Edição 1 642 - 29/3/2000
Salário mínimo  
 

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Sandra Brasil

Saiu o número. Após dois meses de discussão, o governo anunciou na última quinta-feira o valor do novo salário mínimo. Ele passou de 136 para 151 reais. Descontada a inflação, significa um aumento real de 5%. Juntamente com o reajuste do mínimo, concedido por medida provisória, o governo encaminhou ao Congresso um projeto de lei que permite aos Estados estabelecer pisos salariais locais acima de 151 reais. A notícia do novo mínimo e a criação do piso regional foram recebidas pelo Parlamento com as reações de costume. A oposição só faltou vaiar. Na base governista, o clima era de comemoração, com um detalhe: todos se diziam vitoriosos. "O PFL saiu vencedor porque o piso nacional ficou abaixo do que nós defendíamos, mas os Estados poderão fixar salários até superiores a 100 dólares", afirma o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, até outro dia defensor do mínimo de 177 reais. Os tucanos deram entrevistas parecidas reivindicando a vitória. Contavam inclusive detalhes de como infundiram sensibilidade social na equipe econômica. Os caciques do PMDB também festejavam porque foi deles a idéia de antecipar a implantação do novo mínimo do tradicional 1º de maio para o dia 3 de abril. Embora a medida provisória tenha de ser aprovada pelo Congresso para virar lei, ninguém prevê grandes dificuldades durante o processo de votação. O mesmo não se pode dizer do projeto de criação dos pisos regionais, que tem sido lido de maneira equivocada.

Ficou parecendo que, se a lei for aprovada, os governadores estarão livres para criar um piso salarial em seus Estados em patamar bem mais elevado que os 151 reais. Quem sabe 300 reais? Pela lei em vigor, não há amarras impedindo o governante de pagar o piso que bem entender. Tudo depende do impacto que as mudanças vão produzir em seu orçamento. No governo paulista não há servidor com salário inferior a 220 reais. A governadora Roseana Sarney já disse que, no Maranhão, o piso será de 100 dólares. Essa liberdade fica mais restrita com a nova lei. O valor definido em cada Estado funcionará como piso para todos que têm contrato de trabalho regido pela CLT, o que inclui uma parte dos servidores públicos estaduais, uma parte dos funcionários municipais e a grande maioria dos trabalhadores da iniciativa privada. Ou seja, se o tal piso regional for elevado, o Estado em questão estará criando um problema para prefeitos e empresários sob sua jurisdição. A expectativa é de que essa imposição gere pisos bastante modestos. Muito próximos ao de Brasília.

Outro problema ligado à novidade de misturar salário baixo e piso estadual livre é a avalanche de ações na Justiça que alguns juristas prevêem. A Constituição define o mínimo como sendo um valor nacional e unificado. Conforme a decisão da semana passada, ainda que os Estados optem por pisos elevados, o mínimo de 151 reais será a base de remuneração dos servidores federais e dos aposentados. Será que as associações que congregam funcionários federais ou as entidades que representam os velhinhos não entrarão na Justiça pedindo isonomia? A briga promete ser boa, mas os especialistas estão satisfeitos. O governo finalmente discute o assunto em bases técnicas, coisa que nunca foi feita. Até hoje, o mínimo permanece num patamar ridículo, porque os governantes não querem rever a lei que o vincula aos proventos da Previdência. Pelas regras vigentes, se o mínimo subir, aumentam-se as despesas com o pagamento de aposentadorias. Como o governo não tem dinheiro para fazer isso, comprime o mínimo.

O sistema previdenciário dá um prejuízo enorme todo ano. Mas ninguém faz nada para alterar essa situação. O assunto é tratado como se o buraco fosse honrado por uma entidade poderosa chamada governo, com capacidade para fabricar dinheiro. Infelizmente, o prejuízo recai sobre o cidadão. É ele quem a cada mês recolhe mais impostos do que deveria para cobrir despesas de um sistema que gasta 100 bilhões de reais por ano, mas só arrecada 54 bilhões. Com o aumento do mínimo para 151 reais, o rombo saltará de 46 bilhões para 48 bilhões. Como o pagamento de aposentadorias é uma obrigação legal do Estado, pratica-se um assalto ao Tesouro Nacional, que tem recursos sociais desviados para o pagamento de aposentadorias e pensões. Para dimensionar esse assalto, basta dizer que seria dinheiro suficiente para dar um cheque de 190 reais todo mês aos 21 milhões de crianças e adolescentes que vivem em famílias cujo rendimento per capita mensal é inferior ou igual a meio salário mínimo.

O colapso da Previdência já estava previsto havia anos. A razão para isso é que o INSS está organizado pelo sistema de repartição. O trabalhador da ativa contribui para pagar os aposentados de hoje. Se o mundo fosse esse lugar ideal que muitos gostam de imaginar, tudo daria certo. No caso da Previdência, o sistema explodiu. As razões são óbvias. Com a queda na taxa de crescimento demográfico, há cada vez menos gente na ativa para sustentar um número crescente de aposentados. E os aposentados vivem mais porque o país está mais longevo. Esse problema só existe porque até hoje não se fez no Brasil aquilo que Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e colunista de VEJA, chama de "a verdadeira reforma" da Previdência. Até hoje, só se viram remendos.

Para resolver o rombo da Previdência, é preciso trocar o atual sistema de repartição pelo sistema de capitalização. O caixa único coletivo do qual se tiram as pensões dá lugar às contas individuais. A aposentadoria de cada trabalhador, seja da iniciativa privada, seja servidor público, seria paga com os valores que ele próprio depositaria numa conta, no decorrer de seus anos de trabalho. E aí sim as contas poderiam finalmente fechar.

Há uma enorme confusão entre Previdência e assistência social. Os mais pobres devem ter direito a uma renda mínima para enfrentar a velhice, mesmo que não paguem à Previdência. Mas esse programa de renda mínima não pode misturar-se às contas do INSS. Outra coisa é a Previdência, em que só deve estar quem paga. Nos Estados Unidos é assim. O pobres recebem uma assistência básica do Estado, mas o dinheiro das aposentadorias é privado, gerido pelos poderosos fundos de pensão. No Chile, modelo imitado por seis países latino-americanos, também é assim. Renda mínima separada da Previdência. O Brasil flerta há anos com essa reforma real, mas vem adiando o encontro com a verdade.

Como anos e anos de descalabros não passam impunes, a troca de modelos envolve um custo assombroso. As contribuições recolhidas atualmente dos trabalhadores são consumidas integralmente no pagamento de aposentadorias. E ainda falta. Como então arrumar dinheiro para bancar as pensões de hoje e, além disso, formar um fundo de caixa para honrar as aposentadorias do futuro? Na transição dos dois sistemas, não há alternativa. É preciso fazer um desembolso enorme. Fala-se em pelo menos 200 bilhões de reais. O governo já estudou a troca de modelos, mas desistiu depois de ser apresentado aos números. Para os mais pessimistas, é preciso reconhecer que, se o país não chegou a uma solução, pelo menos a discussão continua acesa. O problema é que em vez de discutir qual é a solução definitiva para a questão da Previdência e enfrentar o desafio de resolvê-la , Brasília faz a opção de ir remendando um espantalho que nunca ficará de pé.

Com reportagem de Leandra Peres