A mão de Deus – e
do bispo
Para vitaminar seu negócio mais
lucrativo,
a religião, a Universal intervém na Record
Ricardo Valladares
Marcos Rosa
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| O bispo Edir Macedo: a emissora
fatura 12 milhões por mês. A igreja Universal,
2 bilhões por ano |
Sem estardalhaço, nem atitudes bombásticas,
como o chute de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida no
ar, a Record está readquirindo o rosto da Igreja
Universal do Reino de Deus. É o bispo Marcelo Crivella
que, em meio ao tiroteio do Cidade Alerta, irrompe
para fazer sua oração todos os dias às
6 e meia da tarde, além de dar as caras em vários
outros programas. É a cobertura discretíssima
que foi dada à visita do papa João Paulo II
à Terra Santa. São os deputados da bancada
evangélica do Congresso que viraram presença
obrigatória na maioria dos jornalísticos do
canal. Trata-se de uma reviravolta. Há cinco anos,
o bispo Edir Macedo, líder da Universal, havia decidido
transformar a Record num canal exclusivamente comercial.
Na ocasião, tirou os pastores da administração
da emissora e colocou, no lugar deles, profissionais conceituados
no mercado – os diretores artísticos
Eduardo Lafon, hoje no SBT, e José Paulo Valone,
e os diretores comerciais Carlos Alberto Missiroli e Rubens
Carvalho. De um certo ponto de vista, deu certo. A audiência
média subiu de 1 para 6 pontos no ibope e o faturamento,
de 2 milhões para 12 milhões de reais por
mês. Por que motivo, então, a Universal teria
resolvido livrar-se dessas pessoas e retomar as rédeas
na Record?
Na verdade, o sucesso comercial da Record é, em
parte, ilusório. Apesar do aumento no faturamento,
a emissora não se paga. A Universal coloca mensalmente
10 milhões de reais no negócio, para pagar
salários de atrações como Eliana, Raul
Gil e Boris Casoy, além dos gastos crescentes com
infra-estrutura e compra de novas emissoras. Esse dinheiro,
oficialmente, entra como pagamento pelos horários
dos programas religiosos da madrugada. Diante desse fato
financeiro, Edir Macedo achou por bem recolocar o canal
a reboque de sua igreja, um negócio infinitamente
mais lucrativo. O faturamento declarado da Universal, de
acordo com o Fisco, está na casa dos 2 bilhões
de reais por ano. Foi pensando em sua principal fonte de
renda que a Universal substituiu José Paulo Valone
pelo pastor Marcus Aragão na direção
de programação e artística. Aragão,
que era assessor da presidência da emissora, ganhou
prestígio com Edir Macedo pela sua atuação
como uma espécie de "interventor" no departamento
de jornalismo. Na época da queda do teto de um templo
da Universal em Osasco, era ele quem, de dentro da redação,
monitorava o que podia e o que não podia ser exibido
em cada telejornal, exceto no de Boris Casoy (veja
quadro). Agora, Aragão tem poder sobre todas
as áreas. É crescente também a influência
do deputado federal e bispo Carlos Rodrigues, provável
candidato a prefeito do Rio de Janeiro pelo Partido Liberal.
Ele é o responsável por intermediar os contatos
entre políticos evangélicos e os noticiosos
da emissora. "Sempre tem um pedido de Rodrigues para que
um deputado ou vereador ligado à Igreja Universal
apareça nos programas", diz um jornalista da Record.
Neste ano, a Igreja pretende fazer pelo menos 300 vereadores
nas eleições municipais. A médio prazo,
os planos são bem mais ambiciosos. Em seis anos,
Edir Macedo quer ter munição para lançar
um candidato próprio à Presidência da
República.
Trinca de ouro – Crivella,
Rodrigues e Aragão formam a trinca de ouro da Record.
Por causa de Marcelo Crivella, o bispo-artista, o canal
de Edir Macedo chegou a comprar uma briga com a gravadora
multinacional Sony. Crivella lançou um CD no ano
passado, e a Universal esperava que ele vendesse mais ou
menos o mesmo que o padre Marcelo Rossi, seu equivalente
católico. Ou seja, algo em torno de 3 milhões
de CDs. O disco, no entanto, não chegou às
500.000 cópias vendidas.
Edir Macedo, que é tio de Crivella e o considera
seu sucessor, atribuiu a vendagem abaixo da esperada a um
suposto corpo mole da Sony na divulgação.
Por causa disso, artistas como Sérgio Reis e Gabriel
o Pensador, ambos da Sony, entraram na lista negra da emissora.
Só podiam aparecer no programa de Raul Gil –
o líder de audiência aos sábados ainda
tem autonomia para mostrar o que quiser em seu show.
Nos próximos meses, a intervenção
dos bispos na Record se fará sentir na área
da teledramaturgia. A próxima novela da emissora
terá em sua trama um engenheiro agrônomo que
vai ao Nordeste implantar um projeto agrícola inspirado
nos kibutzim de Israel. Edir Macedo anda animadíssimo
com as possibilidades de marketing do argumento, já
que a Igreja Universal tem uma fazenda na Bahia na qual
desenvolve uma atividade semelhante. Como não poderia
deixar de ser, existe um lado anedótico nessa nova
fase da Record. No ano passado, ela comprou os direitos
de transmissão do réveillon do ano 2000, em
cadeia com a BBC inglesa. No momento em que estava para
ser exibida a bênção do papa João
Paulo II, a imagem foi cortada bruscamente. Pega de surpresa,
a jornalista Eleonora Paschoal, que ancorava o programa,
ficou alguns momentos sem saber o que dizer. Além
de censurar e palpitar nos jornalísticos, os bispos
da Record foram orientados para popularizar ainda mais a
programação. O intuito é atingir o
público das classes C, D e E, fiéis em potencial
da Universal e, por tabela, eventuais eleitores dos candidatos
ligados a ela. Há pouco tempo, Edir Macedo ampliou
sua estratégia televisiva comprando por 17 milhões
de reais um canal em UHF, a Rede Mulher. Tudo somado, é
uma contra-ofensiva de peso em relação ao
avanço católico nos meios de comunicação
de massa, simbolizado pelo sucesso do padre Marcelo Rossi.
Uma ilha de independência
Flavio Torres
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| Boris Casoy: 250 000 reais
por mês |
Boris Casoy é uma ilha de independência.Numa
emissora em que os bispos da Universal metem o dedo
em tudo, o âncora do Jornal da Record
tem sua autonomia assegurada por contrato. Isso significa
que o criador do bordão "Isso é uma
vergonha" não precisa colocar candidatos ligados
à Universal no telejornal que ele apresenta
de segunda a sexta e tem total liberdade na escolha
dos convidados que aparecem no Passando a Limpo,
programa de entrevistas dos domingos à noite.
Num canal cada vez mais voltado para as classes C,
D e E, Boris é também a atração
com maior porcentagem de espectadores nas classes
A e B, motivo pelo qual o Jornal da Record
é um dos campeões de faturamento publicitário
na emissora. Essa jóia da coroa do bispo Edir
Macedo custa caro. O âncora recebe um salário
de 250 000 reais por mês, o que faz dele o jornalista
mais bem pago do país. Para se ter um parâmetro
de comparação, William Bonner e Fátima
Bernardes, que apresentam o noticioso de maior audiência
no Brasil, o Jornal Nacional, embolsam cada
um o equivalente a 40 000 reais por mês. Boris
Casoy recebe um salário estratosférico
para um jornalista, mas não é nem de
longe a atração mais bem paga da Record.
Em outra linha, a de shows, Eliana e Fábio
Júnior recebem em torno de 400 000 reais mensais
entre salários e merchandising. Raul Gil, o
campeão do ibope nas tardes de sábado,
ganha menos do que Boris no contracheque –
algo em torno de 150 000 reais –,
mas com o merchandising chega a tirar 350 000 por
mês.
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