Edição 1949 . 29 de março de 2006

Índice
Millôr
Claudio de Moura Castro
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Brasil

Ética cotidiana

 

Jefferson Bernardes

CONTRA O CONHECIMENTO
Há duas semanas, o Movimento de Mulheres Camponesas – um braço do Movimento dos Sem Terra – invadiu um centro de pesquisas da companhia Aracruz, em Barra do Ribeiro (RS), e destruiu cerca de 1 milhão de mudas de eucalipto geneticamente modificadas. O MST proclama-se como um movimento revolucionário e, como tal, quer romper com a ordem institucional. A princípio, portanto, reprovações éticas são inúteis, já que as mascaradas não reconhecem direitos "burgueses" como a propriedade privada. Em um ponto, porém, o vandalismo dessas mulheres extrapola qualquer sistema ético – até os revolucionários. As mudas destruídas eram fruto de uma década de pesquisa. Foi um atentado não só à propriedade, mas também ao conhecimento.

Um colega de classe invariavelmente leva "cola" em dias de prova. O correto é delatá-lo?
Não. Na cultura brasileira delatar é pior do que colar.  

Permitir que filhos adolescentes procedam de maneira errada na escola e em sociedade sob a desculpa de que eles – os pais – também fizeram suas bagunças é certo?
É cômodo, mas não é certo. O aprendizado se faz com base nas experiências, boas ou ruins, de gerações passadas. "Sorte dos filhos cujos pais aprenderam com os erros da adolescência", diz o filósofo Alípio Casali, da PUC de São Paulo.  

Os ativistas de defesa dos animais jogam tinta nos casacos de pele das pessoas no Hemisfério Norte. Isso é correto?
Não. Essas agressões não inibem a matança de animais. O mais eficiente é mostrar imagens de filhotinhos submetidos a sofrimentos indizíveis.

Estacionar em fila dupla é proibido, mas dar uma paradinha rápida para comprar um remédio ou entregar uma encomenda é um delito menor, não?
A parada só é rápida para quem parou. Para as outras pessoas, dependendo da pressa, essa manobra pode significar um incômodo gigantesco.

Uma das professoras da pré-escola decidiu contar a um menino que Papai Noel não existe. A justificativa dela foi que os coleguinhas já não acreditavam e faziam troça dele. Ela agiu corretamente?
Não. A escola ensina, os pais educam. Caberia à professora alertar os pais para a situação incômoda do filho.

Um médico propõe dar dois recibos com datas diferentes de modo que o valor de cada um fique dentro da quantia coberta pelo seguro-saúde. Assim, o paciente conseguirá ser reembolsado pelo valor total da consulta. É errado aceitar a oferta?
Sim. Os custos dos planos médicos particulares são calculados sobre toda a sua base de clientes. Com sua economia, você acabará tornando as mensalidades mais altas para quem age de acordo com as regras.  

Uma pessoa tem certeza de que tolera muito bem a bebida e se sente apta a dirigir mesmo depois de tomar três doses de uísque. A lei não deveria prever esses casos?
Não. O limite alcoólico estabelecido em lei é aquele a partir do qual a maioria dos seres humanos tem sua capacidade de julgamento comprometida. Deixar esse limite ser estabelecido caso a caso não funciona.  

 
Emmanuel Pinheiro/AE

A GREVE DOS PRIVILEGIADOS
Na semana passada, o Conselho Nacional de Justiça estabeleceu o teto salarial do Judiciário nos estados e no âmbito federal. A decisão causou chiadeira entre os juízes, visto que muitos deles, em todo o país, recebiam gratificações que faziam com que seus rendimentos ficassem muito acima dos valores estabelecidos. A manifestação mais extremada veio de Minas Gerais, onde os desembargadores do Tribunal de Justiça decretaram greve – e deixaram a população sem seus serviços legais (foto). Foi um mau exemplo vindo de cima: uma greve para resguardar privilégios.

Você acredita que um amigo de seu filho adolescente é uma má influência. Não transmitir os recados que esse amigo deixa com a intenção de proteger seu filho é uma boa idéia?
Não. Além de ser uma tática pouco eficaz, ela tem uma dose de desonestidade e tira do jovem um direito que é dele – o de escolher seu grupo. É melhor expor suas dúvidas e conversar a respeito, para que ele possa, quem sabe, repensar as amizades.

Um professor de tênis sabe que seu pupilo não tem potencial para ser um bom jogador. Ano após ano ele continua cobrando as aulas do garoto. O correto é dizer a verdade, perder o aluno e o dinheiro das aulas?
Depende. Se a criança tem a ilusão de que se tornará tenista profissional, sim, é obrigação dele ser claro a respeito de seu julgamento. Se o aluno só quer se divertir, o professor pode continuar dando as aulas.  

Anular o voto na próxima eleição em protesto pela má conduta dos políticos é um procedimento correto?
Pode não funcionar como protesto, mas anular o voto não fere a consciência individual de ninguém. O americano Alasdair MacIntyre, autoridade em filosofia moral, defendeu o voto nulo na última eleição americana: "Quando nos é oferecida a opção entre duas alternativas políticas intoleráveis, é importante não escolher nenhuma".  

Alguém ouve música em alto volume, mas ainda dentro do limite legal de decibéis para aquela região. O vizinho reclama. Quem tem razão?
Ao contrário do limite alcoólico, o grau de incômodo sonoro deve, sim, ser regulado caso a caso. Quem reclama deve ter suas razões (um bebê recém-nascido em casa, por exemplo).  

Recorrer a despachantes para apressar o andamento de documentos é ético?
Esse é um caso em que se está em um limite nebuloso da lei e da ética. A atividade de despachante é legal, mas esses profissionais freqüentemente recorrem a propinas e "jeitinhos" que alimentam a máquina da corrupção.  

Um casal de amigos adotou uma criança e não pretende revelar que ela não é filho natural. Você sabe que essa omissão pode prejudicar a criança mais tarde. É certo contar a ela sua real situação familiar?
Não. O adotado que descobre a verdade acidentalmente ou por outras pessoas sofre mais do que aquele que recebe a notícia dos pais. O mais correto é convencer o casal de amigos a dizer a verdade quando e como eles quiserem.

Quando a estrada está vazia e não há radar à vista, ultrapassar o limite de velocidade não traz maiores conseqüências, correto?
O limite de velocidade é imposto justamente para evitar acidentes em circunstâncias imprevistas. Além disso, o desrespeito à lei é desrespeito mesmo quando não há ninguém olhando.  

O.k., mas circular no próprio bairro em dias que o rodízio proíbe não coloca ninguém em risco...
Certo, mas a lei é feita para todos e, se todos seguirem essa mesma lógica, o rodízio perderá sua eficácia. Se o rodízio for para conter a poluição, sair de carro é ainda mais errado.  

É certo usar uma foto em que você nem parece ter barriga para se propagandear em um site de paquera na internet?
Pela etiqueta da internet, isso não é certo nem errado. É quase uma obrigação. Como 99% das conversas on-line não passam da fase virtual, não há problema algum em se mostrar virtualmente diferente.

 

Xando Pereira/A Tarde/AE

AGARRADO AO NEPOTISMO
A recente decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de proibir a contratação sem concurso de parentes de juízes nas cortes do país despertou reações naqueles que se agarravam à prática arcaica do nepotismo. O presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, Benito Figueiredo (foto), foi um personagem emblemático: ele adiou quanto pôde a exoneração de 85 servidores com parentesco com juízes e desembargadores em Salvador.

Alguns religiosos americanos dizem que, se Jesus vivesse entre os mortais hoje, jamais dirigiria um utilitário, pois esses carros consomem muito combustível e, por isso, prejudicam todo mundo. É correto ter um carro grande para uso individual?
É permitido pela lei. Pode ser ecologicamente incorreto, mas ninguém deve se sentir mal por isso.  

Um médico tem na mesa de cirurgia uma criança que só pode ser salva com uma transfusão de sangue. Os pais proíbem a intervenção sob o argumento de que isso vai contra a religião deles. O médico deve fazer a transfusão de sangue e salvar a criança?
Em uma emergência, sim. Ele seria protegido pela lei e pela ética médica. Havendo tempo, deve procurar o amparo legal de um juiz.  

Pegar "carona" na rede sem fio do vizinho que seu computador capta é errado?
Sim. O usuário que está pagando pelo serviço terá menos banda disponível para trafegar pela internet.  

Um pássaro de comercialização ilegal está exposto em uma feira de animais em condições de evidentes maus-tratos. É correto desrespeitar a lei, comprar o pássaro e dar-lhe uma vida melhor?
Não. Da mesma forma que com o tráfico de drogas, é o fato de haver consumidores que alimenta o tráfico cruel de animais silvestres. Sem compradores, ele deixa de existir. O melhor é fazer uma denúncia à polícia.  

Se a maioria dos vizinhos se cotiza para pagar um guarda-noturno para o quarteirão, é justo que um morador se recuse a contribuir?
Não. Mesmo que alegue não fazer questão do serviço, ele se beneficiará dele.

O carro sofreu batidas fortes, mas foi totalmente recuperado e parece em ótimo estado. Ao vendê-lo, é honesto não dar todos os detalhes sobre a gravidade das batidas?
Não. Omitir esse tipo de informação é inaceitável do ponto de vista ético. Além disso, agindo assim, o antigo proprietário se torna juridicamente acionável em caso de danos futuros conseqüentes das avarias não relatadas ao comprador.  

Vejo que muitos motoristas jogam o toco de cigarro pela janela, em vez de apagá-lo no cinzeiro do carro. Isso é aceitável?
Não. Você jogaria uma bituca no chão de sua própria casa? Pois então não existe desculpa para sujar o chão dos espaços públicos, que são a casa de todos.

 
 
 
 
topovoltar