Edição 1 642 - 29/3/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Franceses reconstroem castelo medieval
Começam as eliminatórias para a Copa de 2002
Boeing e Airbus disputam mercado de jatos executivos
Ilha do Mel, um paraíso no litoral paranaense
Os novos suplementos nutricionais
Vida melhora nos municípios que viviam das estatais
Os robôs que viram bichos de estimação
Os cinqüenta anos da lista dos mais procurados do FBI
Cores fortes tentam desbancar o preto no inverno
As falhas no combate às doenças hereditárias
Naves procuram os limites do sistema solar
Motorola vai destruir satélites do Iridium
Compra de ações é a nova estratégia do Greenpeace
Aquecimento altera geografia e fauna da Antártica
Metade das cidades brasileiras depende do INSS
Paulo Zulu, o gatão de meia-idade
As extravagâncias dos hotéis seis-estrelas
A geopolítica da nova economia
Micos-leões-dourados lotam reservas ambientais
A recuperação das faculdades reprovadas no Provão
As páginas das celebridades mortas
BMW lança lambreta com capota
Melhora a vida dos portadores de síndrome de Down
O drama de quem espera pelo transplante de fígado
O papa na Terra Santa
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Lista de mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Novas fronteiras

Israel, Irlanda, Índia e Finlândia acham o próprio caminho no mundo tecnológico

Manoel Fernandes

 
Ilustração Michel Leconte

O presidente Bill Clinton fez na semana passada a primeira visita da era digital de um líder americano à Índia. O último dirigente do seu país a aterrissar em solo indiano foi Jimmy Carter, que em 1978 tinha outras preocupações. Clinton elogiou o povo, os principais líderes, mas deixou claro seu recado. Em uma breve declaração, ele falou que estava empenhado em expandir as relações comerciais entre os países, especialmente no emergente mercado de alta tecnologia. Não poderia ser mais direto. A Índia forma com a Finlândia, Israel e Irlanda um grupo surpreendente de nações em condições de competir em certas áreas com o poderio tecnológico americano. Criadores da internet, donos da maioria das patentes registradas no mundo e controladores de um arsenal assombroso de conhecimento digital, os americanos assistem à ascensão desses concorrentes na nova ordem econômica mundial.

Os quatro países estão conseguindo atrair atenção e investimentos para áreas específicas da tecnologia. Na Índia, a exportação de produtos ligados ao setor é de 4 bilhões de dólares por ano e em oito anos chegará a 50 bilhões de dólares. A Irlanda tornou-se o segundo maior pólo exportador de programas de computador do mundo. Perde apenas para os Estados Unidos. Em Israel, no ano passado, as companhias de tecnologia receberam 1 bilhão de dólares de investimento de risco para novos projetos. Na Finlândia, onde 65% dos habitantes utilizam celulares, a Nokia está à frente da revolução da comunicação sem fio, o mundo wireless. Sozinha, a empresa tem 30% do mercado mundial de telefonia celular, contra 20% da americana Motorola.

Divulgação

Mesmo envolvido no conflito histórico com os árabes, Israel está apostando nas empresas de programas para computador e em pólos como o Parque Industrial de Tefen, na Galiléia

Essa nova distribuição do mapa tecnológico ocorre porque no mundo da comunicação instantânea não importa mais o lugar onde é gerada a informação ou o produto. Isso pode acontecer em uma pequena cidade americana ou nos grotões da Índia. O que mais beneficia essa expansão é o custo da mão-de-obra e sua abundância. Nos Estados Unidos, um engenheiro de software pode ganhar por ano 120.000 dólares contra 40.000 na Índia. Anualmente, as escolas indianas formam mais de 240.000 profissionais ligados ao mundo virtual. Essa revolução se concentra em duas cidades, Bangalore e Mumbai. Na Irlanda, a indústria tecnológica emprega 15.000 pessoas em 550 empresas. A agressiva política de atração de investimentos e a boa qualidade da mão-de-obra local são fatores determinantes para a chegada do dinheiro tecnológico. Na Finlândia, as vendas da Nokia representam 20% de todas as exportações do país. Os finlandeses costumam brincar afirmando que o país é um time e a Nokia o técnico. O caso de Israel é mais interessante. Envolvido em uma guerra histórica com árabes e palestinos, o país consegue manter um alto padrão de desenvolvimento dessa indústria que lidera a área de programas de segurança para a internet. Era israelense a empresa criadora do programa para conversas em tempo real, ICQ, vendido por 400 milhões de dólares à America Online.

Por que o Brasil não faz parte desse grupo seleto? A culpa é dos burocratas, que fizeram todas as apostas erradas no passado recente. Quando as fibras ópticas começavam a se firmar como o meio por excelência de transporte de dados e telefonia nos anos 80, o Brasil se apressou em proteger suas reservas de quartzo – então a matéria-prima das fibras. Em pouco tempo, o quartzo não valia mais nada, pois as fibras passaram a ser feitas de polímeros sintéticos. Em outra aposta patética, criou-se no Brasil na mesma época a reserva de mercado de informática, que proibia a importação de PCs. A estupidez resultou no enriquecimento de uns poucos empresários locais e num tremendo incentivo ao contrabando – além, é claro, da privação de uma geração inteira de jovens dos benefícios da era digital. Enquanto os países que hoje disputam mercados de alta tecnologia com os Estados Unidos apostavam no software – ou seja, no cérebro –, o Brasil se perdia em políticas de compadrio fabricando PCs que já saíam obsoletos da fábrica e guardando cristal de quartzo debaixo do travesseiro.