Edição 1949 . 29 de março de 2006

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Copa
A tecnologia
pode ajudar...

...mas a Fifa não deixa. Ainda não
será no Mundial deste ano que
a eletrônica resolverá lances duvidosos. Outros esportes,
porém, já aderiram


André Fontenelle




NESTA REPORTAGEM
Quadro: Onde já se usa a eletrônica

Uma vez por ano, oito pessoas sentam-se em torno de uma mesa para discutir se é preciso fazer alterações nas dezessete regras do futebol. Trata-se do International Board, comitê formado por quatro representantes da Fifa (a federação internacional) e quatro das federações inglesa, escocesa, galesa e irlandesa, uma deferência à origem britânica do esporte. Na pauta do encontro deste ano, realizado no início de março em Lucerna, na Suíça, discutiu-se uma mudança revolucionária: o uso da eletrônica para decidir lances duvidosos. As propostas eram três: implantar um chip na bola para determinar se ela entrou ou não no gol; usar câmeras, em vez de um chip, para esse mesmo fim; e permitir que o árbitro consulte um vídeo, nos lances polêmicos. O fato de que esta Copa não contará com nenhum desses recursos mostra quanto os dirigentes do futebol estão distantes de outros esportes. Aprovaram-se apenas novos testes para a primeira e a segunda alternativas – como em outras ocasiões foram testadas e retestadas idéias que não prosperaram.


Havia, na época, esperança de que neste mundial alguma tecnologia fosse usada pela primeira vez nos lances duvidosos. O primeiro teste da bola chipada ocorreu no campeonato mundial para menores de 17 anos, no fim do ano passado, no Peru. Não agradou. Especulou-se, aliás, que o teste só ocorreu porque a bola proposta foi feita pela Adidas, uma tradicional patrocinadora da Fifa. "Consideramos que a nova tecnologia não está pronta", limitou-se a explicar o secretário-geral da Fifa, Urs Linsi. Por isso, nos casos de lances duvidosos na Alemanha, que fatalmente ocorrerão, será preciso continuar confiando nos olhos dos juízes. Vários precedentes, mesmo em Copas do Mundo, mostram que nem sempre eles acertam. Na Copa de 1986, o resultado do jogo entre Brasil e Espanha teria sido outro se o juiz australiano Christopher Bambridge tivesse visto que a bola entrou em um chute do espanhol Michel. Ela bateu dentro do gol, poucos centímetros além da linha, e saiu.


Os argumentos contra o uso da tecnologia não resistem ao bom senso. O mais famoso deles é brandido pelo presidente da Fifa em pessoa, Sepp Blatter. "Se o jogo ficar científico, perderá a emoção", ele costuma dizer. É o caso de perguntar se basquete e futebol americano, dois dos esportes mais populares nos Estados Unidos, perderam a emoção desde que passaram a usar replays como auxiliares da arbitragem. A partida entre Argentina e Inglaterra em 1986, em que Diego Maradona marcou seu famoso gol com a "mão de Deus", provavelmente até ganharia emoção se o juiz consultasse a repetição e anulasse o gol. Outro argumento inconsistente é o de que as partidas acabariam sempre em confusão, com os dois times pedindo o tempo todo a revisão dos lances. Basta limitar o número de vezes em que é permitido recorrer ao replay. É assim em outros esportes, como o futebol americano. Em alguns casos, se a queixa é indevida, o apelante é punido, o que inibe a choradeira inútil.

Enquanto o futebol reluta, cada vez mais esportes aderem ao uso de equipamentos eletrônicos (veja o quadro). O mais recente é o tênis – também conhecido pela resistência a mudanças. Na semana passada, pela primeira vez se empregou um sistema informatizado para decidir jogadas controvertidas. No torneio de Key Biscayne, nos Estados Unidos, foi instalado na quadra um equipamento da empresa britânica Hawk-Eye (literalmente, "olho de gavião"). Um computador recebe imagens de meia dúzia de câmeras. Cruzando esses dados, consegue determinar a posição da bola com uma margem de erro de apenas 3 milímetros. É uma ajuda bem-vinda para os árbitros de tênis, que contam mais com a sorte do que com a visão quando os saques ultrapassam os 200 quilômetros por hora. Nesse sistema, o jogador que se sente prejudicado pode recorrer ao juiz eletrônico duas vezes a cada set (e mais uma vez em pontos de desempate do set). Quando há recurso, o juiz consulta um monitor. Vale o que a imagem mostrar. O equipamento já era utilizado nas transmissões de TV, mas é primeira vez que tem status de tira-teima oficial.


O uso da tecnologia, em alguns esportes, é muito mais antigo do que se imagina. O photo finish já era usado em corridas de cães e cavalos desde o início do século XX. Como há muito dinheiro de apostas em jogo, a fotografia é um árbitro mais confiável que o olho de um juiz. A Fórmula 1 trocou a cronometragem manual pela eletrônica nos anos 70. Toda nova tecnologia enfrenta alguma resistência. No turfe, por exemplo, temia-se que a posição da câmera prejudicasse o cavalo em segundo plano. Mas essas queixas sempre desaparecem à medida que os benefícios da novidade se tornam evidentes.

Na essência, o futebol não é um esporte totalmente refratário a mudanças – os dirigentes é que às vezes remancheiam. Quem compara as regras atuais com as originais, de 1863, tem a impressão de se tratar de dois esportes completamente diferentes. Até mesmo detalhes básicos, como o número de jogadores em campo, o pênalti e a existência de um travessão ligando as duas traves, não constavam do livrinho de 1863. Foram mudanças feitas ao longo do tempo para melhorar o jogo. Nos últimos anos, o International Board tomou algumas boas decisões, que aumentaram o tempo de bola rolando – como proibir o goleiro de pegar certas bolas recuadas e o limite de seis segundos para repô-la em jogo. A introdução da tecnologia ainda assusta, mas parece uma evolução inevitável se o futebol não quiser parecer um jogo parado no tempo – e injusto: em jogos como os da Copa do Mundo, filmados por vinte câmeras, confiar apenas nos olhos de um juiz e de dois auxiliares é um apego inútil à tradição e um risco à credibilidade do resultado final.

 
 
 
 
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