Velha economia
Pesquisa mostra que metade das cidades
brasileiras depende do dinheiro do INSS
Carol do Valle
 |
|
Aposentados em cidade do interior:
fama de bons pagadores garante vantagens no comércio
|
Os aposentados costumam aparecer no noticiário de
forma muito negativa sempre que um eventual reajuste nos
proventos pode aumentar o rombo no caixa da Previdência
Social. É como se eles fossem os vilões das
finanças nacionais. Um estudo mostra que, em diversas
regiões do país, os aposentados são
exatamente o oposto: a tábua de salvação
de pequenas cidades. O levantamento foi feito pela Associação
Nacional dos Fiscais de Contribuições Previdenciárias,
Anfip, e aponta que em metade dos 5.507
municípios brasileiros a economia é impulsionada
basicamente pelos benefícios do Instituto Nacional
do Seguro Social, INSS. O fenômeno fica mais evidente
nas cidades com até 30.000
habitantes, principalmente nas regiões Norte e Nordeste.
Em geral, são localidades sem produção
agrícola ou industrial e cujas prefeituras sobrevivem
à custa de recursos repassados pelos governos estadual
e federal. "Praticamente sem renda própria, muitas
cidades só continuam no mapa por causa do dinheirinho
dos aposentados", afirma Álvaro Sólon de França,
coordenador do estudo.
Nos
cerca de 2.500 municípios
que formam esse cinturão vivem aproximadamente 35
milhões de pessoas, o equivalente à população
da Argentina. Em algumas cidades, os benefícios pagos
pelo INSS são, literalmente, a salvação
da lavoura. Afogados da Ingazeira, no agreste pernambucano,
está há três anos sem safra agrícola
por causa da seca. Na falta da renda da agricultura, são
os reais dos velhinhos que irrigam a economia local. Anualmente,
as aposentadorias pagas no município somam mais de
9 milhões de reais, o triplo da arrecadação
total da prefeitura. Lá, o comércio só
funciona para valer na primeira quinzena do mês, quando
os pagamentos são feitos. "Quem tem o cartão
magnético do INSS aqui é tratado como rei
pelos comerciantes", diz Lucivaldo Leite, secretário
de Finanças do município. Em Monteiro, na
Paraíba, os comerciantes têm de disputar os
aposentados com os vendedores ambulantes que se aglomeram
em frente da agência do Banco do Brasil, onde são
sacados os benefícios do INSS. Em Porangaba, a 165
quilômetros de São Paulo, um terço da
população de 6.000
habitantes é formada por aposentados. Por isso, eles
são considerados clientes preferenciais no comércio.
A fama de bons pagadores e a renda certa fazem com que os
lojistas lhes dispensem mimos.
Se o rendimento dos aposentados é positivo para
boa parte dos municípios, não seria adequado
aumentar ainda mais seus proventos? Esse reforço
não seria um impulso a mais para o desenvolvimento
dessas cidades? Talvez fosse, mas entra aí outro
dado significativo do estudo da Anfip. Em apenas 8% das
cidades brasileiras, o INSS arrecada mais do que paga. Leia-se
ao contrário: em 92% dos municípios, o governo
recolhe a título de contribuição para
a Previdência uma quantia inferior à que gasta
pagando pensões. Do jeito que o sistema está
montado hoje, é preciso remanejar recursos que poderiam
ser usados em saúde e educação para
cobrir a diferença. Calcula-se que o rombo na Previdência
seja da ordem de 46 bilhões de reais por ano. E essa
verba sai sempre do mesmo lugar: do bolso do contribuinte.