Edição 1 642 - 29/3/2000

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África

Inferno na igreja

Centenas de fiéis morrem carbonizados na sede
de uma seita que esperava o fim do mundo

 

Reuters
O templo depois da tragédia: corpos irreconhecíveis

 

As seitas apocalípticas são uma praga que espalha drama e tragédia por onde passa. Elas seduzem gente nas mais diferentes regiões do planeta, independentemente de cultura, ideologia ou condição sócio-econômica. Países tão contrastantes como Suíça e Guiana ou Estados Unidos e Vietnã já viveram a trágica experiência de ver fiéis ser levados ao suicídio coletivo por igrejas que pregavam a iminência do fim do mundo. Agora foi a vez de Uganda, uma das mais pobres nações do continente africano, ter seu dia de horror. Na sexta-feira 17, depois de rezar e dançar por duas horas seguidas num templo localizado em Kanungu, uma aldeia a 360 quilômetros da capital, Kampala, os seguidores do Movimento pela Restauração dos Dez Mandamentos morreram dentro do prédio incendiado. Só dois ou três cadáveres puderam ser identificados. Os restantes transformaram-se numa massa irreconhecível de destroços carbonizados. Contados ao menos 330 corpos, as estimativas indicavam que o número poderia chegar a 600 mortos. A primeira hipótese para explicar a tragédia apontava para um suicídio coletivo. Mas as investigações realizadas durante a semana não descartam a possibilidade de os fiéis terem sido vítimas de um plano macabro.

Dias depois da tragédia, a polícia descobriu a existência de duas covas num terreno que pertence ao Movimento pela Restauração dos Dez Mandamentos. O cemitério clandestino fica a 50 quilômetros do templo da igreja. Da primeira sepultura foram retirados vinte cadáveres. Na segunda, onde o trabalho de exumação ainda prossegue, estima-se que possa haver mais de 140 mortos. A maioria dos cadáveres estava enterrada havia um ano, com marcas de enforcamento e cortes pelo corpo. Se for confirmada a relação entre as duas mortandades, a descoberta reforça a hipótese de assassinato em massa. As investigações detectaram que seis bombas explodiram dentro do templo, que estava com as portas e janelas lacradas. Dias antes da tragédia, os fanáticos foram estimulados pelos líderes da seita a se desfazer de todos os bens, pois iriam encontrar-se com a Virgem Maria na igreja. Esse dinheiro ainda não foi encontrado, assim como os corpos de Credonia Mwerinde e Joseph Kibweteere, que fundaram a seita em 1989. Um padre católico excomungado, Kibweteere, também conhecido como o "profeta", garantia a seus discípulos ter visto a Virgem Maria. Nas previsões, comportava-se como uma Mãe Dinah. Chegou a anunciar o fim do mundo para o dia 31 de dezembro do ano passado. Depois, prorrogou a data do apocalipse para o último dia de 2000. Uma testemunha diz tê-lo visto fugindo com bagagem de mão.

Uganda é um caso de calamidade universal, com altíssimas taxas de pobreza e Aids na população. Entre 1971 e 1979 foi governada pelo sanguinário ditador Idi Amin Dada, responsabilizado pelo assassinato de 500.000 pessoas. O Movimento pela Restauração dos Dez Mandamentos era uma das dezenas de seitas que proliferaram na região nos últimos anos. A principal delas chama-se Resistência Armada do Senhor. Suspeita de crimes como abuso de crianças e assassinatos, a seita tenta tomar o poder para instituir um regime baseado nos dez mandamentos bíblicos. Ao mesmo tempo que procura desvendar o mistério do incêndio do templo em Kanungu, o governo local acordou para o problema e promete varrer do país a praga do fanatismo religioso.