Edição 1 642 - 29/3/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
O excêntrico editor que movimenta o cenário cultural
Bispos voltam a mandar na programação da Record
Gugu Liberato e o ibope do mal
SBT compra pacote de filmes para enfrentar a Globo
Khaled, o rei das pistas de dança
A decadência do pagode
Qual é o momento certo para ganhar um Oscar
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Lista de mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

A mão de Deus e do bispo

Para vitaminar seu negócio mais lucrativo,
a religião, a Universal intervém na Record

Ricardo Valladares

 

Marcos Rosa
O bispo Edir Macedo: a emissora fatura 12 milhões por mês. A igreja Universal, 2 bilhões por ano


Sem estardalhaço, nem atitudes bombásticas, como o chute de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida no ar, a Record está readquirindo o rosto da Igreja Universal do Reino de Deus. É o bispo Marcelo Crivella que, em meio ao tiroteio do Cidade Alerta, irrompe para fazer sua oração todos os dias às 6 e meia da tarde, além de dar as caras em vários outros programas. É a cobertura discretíssima que foi dada à visita do papa João Paulo II à Terra Santa. São os deputados da bancada evangélica do Congresso que viraram presença obrigatória na maioria dos jornalísticos do canal. Trata-se de uma reviravolta. Há cinco anos, o bispo Edir Macedo, líder da Universal, havia decidido transformar a Record num canal exclusivamente comercial. Na ocasião, tirou os pastores da administração da emissora e colocou, no lugar deles, profissionais conceituados no mercado os diretores artísticos Eduardo Lafon, hoje no SBT, e José Paulo Valone, e os diretores comerciais Carlos Alberto Missiroli e Rubens Carvalho. De um certo ponto de vista, deu certo. A audiência média subiu de 1 para 6 pontos no ibope e o faturamento, de 2 milhões para 12 milhões de reais por mês. Por que motivo, então, a Universal teria resolvido livrar-se dessas pessoas e retomar as rédeas na Record?

Na verdade, o sucesso comercial da Record é, em parte, ilusório. Apesar do aumento no faturamento, a emissora não se paga. A Universal coloca mensalmente 10 milhões de reais no negócio, para pagar salários de atrações como Eliana, Raul Gil e Boris Casoy, além dos gastos crescentes com infra-estrutura e compra de novas emissoras. Esse dinheiro, oficialmente, entra como pagamento pelos horários dos programas religiosos da madrugada. Diante desse fato financeiro, Edir Macedo achou por bem recolocar o canal a reboque de sua igreja, um negócio infinitamente mais lucrativo. O faturamento declarado da Universal, de acordo com o Fisco, está na casa dos 2 bilhões de reais por ano. Foi pensando em sua principal fonte de renda que a Universal substituiu José Paulo Valone pelo pastor Marcus Aragão na direção de programação e artística. Aragão, que era assessor da presidência da emissora, ganhou prestígio com Edir Macedo pela sua atuação como uma espécie de "interventor" no departamento de jornalismo. Na época da queda do teto de um templo da Universal em Osasco, era ele quem, de dentro da redação, monitorava o que podia e o que não podia ser exibido em cada telejornal, exceto no de Boris Casoy (veja quadro). Agora, Aragão tem poder sobre todas as áreas. É crescente também a influência do deputado federal e bispo Carlos Rodrigues, provável candidato a prefeito do Rio de Janeiro pelo Partido Liberal. Ele é o responsável por intermediar os contatos entre políticos evangélicos e os noticiosos da emissora. "Sempre tem um pedido de Rodrigues para que um deputado ou vereador ligado à Igreja Universal apareça nos programas", diz um jornalista da Record. Neste ano, a Igreja pretende fazer pelo menos 300 vereadores nas eleições municipais. A médio prazo, os planos são bem mais ambiciosos. Em seis anos, Edir Macedo quer ter munição para lançar um candidato próprio à Presidência da República.

Trinca de ouro Crivella, Rodrigues e Aragão formam a trinca de ouro da Record. Por causa de Marcelo Crivella, o bispo-artista, o canal de Edir Macedo chegou a comprar uma briga com a gravadora multinacional Sony. Crivella lançou um CD no ano passado, e a Universal esperava que ele vendesse mais ou menos o mesmo que o padre Marcelo Rossi, seu equivalente católico. Ou seja, algo em torno de 3 milhões de CDs. O disco, no entanto, não chegou às 500.000 cópias vendidas. Edir Macedo, que é tio de Crivella e o considera seu sucessor, atribuiu a vendagem abaixo da esperada a um suposto corpo mole da Sony na divulgação. Por causa disso, artistas como Sérgio Reis e Gabriel o Pensador, ambos da Sony, entraram na lista negra da emissora. Só podiam aparecer no programa de Raul Gil o líder de audiência aos sábados ainda tem autonomia para mostrar o que quiser em seu show.

Nos próximos meses, a intervenção dos bispos na Record se fará sentir na área da teledramaturgia. A próxima novela da emissora terá em sua trama um engenheiro agrônomo que vai ao Nordeste implantar um projeto agrícola inspirado nos kibutzim de Israel. Edir Macedo anda animadíssimo com as possibilidades de marketing do argumento, já que a Igreja Universal tem uma fazenda na Bahia na qual desenvolve uma atividade semelhante. Como não poderia deixar de ser, existe um lado anedótico nessa nova fase da Record. No ano passado, ela comprou os direitos de transmissão do réveillon do ano 2000, em cadeia com a BBC inglesa. No momento em que estava para ser exibida a bênção do papa João Paulo II, a imagem foi cortada bruscamente. Pega de surpresa, a jornalista Eleonora Paschoal, que ancorava o programa, ficou alguns momentos sem saber o que dizer. Além de censurar e palpitar nos jornalísticos, os bispos da Record foram orientados para popularizar ainda mais a programação. O intuito é atingir o público das classes C, D e E, fiéis em potencial da Universal e, por tabela, eventuais eleitores dos candidatos ligados a ela. Há pouco tempo, Edir Macedo ampliou sua estratégia televisiva comprando por 17 milhões de reais um canal em UHF, a Rede Mulher. Tudo somado, é uma contra-ofensiva de peso em relação ao avanço católico nos meios de comunicação de massa, simbolizado pelo sucesso do padre Marcelo Rossi.

 

Uma ilha de independência

Flavio Torres
Boris Casoy: 250 000 reais por mês


Boris Casoy é uma ilha de independência.Numa emissora em que os bispos da Universal metem o dedo em tudo, o âncora do Jornal da Record tem sua autonomia assegurada por contrato. Isso significa que o criador do bordão "Isso é uma vergonha" não precisa colocar candidatos ligados à Universal no telejornal que ele apresenta de segunda a sexta e tem total liberdade na escolha dos convidados que aparecem no Passando a Limpo, programa de entrevistas dos domingos à noite. Num canal cada vez mais voltado para as classes C, D e E, Boris é também a atração com maior porcentagem de espectadores nas classes A e B, motivo pelo qual o Jornal da Record é um dos campeões de faturamento publicitário na emissora. Essa jóia da coroa do bispo Edir Macedo custa caro. O âncora recebe um salário de 250 000 reais por mês, o que faz dele o jornalista mais bem pago do país. Para se ter um parâmetro de comparação, William Bonner e Fátima Bernardes, que apresentam o noticioso de maior audiência no Brasil, o Jornal Nacional, embolsam cada um o equivalente a 40 000 reais por mês. Boris Casoy recebe um salário estratosférico para um jornalista, mas não é nem de longe a atração mais bem paga da Record. Em outra linha, a de shows, Eliana e Fábio Júnior recebem em torno de 400 000 reais mensais entre salários e merchandising. Raul Gil, o campeão do ibope nas tardes de sábado, ganha menos do que Boris no contracheque algo em torno de 150 000 reais , mas com o merchandising chega a tirar 350 000 por mês.