Edição 1949 . 29 de março de 2006

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Ciência
Como nossos ancestrais

Em busca de pistas sobre a evolução
humana, cientistas estudam cinco irmãos
turcos que andam como quadrúpedes


Paula Neiva

 
BBC-TV

Os irmãos atravessam um terreno pedregoso apoiados nas mãos e nos pés: apesar da postura estranha, eles se movem com agilidade



NESTA REPORTAGEM
Quadro: A evolução do homem

Ao lado da inteligência, a mais marcante diferença entre o homem e os macacos, seus parentes mais próximos na árvore da evolução, é a postura bípede. Por essa razão, a descoberta recente de um grupo familiar que se locomove sobre mãos e pés, à maneira dos quadrúpedes, tornou-se um enigma científico. São cinco irmãos que vivem num vilarejo na Turquia e apenas um deles, uma mulher de 32 anos, consegue ficar em pé e dar alguns passos. Cientistas ingleses que acompanham o caso desde o fim do ano passado ainda não conseguiram explicar a anomalia, que além do andar singular inclui retardamento mental. Mas acreditam que um estudo mais aprofundado dessa família possa fornecer pistas valiosas sobre as alterações cerebrais e genéticas que fizeram nossos ancestrais tornar-se bípedes, há 4 milhões de anos.

Alguns exames preliminares apontam uma pequena lesão no cerebelo, região do cérebro relacionada à cognição e à locomoção. Essa alteração isoladamente não explica a complexidade do caso. "A síndrome possivelmente combina fatores genéticos, fisiológicos e psicossociais", diz o psicólogo Nicholas Humphrey, da London School of Economics e um dos pesquisadores que tiveram contato com a família turca. "São tantas as coincidências que possivelmente um caso assim jamais se repetirá." O fato de os irmãos serem fruto de um casamento de parentes (os pais têm bisavós comuns e tiveram outros onze filhos que andam normalmente) pode ter proporcionado a manifestação de genes que havia milhares de anos estavam adormecidos no DNA humano. "Isso não significa que os irmãos turcos e os macacos estejam na mesma posição na escala evolutiva", afirma a bioantropóloga Claudia Rodrigues Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "As características físicas deles, com exceção do caminhar, são absolutamente humanas."

O homem moderno é o resultado de uma cadeia bem-sucedida de passos evolutivos (veja o quadro). A cada geração, o genoma de todo ser vivo acumula pequenas mutações. Algumas dessas variações genéticas aumentam as chances de sobrevivência em determinado ambiente, outras diminuem. Ou seja, quanto mais favoráveis forem as características dessas mutações, que passam de geração para geração, mais comuns elas se tornarão ao longo do tempo. Nossos antepassados mais remotos eram quadrúpedes e viviam em florestas. Acredita-se que a postura ereta tenha sido uma adaptação a mudanças climáticas numa época em que as savanas começaram a predominar na África, o berço da humanidade. Não era essencial à sobrevivência – muitos quadrúpedes se deram bem no novo ambiente –, mas trouxe vantagens evolutivas. Exatamente quais são essas vantagens é motivo de controvérsia entre os cientistas.

Algumas teorias sustentam que a postura ereta decorreu da necessidade de se proteger de predadores nos descampados africanos. Em pé, ficava mais fácil observar a aproximação do perigo. As mãos livres, por sua vez, facilitaram o transporte de objetos e alimentos durante a caminhada. A posição ereta também reduz a área corporal exposta diretamente aos raios solares e, por conseqüência, a perda de água durante a caminhada. Dessa forma é mais fácil andar horas a fio. Há 6 milhões de anos, quando sua linhagem se dividiu em dois ramos (o outro levou ao chimpanzé), os antepassados do homem deixaram de ter polegares opositores nos pés, mudança essencial para que nos tornássemos bípedes. Dedos com esse formato diminuem o impulso que o dedão do pé dá aos passos e atrapalham o caminhar. Por outro lado, a nova maneira de andar tem um preço, que o homem moderno conhece bem. A posição ereta aumenta a pressão sobre as vértebras, o que se traduz em dores e deformações de coluna.

Os chimpanzés, espécie da qual a família humana se separou há 6 milhões de anos, usam os nós dos dedos como apoio para se locomover. Os cinco irmãos não andam desse jeito. Eles se locomovem com as mãos espalmadas, pernas eretas e glúteos virados para cima. O irmão mais velho é o mais ágil entre eles. Percorre grandes distâncias todos os dias recolhendo garrafas plásticas, com cuja venda ajuda a sustentar a família. Os cinco conseguem falar, mas vivem praticamente como bebês. A mãe é responsável pelo banho e cuidados pessoais. Na maior parte do tempo, ficam em casa vendo televisão. Quando saem, freqüentemente são insultados e agredidos – até com pedras – por crianças e outras pessoas do vilarejo onde moram.

 
 
 
 
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