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Internacional
Começou...
Ameaçado pela volta da inflação,
Kirchner
lança mão de congelamentos e estatizações

José Eduardo Barella
AFP
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Marcos Brindicci/Reuters
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| Kirchner (no alto) congelou preços
e convocou piqueteiros a fiscalizar o comércio (acima).
Abaixo, mensagem na porta de um supermercado de Buenos Aires
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Fabian Gredillas/AFP
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Muitos governantes podem justificar
os resultados desastrosos de suas iniciativas com o argumento de
que lhes faltaram informações ou bons exemplos na
hora de tomar a decisão. Néstor Kirchner não
poderá usar essa desculpa. Para segurar os preços
que teimam em subir, o presidente argentino adotou uma receita antiinflacionária
com resultados desastrosos no passado. Nos anos 80, como Kirchner
está fazendo agora, a Argentina (e também o Brasil)
tentou revogar por decreto a lei da oferta e da procura. O resultado
foram prateleiras vazias, filas nos supermercados e, quando os preços
foram liberados, hiperinflação. Na semana passada,
depois de longa queda-de-braço com uma concessionária
francesa que se revoltara contra o congelamento de tarifas em vigor
desde 2002, Kirchner reestatizou a empresa de água e esgotos
de Buenos Aires. No início do mês, para aumentar a
oferta e reduzir o preço da carne no mercado interno, ele
proibiu a exportação do produto por seis meses. O
presidente também obrigou os supermercados a congelar por
um ano o preço de alguns produtos da cesta básica.
"Quando um presidente se vê na posição de interferir
pessoalmente no preço do pão ou da carne é
sinal de que o país caminha para o desastre", disse a VEJA
o economista argentino Dante Sica, do Centro de Estudos Bonaerense,
em Buenos Aires.
O aumento da inflação,
que dobrou de 6,1% para 12,3% no ano passado, é o ônus
que a Argentina paga por estar vivendo um dos períodos de
maior expansão econômica das últimas décadas.
A taxa anual média de crescimento foi de 8% nos últimos
três anos. Desde 2002, o índice de desemprego diminuiu
40% e a renda per capita aumentou 69%. Os argentinos, no entanto,
estão longe de recuperar o padrão de vida anterior
à crise de 2001 e 2002, que jogou um terço da população
na pobreza. "O crescimento atual da economia, apesar de robusto,
tem fôlego curto porque o país não está
recebendo novos investimentos", disse a VEJA o economista Luciano
Laspina, da consultoria Macrovision, de Buenos Aires. Desde o calote
da dívida externa, a Argentina é vista com desconfiança
pelos investidores estrangeiros. O populismo econômico de
Kirchner que inclui o incentivo oficial a um boicote à
Shell por ter aumentado o preço dos combustíveis
só piora a imagem do país.
As bravatas econômicas,
por outro lado, encantam os argentinos. A popularidade do presidente
ultrapassa os 60%. Candidato à reeleição em
2007, Kirchner deverá fazer de tudo para manter a economia
aquecida e a inflação sob controle. A estratégia
para isso é improvisar intervenções do Estado
na economia conforme os problemas vão aparecendo. O governo
já subsidia a água, a luz, o telefone, a tarifa dos
transportes públicos e a gasolina. Ao contrário do
Brasil, que usa uma taxa de juro elevada como instrumento de controle
da inflação, os juros reais na Argentina são
mantidos abaixo da inflação para estimular o consumo.
A intervenção no preço da carne é emblemática
por mostrar como a mão do Estado na economia pode trazer
resultados contraditórios. O governo argentino, que precisa
das exportações para aumentar suas receitas em moeda
forte, abriu mão dos dólares para fazer crescer a
oferta no mercado interno. Como o preço do produto não
baixou de imediato, o presidente iniciou um boicote aos produtores,
proibindo a compra de carne vermelha pelos órgãos
públicos e convocando os argentinos a fazer o mesmo.
A principal distorção
da economia argentina é que o setor produtivo incluindo
o de pecuária não cresce na mesma proporção
que a demanda, o que ajuda a pressionar a inflação
para cima. "Kirchner cometeu, no caso da carne, erro semelhante
ao de quando tentou controlar o preço da gasolina para segurar
a inflação. Os investimentos das empresas estrangeiras
minguaram, e as importações de combustíveis
aumentaram mais que o previsto em 2005", diz o economista argentino
Roberto Cachanosky. A política econômica argentina
começou a perder o rumo depois da saída de Roberto
Lavagna, o ministro da Economia que deu estabilidade ao país.
Lavagna foi substituído no fim do ano passado por Felisa
Miceli, economista cuja principal qualificação para
o cargo é a fidelidade ao presidente. Quem assumiu o leme
da economia de fato foi o próprio Kirchner. Com os resultados
que aí estão.
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