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Turismo "Entre
que a casa é sua" Famílias
abrem as portas de mansões e apartamentos de luxo para receber
turistas  Roberta
Salomone Fotos
Oscar Cabral
 | | Luiza,
Alfredo (acima), Esther e José (abaixo): reforço na
renda familiar com hóspedes estrangeiros em casa, na versão brasileira
e chique do tradicional "cama e café" |  |
Em sua primeira visita ao Brasil, no mês passado, o americano Luka Pavlina
fez tudo o que um turista estreante faz no Rio de Janeiro: Corcovado, Pão
de Açúcar, ensaio de escola de samba e praia. Mas preferiu não
se hospedar em hotel. Na companhia da irmã e de um amigo, o estudante de
27 anos escolheu a casa de uma família, em um luxuoso condomínio
onde mora quase uma dezena de artistas famosos, para se alojar durante os dez
dias de viagem. Apesar de ter ficado instalado mais de 30 quilômetros distante
das principais atrações da cidade, Luka adorou a experiência.
"Eu nunca ficaria tão à vontade em outro lugar. Estou me sentindo
em casa", contou o rapaz, deitado no sofá da residência do casal
Luiza Imperial e Alfredo Mendes, que desde julho do ano passado recebe visitantes
em troca de até 110 dólares por dia. Esse tipo de iniciativa tem
origem na decadência da aristocracia européia. A idéia de
abrir os portões de castelos e mansões em troca de uma pequena taxa
garantiu a renda de muitas famílias durante anos. Ao longo do tempo, a
prática ampliou-se por outros países da Europa e do mundo e ganhou
cara de serviço turístico de verdade, batizado de bed and breakfast
(cama e café). A categoria
é bem ampla. Reúne de hospedarias muito simples a residências
sofisticadas e tem entre seus clientes desde jovens mochileiros até o príncipe
Charles, da Inglaterra. No Brasil, o segmento que ganhou impulso recentemente
é o de bed and breakfast de luxo. Hoje já é possível
se hospedar dessa forma em um casarão histórico em Olinda, em um
amplo apartamento debruçado sobre a Praia de Copacabana ou em uma fazenda
no interior do Paraná. A oferta é pequena e divulgada com discrição,
até porque a exclusividade faz parte do marketing. No Rio de Janeiro, por
exemplo, apenas cinco residências de alto padrão estão anunciadas.
A decoração e o conforto são comparáveis aos de hotéis
cinco-estrelas, embora nessa modalidade de hospedagem não haja serviço
de quarto ou a possibilidade de fazer outras refeições que não
seja o café-da-manhã. A contrapartida é o tratamento mais
pessoal. Divulgados principalmente em sites internacionais de hotelaria
como o Bed and Breakfast e sua versão brasileira, o Cama e Café
, os serviços atraem estrangeiros que vêem uma série
de vantagens ao dividir o mesmo espaço com os moradores do local em que
se hospedam. Tim
Graham Picture Library/Getty Images
 | | O
príncipe Charles conversa com a dona do bed and breakfast em que
se hospedou: alternativa para mochileiros e nobres europeus |
Para quem recebe os visitantes, a experiência tem seu preço. Luiza
Imperial e Alfredo Mendes, por exemplo, tiveram de se mudar para o escritório
da casa onde vivem. Só em fevereiro circularam pelos aposentos do casal
mais de vinte pessoas das mais diferentes nacionalidades. Os arquitetos Acácio
Gil Borsoi e Janete Costa receberam os primeiros hóspedes durante o Carnaval
e cobraram 180 reais por dia. Gostaram da experiência e já têm
preparadas três espaçosas suítes no casarão de 1.000
metros quadrados e quatro andares onde vivem, em Olinda. Apesar da animação,
a família não pensa em se dedicar integralmente à nova empreitada.
"Sabemos que a procura é sazonal. Por isso, não pretendemos contar
com esse dinheiro sempre", afirma Janete.
A designer Esther Ribeiro, de 49 anos, que mora com o marido em uma casa cercada
pelo verde da Mata Atlântica a quinze minutos do centro histórico
de Parati, no litoral fluminense, adotou um manual de conduta. Além das
recomendações tradicionais de respeito aos horários de silêncio,
preocupou-se em dar informações sobre a fauna local. "Tem gringo
que chega aqui e fica louco com qualquer inseto ou lagartinho que aparece", diz
Esther, que recebeu quarenta pessoas desde janeiro. O número deixaria enciumados
muitos donos de pousadas e outros estabelecimentos que pagam impostos. Mas a atividade,
segundo o Ministério do Turismo, embora não regulamentada, não
é ilegal. Qualquer pessoa pode receber quantos hóspedes quiser
em alguns países, o limite é de três quartos por casa. Por
via das dúvidas, no entanto, alguns anfitriões preferem não
oficializar a nova atividade. Fazem de conta que estão recebendo amigos.
E não se importam nem um pouco com a possibilidade de os vizinhos estranharem
a súbita popularidade. |