África
Inferno na igreja
Centenas de fiéis morrem carbonizados
na sede
de uma seita que esperava o fim do mundo
Reuters
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| O templo depois da tragédia:
corpos irreconhecíveis |
As seitas apocalípticas são uma praga que
espalha drama e tragédia por onde passa. Elas seduzem
gente nas mais diferentes regiões do planeta, independentemente
de cultura, ideologia ou condição sócio-econômica.
Países tão contrastantes como Suíça
e Guiana ou Estados Unidos e Vietnã já viveram
a trágica experiência de ver fiéis ser
levados ao suicídio coletivo por igrejas que pregavam
a iminência do fim do mundo. Agora foi a vez de Uganda,
uma das mais pobres nações do continente africano,
ter seu dia de horror. Na sexta-feira 17, depois de rezar
e dançar por duas horas seguidas num templo localizado
em Kanungu, uma aldeia a 360 quilômetros da capital,
Kampala, os seguidores do Movimento pela Restauração
dos Dez Mandamentos morreram dentro do prédio incendiado.
Só dois ou três cadáveres puderam ser
identificados. Os restantes transformaram-se numa massa
irreconhecível de destroços carbonizados.
Contados ao menos 330 corpos, as estimativas indicavam que
o número poderia chegar a 600 mortos. A primeira
hipótese para explicar a tragédia apontava
para um suicídio coletivo. Mas as investigações
realizadas durante a semana não descartam a possibilidade
de os fiéis terem sido vítimas de um plano
macabro.
Dias
depois da tragédia, a polícia descobriu a
existência de duas covas num terreno que pertence
ao Movimento pela Restauração dos Dez Mandamentos.
O cemitério clandestino fica a 50 quilômetros
do templo da igreja. Da primeira sepultura foram retirados
vinte cadáveres. Na segunda, onde o trabalho de exumação
ainda prossegue, estima-se que possa haver mais de 140 mortos.
A maioria dos cadáveres estava enterrada havia um
ano, com marcas de enforcamento e cortes pelo corpo. Se
for confirmada a relação entre as duas mortandades,
a descoberta reforça a hipótese de assassinato
em massa. As investigações detectaram que
seis bombas explodiram dentro do templo, que estava com
as portas e janelas lacradas. Dias antes da tragédia,
os fanáticos foram estimulados pelos líderes
da seita a se desfazer de todos os bens, pois iriam encontrar-se
com a Virgem Maria na igreja. Esse dinheiro ainda não
foi encontrado, assim como os corpos de Credonia Mwerinde
e Joseph Kibweteere, que fundaram a seita em 1989. Um padre
católico excomungado, Kibweteere, também conhecido
como o "profeta", garantia a seus discípulos ter
visto a Virgem Maria. Nas previsões, comportava-se
como uma Mãe Dinah. Chegou a anunciar o fim do mundo
para o dia 31 de dezembro do ano passado. Depois, prorrogou
a data do apocalipse para o último dia de 2000. Uma
testemunha diz tê-lo visto fugindo com bagagem de
mão.
Uganda é um caso de calamidade universal, com altíssimas
taxas de pobreza e Aids na população. Entre
1971 e 1979 foi governada pelo sanguinário ditador
Idi Amin Dada, responsabilizado pelo assassinato de 500.000
pessoas. O Movimento pela Restauração dos
Dez Mandamentos era uma das dezenas de seitas que proliferaram
na região nos últimos anos. A principal delas
chama-se Resistência Armada do Senhor. Suspeita de
crimes como abuso de crianças e assassinatos, a seita
tenta tomar o poder para instituir um regime baseado nos
dez mandamentos bíblicos. Ao mesmo tempo que procura
desvendar o mistério do incêndio do templo
em Kanungu, o governo local acordou para o problema e promete
varrer do país a praga do fanatismo religioso.