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Ciência Como
nossos ancestrais Em busca de pistas sobre a evolução
humana, cientistas estudam cinco irmãos turcos que andam como quadrúpedes
 Paula
Neiva
BBC-TV
 | Os
irmãos atravessam um terreno pedregoso apoiados nas mãos e nos pés:
apesar da postura estranha, eles se movem com agilidade |
Ao lado da inteligência, a mais marcante
diferença entre o homem e os macacos, seus parentes mais próximos
na árvore da evolução, é a postura bípede.
Por essa razão, a descoberta recente de um grupo familiar que se locomove
sobre mãos e pés, à maneira dos quadrúpedes, tornou-se
um enigma científico. São cinco irmãos que vivem num vilarejo
na Turquia e apenas um deles, uma mulher de 32 anos, consegue ficar em pé
e dar alguns passos. Cientistas ingleses que acompanham o caso desde o fim do
ano passado ainda não conseguiram explicar a anomalia, que além
do andar singular inclui retardamento mental. Mas acreditam que um estudo mais
aprofundado dessa família possa fornecer pistas valiosas sobre as alterações
cerebrais e genéticas que fizeram nossos ancestrais tornar-se bípedes,
há 4 milhões de anos. Alguns exames
preliminares apontam uma pequena lesão no cerebelo, região do cérebro
relacionada à cognição e à locomoção.
Essa alteração isoladamente não explica a complexidade do
caso. "A síndrome possivelmente combina fatores genéticos, fisiológicos
e psicossociais", diz o psicólogo Nicholas Humphrey, da London School of
Economics e um dos pesquisadores que tiveram contato com a família turca.
"São tantas as coincidências que possivelmente um caso assim jamais
se repetirá." O fato de os irmãos serem fruto de um casamento de
parentes (os pais têm bisavós comuns e tiveram outros onze filhos
que andam normalmente) pode ter proporcionado a manifestação de
genes que havia milhares de anos estavam adormecidos no DNA humano. "Isso não
significa que os irmãos turcos e os macacos estejam na mesma posição
na escala evolutiva", afirma a bioantropóloga Claudia Rodrigues Carvalho,
da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "As características físicas
deles, com exceção do caminhar, são absolutamente humanas."
O homem moderno é o resultado de uma cadeia
bem-sucedida de passos evolutivos (veja o quadro). A cada geração,
o genoma de todo ser vivo acumula pequenas mutações. Algumas dessas
variações genéticas aumentam as chances de sobrevivência
em determinado ambiente, outras diminuem. Ou seja, quanto mais favoráveis
forem as características dessas mutações, que passam de geração
para geração, mais comuns elas se tornarão ao longo do tempo.
Nossos antepassados mais remotos eram quadrúpedes e viviam em florestas.
Acredita-se que a postura ereta tenha sido uma adaptação a mudanças
climáticas numa época em que as savanas começaram a predominar
na África, o berço da humanidade. Não era essencial à
sobrevivência muitos quadrúpedes se deram bem no novo ambiente
, mas trouxe vantagens evolutivas. Exatamente quais são essas vantagens
é motivo de controvérsia entre os cientistas.
Algumas teorias sustentam que a postura ereta decorreu da necessidade de se proteger
de predadores nos descampados africanos. Em pé, ficava mais fácil
observar a aproximação do perigo. As mãos livres, por sua
vez, facilitaram o transporte de objetos e alimentos durante a caminhada. A posição
ereta também reduz a área corporal exposta diretamente aos raios
solares e, por conseqüência, a perda de água durante a caminhada.
Dessa forma é mais fácil andar horas a fio. Há 6 milhões
de anos, quando sua linhagem se dividiu em dois ramos (o outro levou ao chimpanzé),
os antepassados do homem deixaram de ter polegares opositores nos pés,
mudança essencial para que nos tornássemos bípedes. Dedos
com esse formato diminuem o impulso que o dedão do pé dá
aos passos e atrapalham o caminhar. Por outro lado, a nova maneira de andar tem
um preço, que o homem moderno conhece bem. A posição ereta
aumenta a pressão sobre as vértebras, o que se traduz em dores e
deformações de coluna. Os chimpanzés,
espécie da qual a família humana se separou há 6 milhões
de anos, usam os nós dos dedos como apoio para se locomover. Os cinco irmãos
não andam desse jeito. Eles se locomovem com as mãos espalmadas,
pernas eretas e glúteos virados para cima. O irmão mais velho é
o mais ágil entre eles. Percorre grandes distâncias todos os dias
recolhendo garrafas plásticas, com cuja venda ajuda a sustentar a família.
Os cinco conseguem falar, mas vivem praticamente como bebês. A mãe
é responsável pelo banho e cuidados pessoais. Na maior parte do
tempo, ficam em casa vendo televisão. Quando saem, freqüentemente
são insultados e agredidos até com pedras por crianças
e outras pessoas do vilarejo onde moram. |