brasileira,
Claudia Jimenez), uma mamute que pensa ser um gambá, e assim garantir a
continuidade da sua própria espécie. Pessimista e questionador por
temperamento, Manny ganha em Ellie um novo desafio existencial a ponderar
afinal, o que querem as fêmeas?
Saldanha, pela primeira vez capitaneando sozinho um longa, não parece ter
uma dúvida semelhante em relação ao seu público. O
que este mais quer, sabe-se, é reencontrar Scrat, o esquilo pré-histórico
que, na sua ânsia de colecionar avelãs, invariavelmente deflagra
catástrofes de proporções bíblicas. Cria de Saldanha
(a quem rendeu uma indicação ao Oscar, pelo curta-metragem Gone
Nutty) e com a voz de Chris Wedge, titular de direção do primeiro
A Era do Gelo e de Robôs, Scrat deixa aqui de ser coadjuvante
para estrelar um punhado de cenas que, em termos técnicos, podem ser definidas
como demonstrações do virtuosismo do brasileiro para seqüências
de ação (ele bem que poderia ter um doutorado em física lisérgica,
se tal matéria existisse). A outra coisa de que um desenho não pode
prescindir é uma narrativa concatenada, conseqüente e envolvente
uma disciplina em que o cinema convencional americano vem sendo seguidamente reprovado,
mas na qual a animação, pela natureza desse mercado, é obrigada
a se exceder, ou então perecer. A Era do Gelo 2 talvez não
tenha a originalidade de Shrek ou das melhores criações da
Pixar, mas indica que a Fox e a Blue Sky, seu ateliê de animação,
estão a mais de meio caminho de desenvolver um estilo narrativo próprio
tão "família" quanto o da Disney, mas bem menos meloso, e
com uma deliciosa queda para o nonsense. Atenção, por exemplo, à
seqüência em que um bando de abutres imita musicais como Oliver!
e as coreografias delirantes de Busby Berkeley para informar Manny e sua trupe
de que, quando estes passarem de bichos a carcaças, eles, os abutres, farão
a festa. Primeiro grande desenho a
ser lançado em 2006, A Era do Gelo 2 não é uma boa
notícia apenas para seu estúdio ou para Saldanha. É um ponto
marcado para todo o segmento de animação, que acaba de ser sacudido
pela compra da imbatível Pixar pela fraquejante Disney. "Nosso maior medo
não é ter concorrência é ter concorrência
ruim, que canse o público e o desestimule de assistir a desenhos", explica
o brasileiro. Nesse mundo singular, em que um filme demora até quatro anos
para sair da prancheta, um único fracasso pode colocar a espécie
inteira no rumo da extinção. No que depender de artistas como Saldanha
e sua equipe, porém, os animadores continuarão a ser o gênero
dominante na bilheteria por algumas eras. |