Edição 1949 . 29 de março de 2006

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Comportamento
Os limites da amizade

Muitos pais e mães vão para as baladas
com os filhos e chegam a namorar seus
amigos – até que ponto isso é normal


Renata Leão

 

Fotos Lailson Santos

ASSÉDIO DOS ADOLESCENTES
A bancária paulista Marize Tamaoki, 50 anos, foi casada durante mais de duas décadas com o pai de suas filhas, Mirela, 20 anos (à esq.), e Daniela, de 28. Quando se separou, em 2003, passou a freqüentar academias de ginástica e baladas com as filhas. "Comecei a ir às danceterias da Vila Olímpia. Na primeira vez, os garotos da idade da Mirela já vieram me paquerar. No começo, ficava constrangida. Agora já me acostumei e acho ótimo", diz Marize

Houve um tempo em que os jovens ansiavam por participar do mundo dos pais, freqüentar os mesmos locais de diversão que eles e sentir o gostinho de ser adulto. Hoje, essa equação se inverteu. Numa sociedade que promove a fantasia da eterna juventude, é cada vez mais comum ver quarentões e cinqüentões se misturando aos filhos e suas "galeras" nos bares e nas baladas noturnas. Esses pais e mães compram roupas nas mesmas lojas que os filhos, ouvem o mesmo tipo de música, colocam-se no papel de seus companheiros e tornam-se amigos de seus amigos – com quem às vezes acabam tendo relacionamentos amorosos. Namoros fortuitos ou duradouros entre pessoas de meia-idade e jovens recém-saídos da adolescência nunca foram vistos com bons olhos, mas, pelo que se observa, os brasileiros vêm se tornando mais tolerantes com esse tipo de situação. "Antes, em meu consultório, uma vez por ano eu ouvia falar de mães que namoram amigos de suas filhas. Hoje, são dois casos por semana", diz a médica Albertina Duarte, ginecologista especializada em adolescentes e presidente do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente de São Paulo.

Essa mudança nos códigos das relações familiares já chegou às novelas da TV. Belíssima, da Rede Globo, alcançou recentemente um de seus picos de audiência ao mostrar uma cena em que a personagem Júlia, vivida por Glória Pires, flagra o marido na cama com sua filha adolescente do primeiro casamento. Pode-se apostar que, em outros tempos, uma cena como essa causaria uma onda de protestos dos telespectadores. Hoje, é um ponto alto da trama. Em Cidadão Brasileiro, a nova novela da Rede Record, o prefeito Laércio (Kito Junqueira) não resiste aos encantos da melhor amiga de sua filha e vive com ela um clima de romance que, já se anuncia, vai terminar na cama daqui a alguns capítulos. "O que antes era tabu se transformou numa atitude mais bem-aceita por todo mundo", diz o autor de Cidadão Brasileiro, Lauro César Muniz, conhecido por espelhar em suas novelas as pequenas transformações no comportamento dos brasileiros.

 
AS ARMAS DE LOLITA
A publicitária Anne Crunfli, de 26 anos, passou a adolescência acompanhando o pai, William, de 50, nas festas. Dono de casas noturnas, ele sempre foi paquerado pelas amigas dela. "Uma grande amizade do colégio acabou porque a garota deu em cima do meu pai feito Lolita", conta Anne, que decidiu fazer terapia aos 20 anos para aprender a separar o pai do amigo

Os pais que acompanham os filhos nas baladas certamente se divertem muito, mas esse tipo de comportamento tem seu preço. Os psicólogos e terapeutas familiares são unânimes em advertir: os pais não devem confundir sua imagem com a dos integrantes da turma, sob risco de perder a autoridade sobre os filhos. "Os pais precisam ter consciência de que são os principais modelos para os filhos. Se eles se vestem como adolescentes ou têm comportamentos ridículos, os filhos ficam sem referência paterna ou materna", disse a VEJA o psicólogo americano Laurence Steinberg, da Universidade Temple, autor do best-seller 10 Princípios Básicos para Educar Seus Filhos. É comum que os jovens se sintam constrangidos – e vigiados – ao encontrar os pais em seu território, ou seja, nos locais onde querem se sentir em liberdade. A mais recente pesquisa Universo Jovem, realizada pela MTV, revelou que metade dos 2.400 jovens ouvidos em sete capitais brasileiras sente desconforto diante de adultos que bancam os adolescentes.

"Esses jovens se incomodam com os pais que vão às mesmas baladas, aos mesmos shows, usam as mesmas roupas e chegam a disputar as mesmas paqueras", diz o filósofo paulista Mário Sérgio Cortella, especialista em educação, que acompanha as pesquisas feitas pela MTV desde 1999 e faz palestras usando-as como base. "Tanto nas salas de aula como em palestras, vejo que os pais estão confundindo, mais do que nunca, camaradagem com intimidade. Essa intimidade os impede de desempenhar o papel de conselheiros ou orientadores", ele completa. "Se o adolescente gosta muito de uma pessoa de sua idade, seja ela amigo ou namorado, e essa pessoa prefere sua mãe ou seu pai, isso pode ser dilacerador para o jovem", observa Carmita Abdo, psiquiatra especialista em sexualidade, do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Muitas vezes o filho desiste da amiga ou da namorada porque acha que é muito difícil competir com o pai ou com a mãe."

 

NAMORADO TATUADO
A pedagoga paulista Ângela Bocchile, 52 anos, e sua filha Paula, veterinária, de 28, dizem ter uma relação muito mais de amizade que de mãe e filha. Em 1994, um dos amigos de Paula se apaixonou por Ângela e eles namoraram durante seis anos. "Foi estranho ver minha mãe com um amigo meu, tatuado e cabeludo, vinte anos mais novo que ela", lembra a filha

Afinal, como se disseminou o hábito de os pais invadirem o território de diversão e namoro dos filhos? Um fator determinante foi a imensa gama de recursos hoje disponível para parecer mais jovem. Com corpo sarado pela malhação, ou recriado pelas cirurgias plásticas, os quarentões e cinqüentões têm aparência muito melhor – e, portanto, mais autoconfiança e poder de sedução – do que no passado. Outro fator importante foi o advento da chamada adolescência tardia, ou prolongada. Antigamente, os pais faziam questão de que os filhos fossem trabalhar assim que se tornavam adultos. Hoje, com a competitividade feroz no mercado de trabalho, muitas famílias com boas condições financeiras preferem manter os filhos estudando por mais tempo. Afinal, quanto melhor a formação, maiores as chances de vencer numa carreira. Esses jovens continuam morando na casa dos pais e fazem dela o centro de convivência com os amigos e namorados. Isso, naturalmente, propicia entre todos os envolvidos uma intimidade que pode se estabelecer em graus variados. Por fim, o culto às celebridades que se verifica hoje na televisão e na imprensa também colabora para que a imagem de adultos e a de adolescentes se confundam. "Muitas vezes, uma atriz de 20 anos e outra de 50 se vestem da mesma forma, com o vestido comprado na mesma loja", observa a psiquiatra Carmita Abdo.

O afeto entre pais e filhos amparado no carinho, na compreensão e no apoio, evidentemente, está na base do bom relacionamento familiar. A questão é saber até onde essa amizade deve ir. A publicitária paulista Anne Crunfli, de 26 anos, acha que, no seu caso, ela foi um pouco longe demais. Anne passou a adolescência acompanhando o pai, organizador de shows e dono de casas noturnas. Consideravam-se grandes amigos e se orgulhavam disso. Em sua festa de aniversário de 20 anos, Anne percebeu que os convidados eram os mesmos que estavam na comemoração do aniversário do pai, cinco meses antes. "Fiquei perturbada. Resolvi fazer uma terapia para descobrir se ele era meu amigo ou meu pai, porque estava tudo muito misturado", ela conta. Hoje, Anne e o pai até trabalham juntos, mas mantêm turmas completamente separadas.

 

Divulgação

O ASSUNTO ESTÁ NAS NOVELAS
Cena de Belíssima: Júlia flagra André na cama com Érica. O marido da personagem de Glória Pires gosta de seduzir adolescentes. Em Cidadão Brasileiro, da Record, o prefeito Laércio paquera a melhor amiga de sua filha. "O que antes era tabu começa a ser visto como uma coisa mais normal", diz Lauro César Muniz, autor da trama

Um exemplo bem diferente é o da produtora de moda Ilda Zerlotte, paulista de 48 anos. Ilda tem duas filhas, Ana, de 22 anos, e Laura, de 14. Mãe e filhas se consideram amigas íntimas. Usam as mesmas roupas, vão juntas a festas de jovens e de adolescentes, saem para dançar e freqüentam shows. Recentemente, Ilda foi convidada pelos amigos de Ana para assistir ao espetáculo dos Rolling Stones no Rio de Janeiro. A filha, que queria ficar à vontade com a turma no show, sem a presença da mãe, vetou o convite. "Faço os mesmos programas das meninas, mas tomo o cuidado de respeitar os limites e a privacidade delas", diz Ilda. "O respeito entre as gerações ainda é fundamental", observa a terapeuta Ada Pellegrini, coordenadora do Núcleo de Estudos da Família de São Paulo. Segundo Ada, os casos de pais que invadem o mundo dos filhos – inclusive relacionando-se amorosamente com seus amigos – acabam cobrando seu preço. "Cedo ou tarde, esse tipo de comportamento vai incomodar ambas as partes envolvidas, até se tornar insuportável. É preciso ter coragem e reverter a situação por meio de conversas francas", aconselha a terapeuta.

 
Jarbas Oliveira
SÍNDROME DE PETER PAN
A cearense Alessandra Bortolucci, 52 anos, e sua filha Camila, 20, saem juntas quase todos os dias. Quando Camila quer ficar em casa, a mãe não se faz de rogada e sai com as amigas da filha. Há três anos, Alessandra engatou um namoro com um amigo de Camila, vinte anos mais novo. Ficaram juntos durante um ano. "A moçada diz que eu tenho síndrome de Peter Pan", diz Alessandra

 
 
 
 
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