|
|
Economia e Negócios
As falsas vítimas
Tratados como crianças sem malícia
pela
Funai e por ONGs, os índios já tiram
24 milhões de reais de grandes empresas

José Edward e Leonardo Coutinho
Gildo Loyola/A Gazeta
 |
| Métodos do MST na invasão da
Aracruz (acima) e aldeia usada por ativistas para retardar
o projeto do Rodoanel, em São Paulo |
Itamar Miranda/AE
 |
Uma das peculiaridades do homem
branco ocidental cristão é sua capacidade de culpar-se
pelo sofrimento que seus antepassados impuseram a outros povos.
Dos gregos aos romanos, dos hunos aos teutônicos, dos maias
aos astecas, dos tupis aos ianomâmis, nenhuma civilização
ágrafa ou conhecedora do alfabeto deixou um único
registro escrito ou na tradição oral
de lamento de suas conquistas obtidas com o uso da violência.
Essa consciência só passou a existir modernamente.
Embora pregada pelos cristãos há 2 000 anos, ela só
veio com os confortos materiais que o capitalismo trouxe a certas
parcelas das populações. É um luxo, assim como
o secador de cabelos, a anestesia e os antibióticos. Em alguns
casos, essa culpa é tão intensa que provoca, entre
os vencedores, a idealização do caráter e dos
hábitos dos vencidos. É o caso do tratamento dado
aos índios no Brasil. Depois de os escravizarem e massacrarem
por séculos, os colonizadores decidiram agora consagrá-los
como crianças despidas de malícia cuja única
ambição é usufruir, em paz e isoladamente,
os recursos naturais de suas terras. Com o tempo, essa utopia idílica
ganhou feições de crença e institucionalizou-se.
Hoje, é consagrada pela política paternalista da Fundação
Nacional do Índio (Funai) e pela atuação de
ONGs e missionários religiosos, mais preocupados em aumentar
as áreas das reservas indígenas do que em criar condições
para o desenvolvimento econômico e social de suas populações.
Nos últimos anos, a vida
real encarregou-se de comprovar o equívoco dessa concepção.
Os indígenas brasileiros não são tão
ingênuos assim nem tão refratários ao progresso.
Além de usarem vários artifícios para fugir
da tutela governamental, eles estão cada vez mais empenhados
na tarefa de ganhar dinheiro. Para isso, fazem qualquer negócio.
Algumas aldeias usam a própria capacidade de trabalho para
prosperar, explorando comercialmente suas terras, o que a lei restringe.
É o caso dos parecis, donos de 1,3 milhão de hectares
em Mato Grosso. Sem apoio oficial, eles fecharam uma parceria com
produtores rurais da região para plantar soja na reserva,
o que deverá render-lhes 2 milhões de reais por ano.
Outras etnias vivem de royalties pagos por empresas, como a dos
waimiris-atroaris, na divisa do Amazonas com Roraima. Eles recebem
um pagamento mensal de 90 000 reais da Eletronorte, desde 1988,
como indenização pela inundação de 300
quilômetros quadrados da reserva para a construção
de uma barragem. Esses mesmos waimiris também cobram um pedágio
mensal de 50 000 reais da mineradora Paranapanema, que usa uma estrada
de 130 quilômetros dentro da reserva.
Um terceiro grupo de indígenas
resolveu amealhar recursos de forma menos benigna. Eles copiam o
que há de pior entre os métodos do homem branco
no caso, as táticas de invasão e achaque do Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), grupo medieval do qual
recebem apoio. No último ano, esses métodos foram
usados para destruir ferrovias, seqüestrar funcionários
de empresas e invadir fábricas. Em fevereiro, os guajajaras
interditaram um trecho da Ferrovia Carajás no Maranhão
e seqüestraram quatro trabalhadores da Companhia Vale do Rio
Doce, uma das maiores mineradoras do planeta, para pressionar o
governo federal a aumentar verbas para programas de saúde
em suas aldeias. A empresa nada tinha a ver com a história.
Os xikrins, no Pará, usam o mesmo artifício quando
querem pressionar pelo aumento da mesada que a Vale lhes paga pelo
fato de a ferrovia passar em suas terras. No fim do ano passado,
280 deles invadiram instalações da mineradora armados
com bordunas. Além da extorsão, os caciques da tribo
são acusados de utilizar em benefício próprio
parte dos recursos recebidos, além de exigir da empresa carros
e até um avião. A Vale é de longe a maior vítima
das tribos baderneiras. A companhia calcula que deixou de exportar
1 milhão de toneladas de minério de ferro nos primeiros
meses do ano devido à bandalheira indígena. O total
perdido representa 0,4% da produção do ano passado.
Parece pouco, mas são alguns milhões de dólares
perdidos pela economia brasileira. De resto, os índios têm
sido ingratos ou ambiciosos ao extremo. A Vale destinou cerca
de 50 milhões de reais nos últimos anos para atender
uma população de 3.000 índios.
Algo similar ocorreu no Espírito
Santo com a Aracruz, a maior fabricante mundial de celulose de eucalipto
(matéria-prima do papel). A empresa disputa com tupiniquins
e guaranis a posse de uma área de 180 quilômetros quadrados.
Em 1998, a empresa fechou um acordo, com as bênçãos
da Funai e do Ministério Público Federal, segundo
o qual poderia utilizar parte das terras em troca de uma mesada
às tribos. A idéia do acordo era fantástica
demais para ser verdade: com a ajuda da Embrapa, o dinheiro seria
usado para implementar técnicas de cultivo que garantiriam
a subsistência e a melhoria das condições de
vida dos índios. No fim do ano passado, depois de queimarem
23 milhões de reais, os índios resolveram romper o
trato e agora reivindicam a terra de volta. Assim, como se não
tivessem assinado acordo algum. Para pressionar a empresa, 150 indígenas
ocuparam por 32 horas a sede da companhia armados de tacapes, arcos
e flechas e com o apoio de militantes do MST. A Funai, que na época
apoiou o acordo, agora ficou do lado dos índios. "Essa é
uma atitude sábia, que demonstra o senso de oportunidade
deles", justifica Mércio Gomes, presidente da instituição.
Os índios como
se poderia dizer dos parlamentares nos dias de hoje são
inimputáveis. Não podem ser punidos pelas leis dos
"brancos" porque não as compreendem, ainda que falem português,
tenham antenas parabólicas e dirijam carros. Estudiosos da
questão indígena dizem que, além desse anacronismo
da legislação, a ineficiência da Funai também
explica em grande parte os conflitos. Criada há quatro décadas
com a missão de tutelar os índios, a Funai é
incapaz de garantir a integridade das reservas que estão
sob sua jurisdição, as quais são constantemente
invadidas por sem-terra, madeireiros e garimpeiros. Para piorar
a situação, sob o argumento de que é preciso
proteger a identidade cultural dos índios, a Funai tenta
impedir que eles desenvolvam atividades econômicas dentro
das reservas, preferindo sustentá-los com cestas básicas
e esmolas. "A Funai nos enxerga da mesma forma que os colonizadores
de 500 anos atrás. Ou seja: como seres retardados e incapazes",
desabafa Ailton Krenak, um dos muitos índios brasileiros
com curso superior e que atualmente é assessor especial do
governo de Minas Gerais. Essa ótica distorcida de alguns
ativistas pode ser encontrada na cidade de São Paulo. O novo
trecho do Rodoanel, uma das mais importantes obras viárias
do país, passará perto das aldeias Krukutu e Barragem,
no extremo sul da cidade. Os próprios índios disseram
que não estão contra a estrada, que passará
a mais de 8 quilômetros das tribos. Mas mesmo assim ongueiros
utilizaram uma suposta ameaça aos indígenas como argumento
para retardar as obras.
A política indígena
brasileira é norteada pelo Estatuto do Índio, um documento
editado em 1973 pelos militares. É com base nessa lei
cuja reformulação tramita no Congresso Nacional há
mais de dez anos que a Funai dita as regras sobre a vida
dos 500 000 índios existentes no país. Como conseqüência
dessa legislação anacrônica, tem-se o seguinte
quadro: índio não pode fazer negócio com branco,
mas índio precisa de dinheiro. Entretanto, como a Funai restringe
atividades comerciais dentro das reservas e não as fiscaliza
direito, os indígenas fazem negócio com madeireiro,
traficante, garimpeiro e contrabandista. Ou buscam fontes extras
de renda para não morrer à míngua. No ano passado,
apenas cinco empresas Vale do Rio Doce, Aracruz, Eletronorte,
Itaipu e Paranapanema destinaram, juntas, 23,8 milhões
de reais para dez etnias de cinco estados, o equivalente a 63% do
que a Funai aplicou no mesmo período em projetos de assistência
social em todas as 582 reservas indígenas existentes no país.
Por essas e outras, a extinção
da Funai é defendida por estudiosos do tema e até
por algumas lideranças indígenas, como o sateré-mawé
Jecinaldo Barbosa Cabral, chefe da Coordenação das
Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira
(Coiab), a maior agremiação indígena do país.
"A Funai é um órgão arcaico, cuja existência
não se justifica mais", afirma. Uma proposta defendida tanto
por especialistas como por índios é que, em caso de
sobrevivência, a Funai se limite a cuidar de índios
isolados. Diz o antropólogo Stephen Baines: "O Brasil não
é como o México ou a Bolívia, onde a população
é de maioria indígena. Não se justifica manter
um órgão falido para cuidar de índios se eles
podem ser mais bem atendidos caso sejam vistos como qualquer outro
cidadão brasileiro".
Com reportagem de
Cíntia Borsato
|