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Copa
A tecnologia
pode ajudar...
...mas a Fifa não deixa. Ainda não
será no Mundial deste ano que
a eletrônica resolverá lances duvidosos. Outros esportes,
porém, já aderiram

André Fontenelle
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Uma vez por ano, oito pessoas
sentam-se em torno de uma mesa para discutir se é preciso
fazer alterações nas dezessete regras do futebol.
Trata-se do International Board, comitê formado por quatro
representantes da Fifa (a federação internacional)
e quatro das federações inglesa, escocesa, galesa
e irlandesa, uma deferência à origem britânica
do esporte. Na pauta do encontro deste ano, realizado no início
de março em Lucerna, na Suíça, discutiu-se
uma mudança revolucionária: o uso da eletrônica
para decidir lances duvidosos. As propostas eram três: implantar
um chip na bola para determinar se ela entrou ou não no gol;
usar câmeras, em vez de um chip, para esse mesmo fim; e permitir
que o árbitro consulte um vídeo, nos lances polêmicos.
O fato de que esta Copa não contará com nenhum desses
recursos mostra quanto os dirigentes do futebol estão distantes
de outros esportes. Aprovaram-se apenas novos testes para a primeira
e a segunda alternativas como em outras ocasiões foram
testadas e retestadas idéias que não prosperaram.
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Havia, na época, esperança
de que neste mundial alguma tecnologia fosse usada pela primeira
vez nos lances duvidosos. O primeiro teste da bola chipada ocorreu
no campeonato mundial para menores de 17 anos, no fim do ano passado,
no Peru. Não agradou. Especulou-se, aliás, que o teste
só ocorreu porque a bola proposta foi feita pela Adidas,
uma tradicional patrocinadora da Fifa. "Consideramos que a nova
tecnologia não está pronta", limitou-se a explicar
o secretário-geral da Fifa, Urs Linsi. Por isso, nos casos
de lances duvidosos na Alemanha, que fatalmente ocorrerão,
será preciso continuar confiando nos olhos dos juízes.
Vários precedentes, mesmo em Copas do Mundo, mostram que
nem sempre eles acertam. Na Copa de 1986, o resultado do jogo entre
Brasil e Espanha teria sido outro se o juiz australiano Christopher
Bambridge tivesse visto que a bola entrou em um chute do espanhol
Michel. Ela bateu dentro do gol, poucos centímetros além
da linha, e saiu.
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Os argumentos contra o uso da
tecnologia não resistem ao bom senso. O mais famoso deles
é brandido pelo presidente da Fifa em pessoa, Sepp Blatter.
"Se o jogo ficar científico, perderá a emoção",
ele costuma dizer. É o caso de perguntar se basquete e futebol
americano, dois dos esportes mais populares nos Estados Unidos,
perderam a emoção desde que passaram a usar replays
como auxiliares da arbitragem. A partida entre Argentina e Inglaterra
em 1986, em que Diego Maradona marcou seu famoso gol com a "mão
de Deus", provavelmente até ganharia emoção
se o juiz consultasse a repetição e anulasse o gol.
Outro argumento inconsistente é o de que as partidas acabariam
sempre em confusão, com os dois times pedindo o tempo todo
a revisão dos lances. Basta limitar o número de vezes
em que é permitido recorrer ao replay. É assim em
outros esportes, como o futebol americano. Em alguns casos, se a
queixa é indevida, o apelante é punido, o que inibe
a choradeira inútil.
Enquanto o futebol reluta, cada
vez mais esportes aderem ao uso de equipamentos eletrônicos
(veja
o quadro). O mais recente é o tênis
também conhecido pela resistência a mudanças.
Na semana passada, pela primeira vez se empregou um sistema informatizado
para decidir jogadas controvertidas. No torneio de Key Biscayne,
nos Estados Unidos, foi instalado na quadra um equipamento da empresa
britânica Hawk-Eye (literalmente, "olho de gavião").
Um computador recebe imagens de meia dúzia de câmeras.
Cruzando esses dados, consegue determinar a posição
da bola com uma margem de erro de apenas 3 milímetros. É
uma ajuda bem-vinda para os árbitros de tênis, que
contam mais com a sorte do que com a visão quando os saques
ultrapassam os 200 quilômetros por hora. Nesse sistema, o
jogador que se sente prejudicado pode recorrer ao juiz eletrônico
duas vezes a cada set (e mais uma vez em pontos de desempate do
set). Quando há recurso, o juiz consulta um monitor. Vale
o que a imagem mostrar. O equipamento já era utilizado nas
transmissões de TV, mas é primeira vez que tem status
de tira-teima oficial.
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O uso da tecnologia, em alguns
esportes, é muito mais antigo do que se imagina. O photo
finish já era usado em corridas de cães e cavalos
desde o início do século XX. Como há muito
dinheiro de apostas em jogo, a fotografia é um árbitro
mais confiável que o olho de um juiz. A Fórmula 1
trocou a cronometragem manual pela eletrônica nos anos 70.
Toda nova tecnologia enfrenta alguma resistência. No turfe,
por exemplo, temia-se que a posição da câmera
prejudicasse o cavalo em segundo plano. Mas essas queixas sempre
desaparecem à medida que os benefícios da novidade
se tornam evidentes.
Na essência, o futebol
não é um esporte totalmente refratário a mudanças
os dirigentes é que às vezes remancheiam. Quem
compara as regras atuais com as originais, de 1863, tem a impressão
de se tratar de dois esportes completamente diferentes. Até
mesmo detalhes básicos, como o número de jogadores
em campo, o pênalti e a existência de um travessão
ligando as duas traves, não constavam do livrinho de 1863.
Foram mudanças feitas ao longo do tempo para melhorar o jogo.
Nos últimos anos, o International Board tomou algumas boas
decisões, que aumentaram o tempo de bola rolando como
proibir o goleiro de pegar certas bolas recuadas e o limite de seis
segundos para repô-la em jogo. A introdução
da tecnologia ainda assusta, mas parece uma evolução
inevitável se o futebol não quiser parecer um jogo
parado no tempo e injusto: em jogos como os da Copa do Mundo,
filmados por vinte câmeras, confiar apenas nos olhos de um
juiz e de dois auxiliares é um apego inútil à
tradição e um risco à credibilidade do resultado
final.
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