Edição 1 642 - 29/3/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Vladimir Putin, o novo czar
Suicídio coletivo em Uganda
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Lista de mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

 

A Rússia elege seu novo czar

Com promessas de restaurar a lei e a ordem, um
ex-espião da KGB é o todo-poderoso do Kremlin

 
AP
AFP
AFP
No estilo espalhafatoso de Fernando Collor, Putin fez campanha posando de super-herói: exibiu-se no comando de um avião militar supersônico, apareceu para dar a saída em um jogo de hóquei e foi visto na direção de um caminhão superpesado

A Rússia teve um czar, Ivan, cujo apelido era O Terrível, e disso se orgulhava. No século XX, Stalin, que era um czar em todos os sentidos exceto no título, passou à história como um sangrento tirano. Entre um e outro e mesmo antes e depois , o povo russo sofreu na mão dos autocratas e de experiências totalitárias. Por que os russos iriam agora, na virada do milênio, eleger presidente um homem sem credenciais como democrata? Às vésperas das eleições presidenciais, marcadas para o domingo 26, a única questão em aberto era o tamanho da vitória do candidato saído das fileiras da KGB e do qual, até o ano passado, pouca gente tinha ouvido falar. A maior ameaça à eleição de Vladimir Putin era a apatia do eleitorado, que poderia atrapalhar seu plano de resolver o assunto no primeiro turno. O novo presidente russo, na verdade, foi escolhido sete meses antes por Boris Ieltsin, que governava desde o fim do comunismo, em 1991. Cansado, doente e sitiado por acusações de corrupção, o velho urso pinçou Putin nos gabinetes do Kremlin, renunciou e lhe deixou o país de herança. E que país. A economia vai ladeira abaixo, há uma guerra selvagem numa província rebelde, a corrupção corrói o aparelho de Estado, as extravagâncias dos novos-ricos são um escândalo num lugar onde aposentados catam restos de comida no lixo e a expectativa de vida da população está em queda.

Boris Ieltsin indicou Putin como sucessor? Para muitos russos é motivo mais que suficiente para referendar a decisão do único mandachuva que conheceram depois do comunismo. Não é só isso. Numa situação em que tudo parece estar fora do lugar, entregar o poder a um oficial recém-saído das sombras da espionagem pode parecer a coisa certa. Nove anos depois do colapso da União Soviética, Putin expressa o desejo de uma mão forte que restaure a ordem e recoloque o país num lugar de respeito entre as nações. De fato, seu prestígio se deve muito menos ao que fez como primeiro-ministro e, depois, como presidente em exercício, do que à promessa que os russos vêem em sua carreira como espião. A rigor, no aperitivo de governo que serviu aos eleitores nos últimos sete meses, não disse a que veio. Não produziu nenhuma plataforma eleitoral e evitou debater com outros candidatos. Além de ações espalhafatosas de promoção pessoal, sua grande obra, e a razão de seu sucesso eleitoral, foi a implacável ofensiva bélica contra os separatistas da Chechênia.

Em campanha, é outra história. Ele fez piruetas ao estilo Fernando Collor, como viajar à região conflagrada do Cáucaso no banco de trás de um caça supersônico SU-27. Questionado sobre as intenções eleitoreiras do vôo supersônico, explicou que era "o meio mais barato, mais rápido e mais seguro de viajar". Com 47 anos, esbelto, olhos verdes e uma careca que ameaça os últimos fios de cabelo, Putin se exibiu ao praticar judô e dirigir um caminhão. Um dia ele está em uma quadra de esportes dando a saída numa partida de hóquei. No outro, ao lado de um patriarca da Igreja Ortodoxa, a religião majoritária do país. Em outro ainda, visita um soldado ferido na Chechênia, a guerra preferida para inflar o nacionalismo russo. Em todas as ocasiões seus feitos heróicos são amplamente divulgados pela imprensa e pela televisão obsequiosa. O candidato russo lembra bastante o brasileiro. Ambos saídos do nada, encantaram pela juventude e disposição. Ambos prometendo ser contra tudo isso que está aí, ainda que eles próprios fossem cria de isso tudo que está aí. Da mesma forma que o ex-presidente brasileiro, Putin se apresenta como o salvador da pátria, exterminador da corrupção e reformador das instituições. "A Rússia é um país de tradição czarista, em que as personalidades sempre valeram mais que as idéias", explicou a VEJA o analista político russo Anatoli Sosnovski.

A decadência pós-soviética também não ajuda a convencer os russos das vantagens da democracia. A exemplo do Brasil, a Rússia de Putin é o país dos paradoxos que teima em dar errado quando tem tudo para dar certo. Dona do segundo maior arsenal nuclear do planeta, dispõe de recursos naturais incomparáveis e um capital humano com alta qualificação. Passada a turbulência da transição do comunismo para o capitalismo, podia-se acreditar que o país estava pronto para decolar, mas ele continua patinando na pista. Desde o colapso da União Soviética, em 1991, o PIB russo caiu praticamente pela metade. O desemprego, antes inexpressivo, já bate na casa dos 12%. Mais de um terço da população vive abaixo da linha de pobreza. A criminalidade está em ascensão, desde as gangues de jovens delinqüentes até os mafiosos de colarinho branco. A corrupção perpassa toda a administração pública. Com tudo em cima para se tornar uma superpotência do universo capitalista, a Rússia continua cultivando hábitos dos tempos dos sovietes e vícios da era czarista.

No dia-a-dia, Putin não consegue reprimir sua tendência ao mandonismo. Recentemente ele ordenou a censura aos jornais para proibir qualquer entrevista com os rebeldes da Chechênia. "Infelizmente, a maioria da população está pronta para permitir limitações à democracia em troca de estabilidade, segurança e certas garantias", diz Nikolai Petrov, um especialista em política russa nos Estados Unidos. Numa entrevista, Putin argumentou que o Estado forte estava no "código genético" russo. Já anunciou que vai convocar seus antigos colegas da KGB e de sua sucessora, a FSB, para combater a corrupção. Nada disso faz dele, necessariamente, um candidato a ditador. A Rússia mudou bastante desde o fim da União Soviética e nem tudo foi para pior. O país está aberto ao mundo e os russos estão impregnados de mercadorias, informações e cultura ocidental. Um dos retratos pendurados no gabinete de Putin, no Kremlin, é do czar Pedro, o Grande. No século XVIII, Pedro importou artistas da Europa Ocidental e promoveu uma profunda reforma na Rússia. Foi quem fundou São Petersburgo e deu um lustre moderno na cultura russa. Muitos russos, quando ouvem Putin expressar seu apego à economia de mercado e à democracia, pensam em Pedro, o Grande. Um czar autocrático, evidentemente, mas com idéias modernizantes. Entre os estilos de Ivan e de Pedro, o novo czar é uma incógnita.

 
Saiba mais
Da internet
Vladimir Putin
Governo
A Constituição