Papel cuchê
Refinado e excêntrico, o editor Charles
Cosac
é uma figura ímpar no cenário
cultural
Carlos Graieb
Paulo Pinto/AE
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Charles Cosac: inveja de Maria
Callas,
colar com dedos do avô morto e pedras
preciosas nos dentes |
Oscar Wilde, um dos mais excêntricos, mordazes e
escandalosos escritores de todos os tempos, costumava dizer
que uma pessoa, para tornar-se interessante, deveria "ter
sempre algo de improvável". Discípulo confesso
do autor irlandês, o carioca Charles Cosac segue ao
pé da letra essa filosofia. No cenário modorrento
da cultura nacional, poucas pessoas poderiam ser mais "improváveis"
do que ele, quer pelas atitudes, quer pelo projeto que desenvolve
à frente da editora Cosac & Naify, estabelecida
em São Paulo. Esse projeto é fácil
de descrever: publicar os melhores livros de arte do mercado.
É exatamente isso que a editora vem fazendo, seja
traduzindo obras, seja lançando coleções
devotadas aos artistas brasileiros do passado e do presente
(veja quadro abaixo). Mesmo
sem contabilizar lucros em seus quatro anos de atividade,
ela continua firme no rumo programado. Bem mais difícil
é traçar um perfil do próprio Charles
Cosac, descendente de imigrantes sírios, católicos
ortodoxos, que fizeram fortuna com a mineração.
Aos 35 anos, ele é um celibatário que vai
à igreja todas as manhãs, veste-se como um
dândi, mandou incrustar quatro pedras preciosas em
seus dentes e considera a cidade russa de São Petersburgo,
"onde até as paredes choram", sua pátria espiritual.
Ao inaugurar sua editora, em 1996, Cosac pegou os concorrentes
de surpresa. "Ninguém tinha ouvido falar dele", relembra
Marcos Pereira, diretor da editora Sextante, que atua no
mesmo filão. O motivo era simples: desde a adolescência,
o misterioso Charles vivia no exterior. Seus pais o matricularam
num exclusivíssimo internato inglês aos 14
anos. O colégio abrigava somente um punhado de alunos,
quase todos filhos de sheiks árabes. Os estudos universitários
foram feitos no mesmo país, mas Cosac também
já morou nos Estados Unidos e na Rússia, onde
fez uma tese acadêmica sobre o pintor suprematista
Kazimir Malevitch. Apesar das freqüentes mudanças,
o editor jamais despregou os olhos do cenário brasileiro
de artes. No começo dos anos 90, ele ajudou a fundar
um museu de arte latina em Essex, na Inglaterra. Muitas
obras do acervo saíram de sua coleção
particular. Hoje em dia, ele também faz doações
regulares para o Museu de Arte Moderna (MAM), em São
Paulo. "É uma das poucas instituições
do gênero, no país, que vêm realizando
um trabalho decente", afirma.
Túnicas orientais –
No imenso apartamento para onde acaba de mudar-se, num bairro
tradicional da capital paulista, Cosac reúne um grande
número de pinturas, esculturas e objetos antigos.
Há de tudo, desde imagens sacras do século
passado até obras de artistas contemporâneos
consagrados como o escultor Franz Weissman. Cosac não
é o tipo de colecionador que joga apenas com cartas
marcadas. Independente, ele torce o nariz para muitos queridinhos
da crítica. É capaz, por exemplo, de fazer
pouco de um dos mitos modernistas, o quadro Abaporu,
de Tarsila do Amaral. Um de seus artistas preferidos é
o goiano Siron Franco, de quem ele possui várias
telas de grandes dimensões, inclusive uma que acomodou
no próprio quarto. Segundo Cosac, é escandaloso
que os ricos brasileiros não invistam nos artistas
locais. "Os únicos verdadeiros mecenas do país
são os bicheiros cariocas, que uma vez por ano gastam
milhões no Carnaval do Rio", diz. "A chamada elite
usa seu dinheiro em carros e tintura para cabelo."
Além das artes visuais, Cosac adora óperas
e moda. Ele considera o alemão Richard Wagner o maior
dentre os compositores, mas diz que sua música às
vezes o "atormenta". Assim, acaba preferindo ouvir óperas
italianas do século XIX. "Se existe algo que invejo,
é a voz de Maria Callas cantando Norma, de
Bellini", diz. No campo da moda, ele faz distinções
semelhantes. Admira o estilista francês Yves Saint
Laurent por seu rigor clássico, mas "nos dias em
que está alegre" prefere as roupas mais espalhafatosas
de Emilio Pucci ou Dolce & Gabbana. Riquíssimo
graças ao dinheiro da família, ele pode realmente
usar roupas desses estilistas, além de contar
com várias túnicas orientais em seu guarda-roupa.
Cosac não descarta a influência dos antepassados
árabes na hora de explicar seu gosto pelos tecidos
finos. Seu avô veio da Síria no começo
do século passado para trabalhar como mascate. Segundo
a mitologia familiar, ele teria chegado ao Brasil com três
moedas de ouro, que foram roubadas nos primeiros dias. Ele
então se embrenhou no Centro-Oeste e acabou enriquecendo
como minerador. Dando vazão ao que chama de "seu
lado mórbido", Cosac afirma que, anos atrás,
exumou o corpo do avô e fez um colar com os ossos
dos dedos. Ele diz ainda que preparou uma surpresa para
aqueles que, no futuro, venham a exumar seu corpo: mandou
incrustar em seus dentes dois diamantes, um rubi e uma esmeralda.
"Pelo menos, acharão algo brilhante em meio aos meus
restos mortais." Um desses trabalhos de incrustação
foi filmado pelo vídeo-artista Arthur Omar, que aproveitou
as imagens na instalação A Arte do Diamante.
Ainda que inconscientemente, Charles Cosac parece estar
seguindo outra das famosas máximas de Oscar Wilde:
"As pessoas deveriam tornar-se obras de arte, ou pelo menos
vestir-se com arte".
Para além do personagem, no entanto, é
importante não perder de vista a seriedade do trabalho
do editor. A Cosac & Naify é fruto de
uma sociedade entre Charles, sua irmã e seu cunhado,
Michael Naify, um americano cujos principais negócios
estão na área do cinema e da televisão
nos Estados Unidos. De Florença, onde mora, Naify
disse a VEJA que o investimento na editora ainda está
longe de ser lucrativo, mas que sua confiança no
empreendimento é plena. "A absoluta integridade e
a dedicação de Charles me deixam tranqüilo",
afirma ele. Uma das características da editora é
seu uso parcimonioso das leis de incentivo à cultura.
Nas oportunidades em que essa legislação foi
utilizada, como é o caso da coleção
Espaços da Arte Brasileira, organizada pelo
crítico Rodrigo Naves, todos os recursos serviram
para baratear o preço final do livro. Só assim
tornou-se possível lançar volumes de arte,
com textos críticos, excelente papel e impressão
em cores, ao preço de 33 reais –
menos do que muitos romances best-sellers de péssima
qualidade. "O dinheiro público é exclusivo
para o projeto a que foi destinado e não para reduzir
custos fixos da editora", afirma Cosac. Neste ano, as atividades
da editora devem se ampliar. A programação
inclui cerca de setenta títulos. Duas novas vertentes
devem ser abertas: uma de obras sobre cinema e teatro, outra
de livros infantis. Para dar forma à primeira, foi
convidado o crítico e ensaísta Ismail Xavier,
autor de alguns dos melhores estudos existentes sobre o
cinema brasileiro. Mas a menina dos olhos de Cosac é
mesmo a coleção infantil. Ele já tem
vários títulos engatilhados, mas ainda está
à procura daquele "livro inusitado" que possa inaugurar
a série em grande estilo. "A Xuxa destruiu algumas
gerações de crianças brasileiras",
diz Cosac. "Precisamos apagar esse estrago."
O melhor
da Cosac & Naify
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Abordando questões polêmicas
do modernismo, a coleção Arte
Moderna: Práticas e Debates
virou referência obrigatória em estudos
do período |
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A série Movimentos
da Arte Moderna serve ao leitor que
busca informações concentradas.
Destaque para o volume sobre minimalismo |
| Cada livro desta História
da Arte é assinado por um grande erudito.
Os textos sobre arquitetura italiana são
considerados "definitivos" |
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| A produção de
artistas nacionais de diversos períodos
históricos é analisada na coleção
Espaços da Arte Brasileira |
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