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Comportamento Os
limites da amizade Muitos pais e mães
vão para as baladas com os filhos e chegam a namorar seus amigos
até que ponto isso é normal
 Renata
Leão Fotos
Lailson Santos
 | ASSÉDIO
DOS ADOLESCENTES A bancária paulista Marize
Tamaoki, 50 anos, foi casada durante mais de duas décadas com o pai de
suas filhas, Mirela, 20 anos (à esq.), e Daniela, de 28. Quando
se separou, em 2003, passou a freqüentar academias de ginástica e
baladas com as filhas. "Comecei a ir às danceterias da Vila Olímpia.
Na primeira vez, os garotos da idade da Mirela já vieram me paquerar. No
começo, ficava constrangida. Agora já me acostumei e acho ótimo",
diz Marize |
Houve
um tempo em que os jovens ansiavam por participar do mundo dos pais, freqüentar
os mesmos locais de diversão que eles e sentir o gostinho de ser adulto.
Hoje, essa equação se inverteu. Numa sociedade que promove a fantasia
da eterna juventude, é cada vez mais comum ver quarentões e cinqüentões
se misturando aos filhos e suas "galeras" nos bares e nas baladas noturnas. Esses
pais e mães compram roupas nas mesmas lojas que os filhos, ouvem o mesmo
tipo de música, colocam-se no papel de seus companheiros e tornam-se amigos
de seus amigos com quem às vezes acabam tendo relacionamentos amorosos.
Namoros fortuitos ou duradouros entre pessoas de meia-idade e jovens recém-saídos
da adolescência nunca foram vistos com bons olhos, mas, pelo que se observa,
os brasileiros vêm se tornando mais tolerantes com esse tipo de situação.
"Antes, em meu consultório, uma vez por ano eu ouvia falar de mães
que namoram amigos de suas filhas. Hoje, são dois casos por semana", diz
a médica Albertina Duarte, ginecologista especializada em adolescentes
e presidente do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente de São
Paulo. Essa mudança nos códigos
das relações familiares já chegou às novelas da TV.
Belíssima, da Rede Globo, alcançou recentemente um de seus
picos de audiência ao mostrar uma cena em que a personagem Júlia,
vivida por Glória Pires, flagra o marido na cama com sua filha adolescente
do primeiro casamento. Pode-se apostar que, em outros tempos, uma cena como essa
causaria uma onda de protestos dos telespectadores. Hoje, é um ponto alto
da trama. Em Cidadão Brasileiro, a nova novela da Rede Record, o
prefeito Laércio (Kito Junqueira) não resiste aos encantos da melhor
amiga de sua filha e vive com ela um clima de romance que, já se anuncia,
vai terminar na cama daqui a alguns capítulos. "O que antes era tabu se
transformou numa atitude mais bem-aceita por todo mundo", diz o autor de Cidadão
Brasileiro, Lauro César Muniz, conhecido por espelhar em suas novelas
as pequenas transformações no comportamento dos brasileiros.  | AS
ARMAS DE LOLITA A publicitária Anne Crunfli,
de 26 anos, passou a adolescência acompanhando o pai, William, de 50, nas
festas. Dono de casas noturnas, ele sempre foi paquerado pelas amigas dela. "Uma
grande amizade do colégio acabou porque a garota deu em cima do meu pai
feito Lolita", conta Anne, que decidiu fazer terapia aos 20 anos para aprender
a separar o pai do amigo |
Os pais que acompanham os filhos nas baladas certamente se divertem muito, mas
esse tipo de comportamento tem seu preço. Os psicólogos e terapeutas
familiares são unânimes em advertir: os pais não devem confundir
sua imagem com a dos integrantes da turma, sob risco de perder a autoridade sobre
os filhos. "Os pais precisam ter consciência de que são os principais
modelos para os filhos. Se eles se vestem como adolescentes ou têm comportamentos
ridículos, os filhos ficam sem referência paterna ou materna", disse
a VEJA o psicólogo americano Laurence Steinberg, da Universidade Temple,
autor do best-seller 10 Princípios Básicos para Educar Seus Filhos.
É comum que os jovens se sintam constrangidos e vigiados
ao encontrar os pais em seu território, ou seja, nos locais onde querem
se sentir em liberdade. A mais recente pesquisa Universo Jovem, realizada pela
MTV, revelou que metade dos 2.400 jovens ouvidos em sete capitais brasileiras
sente desconforto diante de adultos que bancam os adolescentes.
"Esses jovens se incomodam com os pais que vão às
mesmas baladas, aos mesmos shows, usam as mesmas roupas e chegam a disputar as
mesmas paqueras", diz o filósofo paulista Mário Sérgio Cortella,
especialista em educação, que acompanha as pesquisas feitas pela
MTV desde 1999 e faz palestras usando-as como base. "Tanto nas salas de aula como
em palestras, vejo que os pais estão confundindo, mais do que nunca, camaradagem
com intimidade. Essa intimidade os impede de desempenhar o papel de conselheiros
ou orientadores", ele completa. "Se o adolescente gosta muito de uma pessoa de
sua idade, seja ela amigo ou namorado, e essa pessoa prefere sua mãe ou
seu pai, isso pode ser dilacerador para o jovem", observa Carmita Abdo, psiquiatra
especialista em sexualidade, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
"Muitas vezes o filho desiste da amiga ou da namorada porque acha que é
muito difícil competir com o pai ou com a mãe."  | NAMORADO
TATUADO A pedagoga paulista Ângela Bocchile,
52 anos, e sua filha Paula, veterinária, de 28, dizem ter uma relação
muito mais de amizade que de mãe e filha. Em 1994, um dos amigos de Paula
se apaixonou por Ângela e eles namoraram durante seis anos. "Foi estranho
ver minha mãe com um amigo meu, tatuado e cabeludo, vinte anos mais novo
que ela", lembra a filha |
Afinal, como se disseminou o hábito de os pais invadirem o território
de diversão e namoro dos filhos? Um fator determinante foi a imensa gama
de recursos hoje disponível para parecer mais jovem. Com corpo sarado pela
malhação, ou recriado pelas cirurgias plásticas, os quarentões
e cinqüentões têm aparência muito melhor e, portanto,
mais autoconfiança e poder de sedução do que no passado.
Outro fator importante foi o advento da chamada adolescência tardia, ou
prolongada. Antigamente, os pais faziam questão de que os filhos fossem
trabalhar assim que se tornavam adultos. Hoje, com a competitividade feroz no
mercado de trabalho, muitas famílias com boas condições financeiras
preferem manter os filhos estudando por mais tempo. Afinal, quanto melhor a formação,
maiores as chances de vencer numa carreira. Esses jovens continuam morando na
casa dos pais e fazem dela o centro de convivência com os amigos e namorados.
Isso, naturalmente, propicia entre todos os envolvidos uma intimidade que pode
se estabelecer em graus variados. Por fim, o culto às celebridades que
se verifica hoje na televisão e na imprensa também colabora para
que a imagem de adultos e a de adolescentes se confundam. "Muitas vezes, uma atriz
de 20 anos e outra de 50 se vestem da mesma forma, com o vestido comprado na mesma
loja", observa a psiquiatra Carmita Abdo. O afeto
entre pais e filhos amparado no carinho, na compreensão e no apoio, evidentemente,
está na base do bom relacionamento familiar. A questão é
saber até onde essa amizade deve ir. A publicitária paulista Anne
Crunfli, de 26 anos, acha que, no seu caso, ela foi um pouco longe demais. Anne
passou a adolescência acompanhando o pai, organizador de shows e dono de
casas noturnas. Consideravam-se grandes amigos e se orgulhavam disso. Em sua festa
de aniversário de 20 anos, Anne percebeu que os convidados eram os mesmos
que estavam na comemoração do aniversário do pai, cinco meses
antes. "Fiquei perturbada. Resolvi fazer uma terapia para descobrir se ele era
meu amigo ou meu pai, porque estava tudo muito misturado", ela conta. Hoje, Anne
e o pai até trabalham juntos, mas mantêm turmas completamente separadas.
Divulgação
 | O
ASSUNTO ESTÁ NAS NOVELAS Cena de Belíssima:
Júlia flagra André na cama com Érica. O marido da personagem
de Glória Pires gosta de seduzir adolescentes. Em Cidadão Brasileiro,
da Record, o prefeito Laércio paquera a melhor amiga de sua filha.
"O que antes era tabu começa a ser visto como uma coisa mais normal", diz
Lauro César Muniz, autor da trama |
Um exemplo bem diferente é o da produtora de moda Ilda Zerlotte, paulista
de 48 anos. Ilda tem duas filhas, Ana, de 22 anos, e Laura, de 14. Mãe
e filhas se consideram amigas íntimas. Usam as mesmas roupas, vão
juntas a festas de jovens e de adolescentes, saem para dançar e freqüentam
shows. Recentemente, Ilda foi convidada pelos amigos de Ana para assistir ao espetáculo
dos Rolling Stones no Rio de Janeiro. A filha, que queria ficar à vontade
com a turma no show, sem a presença da mãe, vetou o convite. "Faço
os mesmos programas das meninas, mas tomo o cuidado de respeitar os limites e
a privacidade delas", diz Ilda. "O respeito entre as gerações ainda
é fundamental", observa a terapeuta Ada Pellegrini, coordenadora do Núcleo
de Estudos da Família de São Paulo. Segundo Ada, os casos de pais
que invadem o mundo dos filhos inclusive relacionando-se amorosamente com
seus amigos acabam cobrando seu preço. "Cedo ou tarde, esse tipo
de comportamento vai incomodar ambas as partes envolvidas, até se tornar
insuportável. É preciso ter coragem e reverter a situação
por meio de conversas francas", aconselha a terapeuta. Jarbas
Oliveira
 | SÍNDROME
DE PETER PAN A cearense Alessandra Bortolucci,
52 anos, e sua filha Camila, 20, saem juntas quase todos os dias. Quando Camila
quer ficar em casa, a mãe não se faz de rogada e sai com as amigas
da filha. Há três anos, Alessandra engatou um namoro com um amigo
de Camila, vinte anos mais novo. Ficaram juntos durante um ano. "A moçada
diz que eu tenho síndrome de Peter Pan", diz Alessandra |
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