Edição 1949 . 29 de março de 2006

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Mister Dinossauro

O americano Paul Sereno não é apenas um
dos maiores paleontólogos da atualidade. Ele
é também um grande divulgador da ciência


Marcelo Marthe

Evan Eile/SHNS
Paul Sereno, com um de seus fósseis: explorador obstinado, empreendedor e garoto-propaganda


Nesta semana, o Brasil receberá a visita do paleontólogo mais famoso da atualidade, o americano Paul Sereno. Ele já esteve no país em outras ocasiões – excursionou por campos de pesquisa de fósseis em São Paulo e Mato Grosso do Sul nos anos 90 e, recentemente, passou pelo Rio de Janeiro para um simpósio. Sua nova missão é diferente: Sereno, de 48 anos, vem divulgar uma exposição sobre dinossauros que já levou 300.000 pessoas à Oca, na capital paulista, e cujas peças de resistência são fósseis descobertos por sua equipe – como o Jobaria, um herbívoro com 22 metros de comprimento. A troca de papéis dá idéia do perfil peculiar de Sereno, um cientista que reúne em si três qualidades. Trata-se de um explorador obstinado, que passa até quatro meses do ano em escavações em lugares como o Deserto do Saara, das quais resultam trabalhos respeitados sobre a evolução desses animais. Ao mesmo tempo, Sereno é um empreendedor. Por meio de sua instituição, o Project Exploration, ele transformou suas expedições num negócio lucrativo e auto-sustentável. Com habilidade política, consegue se dar bem na delicada operação de pesquisar fósseis em outros países, negociando com burocratas e interesses econômicos. "O paleontólogo é, antes de tudo, um diplomata", disse ele a VEJA, às vésperas de sua viagem ao Brasil (leia trechos abaixo). A terceira face de Sereno é aquela que os brasileiros verão agora: a de divulgador. Jovial, bem-apessoado e comunicador nato, ele se tornou um pop star da paleontologia.

Não é todo dia que a ciência encontra um porta-voz com o dom de Sereno para criar pontes com o público leigo. A astronomia deve algo de sua popularidade ao americano Carl Sagan (1934-1996), assim como a física aos livros do inglês Stephen Hawking. A paleontologia já teve um divulgador do porte do americano Stephen Jay Gould, morto em 2002. O aventureiro Sereno tem mais jogo de cintura do que Gould para cruzar a fronteira do entretenimento. Faz palestras concorridas e foi tema de programas de TV.

Divulgação
Jobaria: gigante descoberto no Saara


As descobertas de Paul Sereno acrescentaram peças valiosas ao quebra-cabeça da evolução dos dinossauros – ao lado do argentino José Bonaparte, ele trouxe à luz os exemplares do gênero mais antigo de que se tem notícia. Seu sucesso como empreendedor também é um exemplo para os cientistas que vivem na dependência das fontes oficiais de financiamento. Nunca é demais lembrar, por fim, que a paleontologia é o campo em que as idéias do naturalista inglês Charles Darwin são demonstradas de maneira mais enfática – e, por isso mesmo, está sob constante bombardeio dos criacionistas, que insistem em negar a ciência em prol de uma visão religiosa do surgimento da vida. Num cenário assim, o papel da divulgação científica é crucial. "É triste que nos Estados Unidos de hoje, um país tão aberto, muita gente ainda veja a ciência com desconfiança", diz Sereno. Se depender desse garoto-propaganda, Darwin está a salvo.

 

Lições jurássicas

A PALEONTOLOGIA É UM CAMPO DE BATALHA ENTRE EVOLUCIONISTAS E CRIACIONISTAS. COMO O SENHOR VÊ ESSE EMBATE?
Estudei num seminário e sei que os cristãos em geral não vêem contradição entre a teoria da evolução e suas crenças. Infelizmente, o fundamentalismo que ganhou força nos Estados Unidos quer impor uma visão equivocada, ao lançar mão de passagens do Velho Testamento para negar as idéias de Darwin. É triste que nos Estados Unidos de hoje, um país tão aberto, muita gente ainda veja a ciência com desconfiança.  

DE QUE FORMA A PALEONTOLOGIA ILUSTRA AS IDÉIAS DE DARWIN?
Ao demonstrar, por exemplo, que as aves são descendentes diretas dos dinossauros. Isso é visível quando encontramos fósseis de transição dos animais com penas rudimentares até os que podiam voar.  

UM DOS ARGUMENTOS DOS CRIACIONISTAS É QUE O REGISTRO FÓSSIL TEM LACUNAS.
É um argumento simplista, na medida em que as lacunas decorrem da natureza do registro fóssil, cuja preservação não se deu de forma ordenada. Os fósseis nos oferecem instantâneos da pré-história. O trabalho do pesquisador é juntar essas peças num retrato consistente. A paleontologia não traz certezas absolutas, mas oferece um panorama seguro de como se deu a evolução.  

O SENHOR FAZ MUITAS ESCAVAÇÕES NO ESTRANGEIRO. HÁ COOPERAÇÃO INTERNACIONAL NESSA ÁREA?
O paleontólogo é, antes de tudo, um diplomata. Dependendo do país, há ciumeira dos pesquisadores locais e problemas políticos. Quando se descobre um fóssil, é preciso removê-lo do país para estudá-lo, e as dores de cabeça são imensas. Há interesses legítimos em jogo – os países têm museus, preocupam-se em melhorar seus acervos e preservar seu patrimônio –, mas também desonestidade. Não é raro cobrar propina de pesquisadores no meu campo.  

QUAIS SÃO OS CAMPOS MAIS PROMISSORES PARA O ESTUDO DOS DINOSSAUROS?
Há porções da China e da América do Sul pouco exploradas. Mas o campo mais promissor é o da tecnologia. Tomografias e programas de simulação vão revolucionar o que sabemos sobre os hábitos e os padrões evolutivos dos dinossauros.  

HÁ UMA CERTA AURA ROMÂNTICA EM TORNO DA PALEONTOLOGIA. ELA COINCIDE COM A REALIDADE?
Mais ou menos. Recentemente, fui abordado num bar pelo ator Pierce Brosnan, que vai interpretar um paleontólogo no cinema. Fui capaz de lhe contar algumas aventuras. Enfrentei saqueadores e tempestades de areia no Saara, por exemplo. Mas a verdade é que na maior parte do tempo encaramos a imundície de uma escavação e depois vamos dormir numa tenda apertada.

 
 
 
 
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