Novas fronteiras
Israel, Irlanda, Índia
e Finlândia acham o próprio caminho no mundo
tecnológico
Manoel Fernandes
Ilustração
Michel Leconte
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O presidente Bill Clinton
fez na semana passada a primeira visita da era digital de
um líder americano à Índia. O último
dirigente do seu país a aterrissar em solo indiano
foi Jimmy Carter, que em 1978 tinha outras preocupações.
Clinton elogiou o povo, os principais líderes, mas
deixou claro seu recado. Em uma breve declaração,
ele falou que estava empenhado em expandir as relações
comerciais entre os países, especialmente no emergente
mercado de alta tecnologia. Não poderia ser mais
direto. A Índia forma com a Finlândia, Israel
e Irlanda um grupo surpreendente de nações
em condições de competir em certas áreas
com o poderio tecnológico americano. Criadores da
internet, donos da maioria das patentes registradas no mundo
e controladores de um arsenal assombroso de conhecimento
digital, os americanos assistem à ascensão
desses concorrentes na nova ordem econômica mundial.
Os
quatro países estão conseguindo atrair atenção
e investimentos para áreas específicas da
tecnologia. Na Índia, a exportação
de produtos ligados ao setor é de 4 bilhões
de dólares por ano e em oito anos chegará
a 50 bilhões de dólares. A Irlanda tornou-se
o segundo maior pólo exportador de programas de computador
do mundo. Perde apenas para os Estados Unidos. Em Israel,
no ano passado, as companhias de tecnologia receberam 1
bilhão de dólares de investimento de risco
para novos projetos. Na Finlândia, onde 65% dos habitantes
utilizam celulares, a Nokia está à frente
da revolução da comunicação
sem fio, o mundo wireless. Sozinha, a empresa tem 30% do
mercado mundial de telefonia celular, contra 20% da americana
Motorola.
Divulgação
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Mesmo envolvido
no conflito histórico com os árabes,
Israel está
apostando nas empresas de programas para computador
e em pólos como
o Parque Industrial de Tefen, na Galiléia
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Essa nova distribuição
do mapa tecnológico ocorre porque no mundo da comunicação
instantânea não importa mais o lugar onde é
gerada a informação ou o produto. Isso pode
acontecer em uma pequena cidade americana ou nos grotões
da Índia. O que mais beneficia essa expansão
é o custo da mão-de-obra e sua abundância.
Nos Estados Unidos, um engenheiro de software pode ganhar
por ano 120.000 dólares contra 40.000 na Índia.
Anualmente, as escolas indianas formam mais de 240.000 profissionais
ligados ao mundo virtual. Essa revolução se
concentra em duas cidades, Bangalore e Mumbai. Na Irlanda,
a indústria tecnológica emprega 15.000 pessoas
em 550 empresas. A agressiva política de atração
de investimentos e a boa qualidade da mão-de-obra
local são fatores determinantes para a chegada do
dinheiro tecnológico. Na Finlândia, as vendas
da Nokia representam 20% de todas as exportações
do país. Os finlandeses costumam brincar afirmando
que o país é um time e a Nokia o técnico.
O caso de Israel é mais interessante. Envolvido em
uma guerra histórica com árabes e palestinos,
o país consegue manter um alto padrão de desenvolvimento
dessa indústria que lidera a área de programas
de segurança para a internet. Era israelense a empresa
criadora do programa para conversas em tempo real, ICQ,
vendido por 400 milhões de dólares à
America Online.
Por que o Brasil não faz
parte desse grupo seleto? A culpa é dos burocratas,
que fizeram todas as apostas erradas no passado recente.
Quando as fibras ópticas começavam a se firmar
como o meio por excelência de transporte de dados
e telefonia nos anos 80, o Brasil se apressou em proteger
suas reservas de quartzo então a matéria-prima
das fibras. Em pouco tempo, o quartzo não valia mais
nada, pois as fibras passaram a ser feitas de polímeros
sintéticos. Em outra aposta patética, criou-se
no Brasil na mesma época a reserva de mercado de
informática, que proibia a importação
de PCs. A estupidez resultou no enriquecimento de uns poucos
empresários locais e num tremendo incentivo ao contrabando
além, é claro, da privação
de uma geração inteira de jovens dos benefícios
da era digital. Enquanto os países que hoje disputam
mercados de alta tecnologia com os Estados Unidos apostavam
no software ou seja, no cérebro , o
Brasil se perdia em políticas de compadrio fabricando
PCs que já saíam obsoletos da fábrica
e guardando cristal de quartzo debaixo do travesseiro.