Na fronteira final
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Conserto a distância
coloca mais uma nave na
investigação dos limites
do sistema solar
Alexandre Mansur
Os técnicos da Nasa estão comemorando um
feito notável. Conseguiram concluir com êxito
uma complexa operação para melhorar a recepção
dos sinais enviados pela Pioneer 10, nave lançada
há 28 anos e atualmente a mais de 11 bilhões
de quilômetros da Terra. Com o ajuste, espera-se contar
com seus transmissores por mais dois anos. Essa sobrevida
é importante porque pode contribuir para um acontecimento
ansiosamente aguardado pelos cientistas: a Pioneer 10 é
uma das quatro sondas espaciais que nos próximos
anos devem deixar o sistema solar. Manter a comunicação
com as naves é essencial para que os cientistas possam
finalmente traçar a fronteira de nosso sistema. Pouco
se sabe sobre a região onde a influência solar
é suplantada pela radiação que chega
dos confins do espaço interestelar. Mesmo sua localização
é estimativa, entre 16 bilhões e 24 bilhões
de quilômetros. Mais velozes e modernas, mantendo
comunicação com a base, as sondas Voyager
1 e 2 também seguem em direção a esse
ponto turbulento do espaço. Uma quarta nave, a Pioneer
11, vai pelo mesmo caminho, mas é incapaz de transmitir
sinais para a Terra.
O destino dessas sondas é uma jornada de ficção
científica. Vão vagar indefinidamente pelos
confins da galáxia, levando uma mensagem da humanidade
para um destinatário desconhecido. "Elas se transformarão
numa espécie de testamento da humanidade, durando
muito mais tempo do que a existência de nossa civilização",
diz Lawrence Lasher, diretor do programa Pioneer em Mountain
View, na Califórnia. Tecnicamente, as sondas interestelares
da Nasa só têm uma limitação,
as baterias. Quando o gerador movido a energia atômica
se esgotar, as naves perderão a capacidade de se
comunicar com a Terra. Foi o que ocorreu com a Pioneer 11,
hoje vagando muda pelo espaço. De resto, as quatro
não têm prazo de validade. Vão continuar
voando num vácuo livre de obstáculos por milhões
de anos. A possibilidade de choques com asteróides
ou outros corpos celestes é praticamente inexistente
além dos limites do sistema solar. A maior ameaça
é a explosão inesperada de alguma estrela.
A expectativa dos cientistas americanos é de que
as naves ainda existam quando o Sol inchar sob a forma de
uma estrela vermelha gigante e incinerar os planetas que
giram em sua órbita, daqui a cinco bilhões
de anos. Até lá as sondas deverão ter
passado por dezenas de estrelas viajando a uma velocidade
entre 40.000 e 60.000
quilômetros por hora.
Os pesquisadores consideram as sondas uma espécie
de embaixadoras da Terra no cosmos e antes do lançamento
trataram de colocar em cada uma delas sinais da civilização
que as construiu. A Pioneer 10 leva uma placa folhada a
ouro com desenhos feitos pelos astrônomos Frank Drake
e Carl Sagan. Lá estão gravados um esquema
simplificado da nave, um mapa do sistema solar, a trajetória
percorrida desde a saída da Terra e ainda as figuras
de um homem e uma mulher. As sondas Voyager carregam discos
de cobre com gravações de imagens e sons da
Terra, incluindo saudações em 55 idiomas.
Os discos estão acondicionados em compartimentos
de alumínio, acompanhados por uma cápsula
e uma agulha próprias para tocá-los, caso
sejam encontrados por extraterrestres.
As sondas interestelares Pioneer e Voyager pertencem a
duas gerações bem distintas de artefatos espaciais
construídos para explorar os planetas mais distantes
do sistema solar. As Pioneer, projetadas na década
de 60, são os últimos exemplares de uma série
de oito naves que começou explorando os limites da
atmosfera terrestre. O modelo 10 foi o primeiro a passar
por Júpiter e a cruzar o cinturão de asteróides
de Kuiper, localizado além da órbita do último
planeta do sistema solar, Plutão. Curiosamente, o
projeto inicial era uma missão científica
de apenas dois anos. Hoje, os sinais da nave velhusca levam
dez horas para chegar à Terra. Mesmo fraco, é
um assombro perto do desempenho dos modelos anteriores.
A Pioneer 11 teve vida útil bem mais curta. Os últimos
sinais foram enviados para a Terra em 1995. Ainda assim,
foi uma carreira e tanto. Lançada em 1973, a nave
passeou pelos arredores de Júpiter, Urano e Saturno.
Os técnicos da Nasa estimam que esteja hoje a uma
distância de 8 bilhões de quilômetros
do Sol, voando em direção à Constelação
de Águia. "Nunca imaginamos que essa nave iria durar
tanto", disse Lasher.
As duas Voyager, de tecnologia mais recente, devem continuar
operando até 2020, o suficiente para enviar dados
da primeira etapa de seu vôo interestelar. A Voyager
1, lançada em setembro de 1977, é hoje a mais
rápida das quatro sondas, viajando a uma velocidade
de 60 000 quilômetros por hora. Desde 1998, quando
ultrapassou a Pioneer 10, ela detém a glória
de ser o objeto fabricado pelo homem que está mais
distante do Sol. No ritmo atual, deve ser também
a primeira nave a ingressar no espaço interestelar.
Depois de explorar Júpiter, Urano e Saturno e cruzar
a órbita de Plutão, coube-lhe fazer uma das
mais belas fotos já tiradas do sistema solar, em
1990. Na imagem, um perfeito retrato de família,
vê-se o Sol ao fundo com seis planetas alinhados:
Vênus, Terra, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno.
Foi seu último olhar para o sistema solar. Os técnicos
desligaram a máquina fotográfica pouco depois.