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Perfil Mister
Dinossauro O americano Paul Sereno não
é apenas um dos maiores paleontólogos da atualidade. Ele
é também um grande divulgador da ciência
 Marcelo
Marthe
Evan
Eile/SHNS
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Sereno, com um de seus fósseis: explorador obstinado, empreendedor e garoto-propaganda
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Nesta semana, o Brasil
receberá a visita do paleontólogo mais famoso da atualidade, o americano
Paul Sereno. Ele já esteve no país em outras ocasiões
excursionou por campos de pesquisa de fósseis em São Paulo e Mato
Grosso do Sul nos anos 90 e, recentemente, passou pelo Rio de Janeiro para um
simpósio. Sua nova missão é diferente: Sereno, de 48 anos,
vem divulgar uma exposição sobre dinossauros que já levou
300.000 pessoas à Oca, na capital paulista, e cujas peças de resistência
são fósseis descobertos por sua equipe como o Jobaria,
um herbívoro com 22 metros de comprimento. A troca de papéis
dá idéia do perfil peculiar de Sereno, um cientista que reúne
em si três qualidades. Trata-se de um explorador obstinado, que passa até
quatro meses do ano em escavações em lugares como o Deserto do Saara,
das quais resultam trabalhos respeitados sobre a evolução desses
animais. Ao mesmo tempo, Sereno é um empreendedor. Por meio de sua instituição,
o Project Exploration, ele transformou suas expedições num negócio
lucrativo e auto-sustentável. Com habilidade política, consegue
se dar bem na delicada operação de pesquisar fósseis em outros
países, negociando com burocratas e interesses econômicos. "O paleontólogo
é, antes de tudo, um diplomata", disse ele a VEJA, às vésperas
de sua viagem ao Brasil (leia trechos
abaixo). A terceira face de Sereno é aquela que os brasileiros
verão agora: a de divulgador. Jovial, bem-apessoado e comunicador nato,
ele se tornou um pop star da paleontologia.
Não é todo dia que a ciência encontra um porta-voz com o dom
de Sereno para criar pontes com o público leigo. A astronomia deve algo
de sua popularidade ao americano Carl Sagan (1934-1996), assim como a física
aos livros do inglês Stephen Hawking. A paleontologia já teve um
divulgador do porte do americano Stephen Jay Gould, morto em 2002. O aventureiro
Sereno tem mais jogo de cintura do que Gould para cruzar a fronteira do entretenimento.
Faz palestras concorridas e foi tema de programas de TV.
Divulgação
 | | Jobaria:
gigante descoberto no Saara |
As
descobertas de Paul Sereno acrescentaram peças valiosas ao quebra-cabeça
da evolução dos dinossauros ao lado do argentino José
Bonaparte, ele trouxe à luz os exemplares do gênero mais antigo de
que se tem notícia. Seu sucesso como empreendedor também é
um exemplo para os cientistas que vivem na dependência das fontes oficiais
de financiamento. Nunca é demais lembrar, por fim, que a paleontologia
é o campo em que as idéias do naturalista inglês Charles Darwin
são demonstradas de maneira mais enfática e, por isso mesmo,
está sob constante bombardeio dos criacionistas, que insistem em negar
a ciência em prol de uma visão religiosa do surgimento da vida. Num
cenário assim, o papel da divulgação científica é
crucial. "É triste que nos Estados Unidos de hoje, um país tão
aberto, muita gente ainda veja a ciência com desconfiança", diz Sereno.
Se depender desse garoto-propaganda, Darwin está a salvo.
Lições
jurássicas A PALEONTOLOGIA É
UM CAMPO DE BATALHA ENTRE EVOLUCIONISTAS E CRIACIONISTAS. COMO O SENHOR VÊ
ESSE EMBATE? Estudei num seminário e sei que os cristãos
em geral não vêem contradição entre a teoria da evolução
e suas crenças. Infelizmente, o fundamentalismo que ganhou força
nos Estados Unidos quer impor uma visão equivocada, ao lançar mão
de passagens do Velho Testamento para negar as idéias de Darwin. É
triste que nos Estados Unidos de hoje, um país tão aberto, muita
gente ainda veja a ciência com desconfiança.
DE QUE FORMA A PALEONTOLOGIA ILUSTRA AS IDÉIAS DE
DARWIN? Ao demonstrar, por exemplo, que as aves são descendentes
diretas dos dinossauros. Isso é visível quando encontramos fósseis
de transição dos animais com penas rudimentares até os que
podiam voar. UM DOS ARGUMENTOS
DOS CRIACIONISTAS É QUE O REGISTRO FÓSSIL TEM LACUNAS. É
um argumento simplista, na medida em que as lacunas decorrem da natureza do registro
fóssil, cuja preservação não se deu de forma ordenada.
Os fósseis nos oferecem instantâneos da pré-história.
O trabalho do pesquisador é juntar essas peças num retrato consistente.
A paleontologia não traz certezas absolutas, mas oferece um panorama seguro
de como se deu a evolução. O
SENHOR FAZ MUITAS ESCAVAÇÕES NO ESTRANGEIRO. HÁ COOPERAÇÃO
INTERNACIONAL NESSA ÁREA? O paleontólogo é, antes
de tudo, um diplomata. Dependendo do país, há ciumeira dos pesquisadores
locais e problemas políticos. Quando se descobre um fóssil, é
preciso removê-lo do país para estudá-lo, e as dores de cabeça
são imensas. Há interesses legítimos em jogo os países
têm museus, preocupam-se em melhorar seus acervos e preservar seu patrimônio
, mas também desonestidade. Não é raro cobrar propina
de pesquisadores no meu campo. QUAIS
SÃO OS CAMPOS MAIS PROMISSORES PARA O ESTUDO DOS DINOSSAUROS? Há
porções da China e da América do Sul pouco exploradas. Mas
o campo mais promissor é o da tecnologia. Tomografias e programas de simulação
vão revolucionar o que sabemos sobre os hábitos e os padrões
evolutivos dos dinossauros. HÁ
UMA CERTA AURA ROMÂNTICA EM TORNO DA PALEONTOLOGIA. ELA COINCIDE COM A REALIDADE?
Mais ou menos. Recentemente, fui abordado num bar pelo ator Pierce Brosnan, que
vai interpretar um paleontólogo no cinema. Fui capaz de lhe contar algumas
aventuras. Enfrentei saqueadores e tempestades de areia no Saara, por exemplo.
Mas a verdade é que na maior parte do tempo encaramos a imundície
de uma escavação e depois vamos dormir numa tenda apertada. |
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