Ibope do mal
Gugu defende gente suspeita só
para ganhar audiência
Marcelo Carneiro
Protagonista de uma ferrenha guerra com Fausto Silva pela
liderança nas tardes de domingo, Gugu Liberato arranjou
uma nova e inusitada arma para enfrentar a Globo. Ele leva
a seu programa, como convidados, personalidades que apareceram
em situação desfavorável em telejornais
da emissora concorrente. Na semana retrasada, o entrevistado
foi Celso Pitta, que dois dias antes vira no Globo Repórter
a própria ex-mulher, Nicéa, denunciar um esquema
de corrupção em sua administração.
Na semana passada foi a vez do cantor Alexandre Pires, indiciado
pelo atropelamento e morte do vendedor José Alves
Sobrinho. Pires estava chateado com a Globo porque a emissora
havia exibido, no Fantástico, testemunhas
que desmentiam pontos importantes para a sua defesa no caso.
Gugu explorou à exaustão o ressentimento de
ambos. Na entrevista com Pitta, foi direto: "O senhor pretende
processar a Globo?" Com essa estratégia, o loiro
do canal de Silvio Santos cutuca a concorrente e, de quebra,
ganha pontos na audiência. Enquanto Alexandre Pires
esteve no vídeo, o placar do Ibope apresentou uma
média de 32 pontos do SBT contra 27 da Globo. No
caso de Pitta, houve um empate técnico.
Ao promover essas entrevistas, Gugu não está
fazendo jornalismo. Suas intervenções não
são jornalísticas porque ele bajula o entrevistado,
praticamente só traz pessoas que falam a favor dele
e usa artifícios para provocar comoção
no espectador. Alexandre Pires, que é amigo do apresentador,
fez até teatrinho. Apesar de ter acertado que iria
à emissora para a entrevista, fingiu até o
último minuto que só falaria pelo telefone.
Valeu a pena. Ganhou 51 minutos de programa, incluindo imagens
de obras sociais do grupo Só pra Contrariar e profusos
elogios de cantores como Gilberto Gil e Caetano Veloso.
"Ele é um rapaz de boa educação, boa
índole e em quem eu confio", derramou-se Caetano
por telefone. "Ele é um menino bom, de quem não
se pode dizer nada que não seja positivo, um excelente
cantor de um grupo de alto nível." Impressionante.
Gil, também por telefone, pegou pesado: "Ele foi
vítima de um acidente de trânsito tanto quanto
aquele que acabou morrendo". No caso de Celso Pitta, o apresentador
derramou-se em adjetivos como "simpático" e "gentil".
Expedientes como esse são típicos de programas
de auditório como o de Gugu. O que soa estranho é
batizar o quadro, uma evidente mitificação,
de "furo de reportagem".