Edição 1 642 - 29/3/2000

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Na fronteira final

Saiba mais
Sobre as sondas espaciais (animação em Shockwave Flash)

Conserto a distância
coloca mais uma nave na
investigação dos limites
do sistema solar

Alexandre Mansur

Os técnicos da Nasa estão comemorando um feito notável. Conseguiram concluir com êxito uma complexa operação para melhorar a recepção dos sinais enviados pela Pioneer 10, nave lançada há 28 anos e atualmente a mais de 11 bilhões de quilômetros da Terra. Com o ajuste, espera-se contar com seus transmissores por mais dois anos. Essa sobrevida é importante porque pode contribuir para um acontecimento ansiosamente aguardado pelos cientistas: a Pioneer 10 é uma das quatro sondas espaciais que nos próximos anos devem deixar o sistema solar. Manter a comunicação com as naves é essencial para que os cientistas possam finalmente traçar a fronteira de nosso sistema. Pouco se sabe sobre a região onde a influência solar é suplantada pela radiação que chega dos confins do espaço interestelar. Mesmo sua localização é estimativa, entre 16 bilhões e 24 bilhões de quilômetros. Mais velozes e modernas, mantendo comunicação com a base, as sondas Voyager 1 e 2 também seguem em direção a esse ponto turbulento do espaço. Uma quarta nave, a Pioneer 11, vai pelo mesmo caminho, mas é incapaz de transmitir sinais para a Terra.

O destino dessas sondas é uma jornada de ficção científica. Vão vagar indefinidamente pelos confins da galáxia, levando uma mensagem da humanidade para um destinatário desconhecido. "Elas se transformarão numa espécie de testamento da humanidade, durando muito mais tempo do que a existência de nossa civilização", diz Lawrence Lasher, diretor do programa Pioneer em Mountain View, na Califórnia. Tecnicamente, as sondas interestelares da Nasa só têm uma limitação, as baterias. Quando o gerador movido a energia atômica se esgotar, as naves perderão a capacidade de se comunicar com a Terra. Foi o que ocorreu com a Pioneer 11, hoje vagando muda pelo espaço. De resto, as quatro não têm prazo de validade. Vão continuar voando num vácuo livre de obstáculos por milhões de anos. A possibilidade de choques com asteróides ou outros corpos celestes é praticamente inexistente além dos limites do sistema solar. A maior ameaça é a explosão inesperada de alguma estrela. A expectativa dos cientistas americanos é de que as naves ainda existam quando o Sol inchar sob a forma de uma estrela vermelha gigante e incinerar os planetas que giram em sua órbita, daqui a cinco bilhões de anos. Até lá as sondas deverão ter passado por dezenas de estrelas viajando a uma velocidade entre 40.000 e 60.000 quilômetros por hora.

Os pesquisadores consideram as sondas uma espécie de embaixadoras da Terra no cosmos e antes do lançamento trataram de colocar em cada uma delas sinais da civilização que as construiu. A Pioneer 10 leva uma placa folhada a ouro com desenhos feitos pelos astrônomos Frank Drake e Carl Sagan. Lá estão gravados um esquema simplificado da nave, um mapa do sistema solar, a trajetória percorrida desde a saída da Terra e ainda as figuras de um homem e uma mulher. As sondas Voyager carregam discos de cobre com gravações de imagens e sons da Terra, incluindo saudações em 55 idiomas. Os discos estão acondicionados em compartimentos de alumínio, acompanhados por uma cápsula e uma agulha próprias para tocá-los, caso sejam encontrados por extraterrestres.

As sondas interestelares Pioneer e Voyager pertencem a duas gerações bem distintas de artefatos espaciais construídos para explorar os planetas mais distantes do sistema solar. As Pioneer, projetadas na década de 60, são os últimos exemplares de uma série de oito naves que começou explorando os limites da atmosfera terrestre. O modelo 10 foi o primeiro a passar por Júpiter e a cruzar o cinturão de asteróides de Kuiper, localizado além da órbita do último planeta do sistema solar, Plutão. Curiosamente, o projeto inicial era uma missão científica de apenas dois anos. Hoje, os sinais da nave velhusca levam dez horas para chegar à Terra. Mesmo fraco, é um assombro perto do desempenho dos modelos anteriores. A Pioneer 11 teve vida útil bem mais curta. Os últimos sinais foram enviados para a Terra em 1995. Ainda assim, foi uma carreira e tanto. Lançada em 1973, a nave passeou pelos arredores de Júpiter, Urano e Saturno. Os técnicos da Nasa estimam que esteja hoje a uma distância de 8 bilhões de quilômetros do Sol, voando em direção à Constelação de Águia. "Nunca imaginamos que essa nave iria durar tanto", disse Lasher.

As duas Voyager, de tecnologia mais recente, devem continuar operando até 2020, o suficiente para enviar dados da primeira etapa de seu vôo interestelar. A Voyager 1, lançada em setembro de 1977, é hoje a mais rápida das quatro sondas, viajando a uma velocidade de 60 000 quilômetros por hora. Desde 1998, quando ultrapassou a Pioneer 10, ela detém a glória de ser o objeto fabricado pelo homem que está mais distante do Sol. No ritmo atual, deve ser também a primeira nave a ingressar no espaço interestelar. Depois de explorar Júpiter, Urano e Saturno e cruzar a órbita de Plutão, coube-lhe fazer uma das mais belas fotos já tiradas do sistema solar, em 1990. Na imagem, um perfeito retrato de família, vê-se o Sol ao fundo com seis planetas alinhados: Vênus, Terra, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Foi seu último olhar para o sistema solar. Os técnicos desligaram a máquina fotográfica pouco depois.