Edição 1 642 - 29/3/2000

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Papel cuchê

Refinado e excêntrico, o editor Charles Cosac
é uma figura ímpar no cenário cultural

Carlos Graieb

Paulo Pinto/AE
Charles Cosac: inveja de Maria Callas,
colar com dedos do avô morto e pedras
preciosas nos dentes

Oscar Wilde, um dos mais excêntricos, mordazes e escandalosos escritores de todos os tempos, costumava dizer que uma pessoa, para tornar-se interessante, deveria "ter sempre algo de improvável". Discípulo confesso do autor irlandês, o carioca Charles Cosac segue ao pé da letra essa filosofia. No cenário modorrento da cultura nacional, poucas pessoas poderiam ser mais "improváveis" do que ele, quer pelas atitudes, quer pelo projeto que desenvolve à frente da editora Cosac & Naify, estabelecida em São Paulo. Esse projeto é fácil de descrever: publicar os melhores livros de arte do mercado. É exatamente isso que a editora vem fazendo, seja traduzindo obras, seja lançando coleções devotadas aos artistas brasileiros do passado e do presente (veja quadro abaixo). Mesmo sem contabilizar lucros em seus quatro anos de atividade, ela continua firme no rumo programado. Bem mais difícil é traçar um perfil do próprio Charles Cosac, descendente de imigrantes sírios, católicos ortodoxos, que fizeram fortuna com a mineração. Aos 35 anos, ele é um celibatário que vai à igreja todas as manhãs, veste-se como um dândi, mandou incrustar quatro pedras preciosas em seus dentes e considera a cidade russa de São Petersburgo, "onde até as paredes choram", sua pátria espiritual.

Ao inaugurar sua editora, em 1996, Cosac pegou os concorrentes de surpresa. "Ninguém tinha ouvido falar dele", relembra Marcos Pereira, diretor da editora Sextante, que atua no mesmo filão. O motivo era simples: desde a adolescência, o misterioso Charles vivia no exterior. Seus pais o matricularam num exclusivíssimo internato inglês aos 14 anos. O colégio abrigava somente um punhado de alunos, quase todos filhos de sheiks árabes. Os estudos universitários foram feitos no mesmo país, mas Cosac também já morou nos Estados Unidos e na Rússia, onde fez uma tese acadêmica sobre o pintor suprematista Kazimir Malevitch. Apesar das freqüentes mudanças, o editor jamais despregou os olhos do cenário brasileiro de artes. No começo dos anos 90, ele ajudou a fundar um museu de arte latina em Essex, na Inglaterra. Muitas obras do acervo saíram de sua coleção particular. Hoje em dia, ele também faz doações regulares para o Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo. "É uma das poucas instituições do gênero, no país, que vêm realizando um trabalho decente", afirma.

Túnicas orientais No imenso apartamento para onde acaba de mudar-se, num bairro tradicional da capital paulista, Cosac reúne um grande número de pinturas, esculturas e objetos antigos. Há de tudo, desde imagens sacras do século passado até obras de artistas contemporâneos consagrados como o escultor Franz Weissman. Cosac não é o tipo de colecionador que joga apenas com cartas marcadas. Independente, ele torce o nariz para muitos queridinhos da crítica. É capaz, por exemplo, de fazer pouco de um dos mitos modernistas, o quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral. Um de seus artistas preferidos é o goiano Siron Franco, de quem ele possui várias telas de grandes dimensões, inclusive uma que acomodou no próprio quarto. Segundo Cosac, é escandaloso que os ricos brasileiros não invistam nos artistas locais. "Os únicos verdadeiros mecenas do país são os bicheiros cariocas, que uma vez por ano gastam milhões no Carnaval do Rio", diz. "A chamada elite usa seu dinheiro em carros e tintura para cabelo."

Além das artes visuais, Cosac adora óperas e moda. Ele considera o alemão Richard Wagner o maior dentre os compositores, mas diz que sua música às vezes o "atormenta". Assim, acaba preferindo ouvir óperas italianas do século XIX. "Se existe algo que invejo, é a voz de Maria Callas cantando Norma, de Bellini", diz. No campo da moda, ele faz distinções semelhantes. Admira o estilista francês Yves Saint Laurent por seu rigor clássico, mas "nos dias em que está alegre" prefere as roupas mais espalhafatosas de Emilio Pucci ou Dolce & Gabbana. Riquíssimo graças ao dinheiro da família, ele pode realmente usar roupas desses estilistas, além de contar com várias túnicas orientais em seu guarda-roupa. Cosac não descarta a influência dos antepassados árabes na hora de explicar seu gosto pelos tecidos finos. Seu avô veio da Síria no começo do século passado para trabalhar como mascate. Segundo a mitologia familiar, ele teria chegado ao Brasil com três moedas de ouro, que foram roubadas nos primeiros dias. Ele então se embrenhou no Centro-Oeste e acabou enriquecendo como minerador. Dando vazão ao que chama de "seu lado mórbido", Cosac afirma que, anos atrás, exumou o corpo do avô e fez um colar com os ossos dos dedos. Ele diz ainda que preparou uma surpresa para aqueles que, no futuro, venham a exumar seu corpo: mandou incrustar em seus dentes dois diamantes, um rubi e uma esmeralda. "Pelo menos, acharão algo brilhante em meio aos meus restos mortais." Um desses trabalhos de incrustação foi filmado pelo vídeo-artista Arthur Omar, que aproveitou as imagens na instalação A Arte do Diamante. Ainda que inconscientemente, Charles Cosac parece estar seguindo outra das famosas máximas de Oscar Wilde: "As pessoas deveriam tornar-se obras de arte, ou pelo menos vestir-se com arte".

Para além do personagem, no entanto, é importante não perder de vista a seriedade do trabalho do editor. A Cosac & Naify é fruto de uma sociedade entre Charles, sua irmã e seu cunhado, Michael Naify, um americano cujos principais negócios estão na área do cinema e da televisão nos Estados Unidos. De Florença, onde mora, Naify disse a VEJA que o investimento na editora ainda está longe de ser lucrativo, mas que sua confiança no empreendimento é plena. "A absoluta integridade e a dedicação de Charles me deixam tranqüilo", afirma ele. Uma das características da editora é seu uso parcimonioso das leis de incentivo à cultura. Nas oportunidades em que essa legislação foi utilizada, como é o caso da coleção Espaços da Arte Brasileira, organizada pelo crítico Rodrigo Naves, todos os recursos serviram para baratear o preço final do livro. Só assim tornou-se possível lançar volumes de arte, com textos críticos, excelente papel e impressão em cores, ao preço de 33 reais menos do que muitos romances best-sellers de péssima qualidade. "O dinheiro público é exclusivo para o projeto a que foi destinado e não para reduzir custos fixos da editora", afirma Cosac. Neste ano, as atividades da editora devem se ampliar. A programação inclui cerca de setenta títulos. Duas novas vertentes devem ser abertas: uma de obras sobre cinema e teatro, outra de livros infantis. Para dar forma à primeira, foi convidado o crítico e ensaísta Ismail Xavier, autor de alguns dos melhores estudos existentes sobre o cinema brasileiro. Mas a menina dos olhos de Cosac é mesmo a coleção infantil. Ele já tem vários títulos engatilhados, mas ainda está à procura daquele "livro inusitado" que possa inaugurar a série em grande estilo. "A Xuxa destruiu algumas gerações de crianças brasileiras", diz Cosac. "Precisamos apagar esse estrago."

 

O melhor da Cosac & Naify

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