A Rússia elege seu novo czar
Com promessas de restaurar a lei e a ordem,
um
ex-espião da KGB é o todo-poderoso do Kremlin
AP
 |
AFP
 |
AFP
 |
| No estilo espalhafatoso
de Fernando Collor, Putin fez campanha posando de super-herói:
exibiu-se no comando de
um avião militar supersônico, apareceu
para dar a saída em um jogo de hóquei
e foi visto na direção de um caminhão
superpesado |
A Rússia teve um czar, Ivan, cujo apelido era O
Terrível, e disso se orgulhava. No século
XX, Stalin, que era um czar em todos os sentidos exceto
no título, passou à história como um
sangrento tirano. Entre um e outro –
e mesmo antes e depois – ,
o povo russo sofreu na mão dos autocratas e de experiências
totalitárias. Por que os russos iriam agora, na virada
do milênio, eleger presidente um homem sem credenciais
como democrata? Às vésperas das eleições
presidenciais, marcadas para o domingo 26, a única
questão em aberto era o tamanho da vitória
do candidato saído das fileiras da KGB e do qual,
até o ano passado, pouca gente tinha ouvido falar.
A maior ameaça à eleição de
Vladimir Putin era a apatia do eleitorado, que poderia atrapalhar
seu plano de resolver o assunto no primeiro turno. O novo
presidente russo, na verdade, foi escolhido sete meses antes
por Boris Ieltsin, que governava desde o fim do comunismo,
em 1991. Cansado, doente e sitiado por acusações
de corrupção, o velho urso pinçou Putin
nos gabinetes do Kremlin, renunciou e lhe deixou o país
de herança. E que país. A economia vai ladeira
abaixo, há uma guerra selvagem numa província
rebelde, a corrupção corrói o aparelho
de Estado, as extravagâncias dos novos-ricos são
um escândalo num lugar onde aposentados catam restos
de comida no lixo e a expectativa de vida da população
está em queda.
Boris Ieltsin indicou Putin como sucessor? Para muitos
russos é motivo mais que suficiente para referendar
a decisão do único mandachuva que conheceram
depois do comunismo. Não é só isso.
Numa situação em que tudo parece estar fora
do lugar, entregar o poder a um oficial recém-saído
das sombras da espionagem pode parecer a coisa certa. Nove
anos depois do colapso da União Soviética,
Putin expressa o desejo de uma mão forte que restaure
a ordem e recoloque o país num lugar de respeito
entre as nações. De fato, seu prestígio
se deve muito menos ao que fez como primeiro-ministro e,
depois, como presidente em exercício, do que à
promessa que os russos vêem em sua carreira como espião.
A rigor, no aperitivo de governo que serviu aos eleitores
nos últimos sete meses, não disse a que veio.
Não produziu nenhuma plataforma eleitoral e evitou
debater com outros candidatos. Além de ações
espalhafatosas de promoção pessoal, sua grande
obra, e a razão de seu sucesso eleitoral, foi a implacável
ofensiva bélica contra os separatistas da Chechênia.
Em campanha, é outra história. Ele fez piruetas
ao estilo Fernando Collor, como viajar à região
conflagrada do Cáucaso no banco de trás de
um caça supersônico SU-27. Questionado sobre
as intenções eleitoreiras do vôo supersônico,
explicou que era "o meio mais barato, mais rápido
e mais seguro de viajar". Com 47 anos, esbelto, olhos verdes
e uma careca que ameaça os últimos fios de
cabelo, Putin se exibiu ao praticar judô e dirigir
um caminhão. Um dia ele está em uma quadra
de esportes dando a saída numa partida de hóquei.
No outro, ao lado de um patriarca da Igreja Ortodoxa, a
religião majoritária do país. Em outro
ainda, visita um soldado ferido na Chechênia, a guerra
preferida para inflar o nacionalismo russo. Em todas as
ocasiões seus feitos heróicos são amplamente
divulgados pela imprensa e pela televisão obsequiosa.
O candidato russo lembra bastante o brasileiro. Ambos saídos
do nada, encantaram pela juventude e disposição.
Ambos prometendo ser contra tudo isso que está aí,
ainda que eles próprios fossem cria de isso tudo
que está aí. Da mesma forma que o ex-presidente
brasileiro, Putin se apresenta como o salvador da pátria,
exterminador da corrupção e reformador das
instituições. "A Rússia é um
país de tradição czarista, em que as
personalidades sempre valeram mais que as idéias",
explicou a VEJA o analista político russo Anatoli
Sosnovski.
A decadência pós-soviética também
não ajuda a convencer os russos das vantagens da
democracia. A exemplo do Brasil, a Rússia de Putin
é o país dos paradoxos que teima em dar errado
quando tem tudo para dar certo. Dona do segundo maior arsenal
nuclear do planeta, dispõe de recursos naturais incomparáveis
e um capital humano com alta qualificação.
Passada a turbulência da transição do
comunismo para o capitalismo, podia-se acreditar que o país
estava pronto para decolar, mas ele continua patinando na
pista. Desde o colapso da União Soviética,
em 1991, o PIB russo caiu praticamente pela metade. O desemprego,
antes inexpressivo, já bate na casa dos 12%. Mais
de um terço da população vive abaixo
da linha de pobreza. A criminalidade está em ascensão,
desde as gangues de jovens delinqüentes até
os mafiosos de colarinho branco. A corrupção
perpassa toda a administração pública.
Com tudo em cima para se tornar uma superpotência
do universo capitalista, a Rússia continua cultivando
hábitos dos tempos dos sovietes e vícios da
era czarista.
No dia-a-dia, Putin não consegue reprimir sua tendência
ao mandonismo. Recentemente ele ordenou a censura aos jornais
para proibir qualquer entrevista com os rebeldes da Chechênia.
"Infelizmente, a maioria da população está
pronta para permitir limitações à democracia
em troca de estabilidade, segurança e certas garantias",
diz Nikolai Petrov, um especialista em política russa
nos Estados Unidos. Numa entrevista, Putin argumentou que
o Estado forte estava no "código genético"
russo. Já anunciou que vai convocar seus antigos
colegas da KGB e de sua sucessora, a FSB, para combater
a corrupção. Nada disso faz dele, necessariamente,
um candidato a ditador. A Rússia mudou bastante desde
o fim da União Soviética –
e nem tudo foi para pior. O país está
aberto ao mundo e os russos estão impregnados de
mercadorias, informações e cultura ocidental.
Um dos retratos pendurados no gabinete de Putin, no Kremlin,
é do czar Pedro, o Grande. No século XVIII,
Pedro importou artistas da Europa Ocidental e promoveu uma
profunda reforma na Rússia. Foi quem fundou São
Petersburgo e deu um lustre moderno na cultura russa. Muitos
russos, quando ouvem Putin expressar seu apego à
economia de mercado e à democracia, pensam em Pedro,
o Grande. Um czar autocrático, evidentemente, mas
com idéias modernizantes. Entre os estilos de Ivan
e de Pedro, o novo czar é uma incógnita.
Saiba
mais |
|
|
|