Edição 1 642 - 29/3/2000

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Rio de Janeiro

É caso de polícia

Documento exclusivo revela um mar de corrupção
no coração dos órgãos de segurança do Rio

Ronaldo França

 

Antonio Gauderio/Folha Imagem
Garotinho em solenidade da PM: corrupção na cúpula da polícia desafia o governo

As crises na área da segurança pública do Rio de Janeiro se repetem governo após governo. Só não são entediantes porque a cada vez que emergem revelam lances mais estarrecedores de corrupção e lama. Não há governador que não tenha topado com o problema nas últimas duas décadas. Anthony Garotinho assumiu o governo fluminense no ano passado com planos revolucionários para o setor. Mas neste mês escorregou no lodaçal e levou um tombo do mesmo modo que seus antecessores. A crise que se iniciou agora, com a denúncia de que a cúpula da Polícia Civil estaria tomada por um grupo de corruptos, não tem precedentes. Principalmente porque foi dentro dos jardins do Palácio que a bomba explodiu. A podridão veio à tona quando o então coordenador da área de segurança, Luiz Eduardo Soares, apresentou um conjunto de denúncias ao Ministério Público. Ele afirmou que, para conseguir melhores índices de combate à criminalidade, Garotinho se aliou à chamada "banda podre" da polícia.

 

 
Zeca Fonseca
Soares: a chefia da polícia sob suspeita

Esse é o sugestivo apelido que se dá ao conjunto de policiais que, a despeito de sua eventual eficiência na captura de criminosos, montam esquemas inacreditáveis de venda de liberdade a traficantes, extorsão, desmanche de veículos e até tortura. São esses alguns dos crimes citados num documento encaminhado pelo ex-coordenador de segurança ao governador. Trata-se de um ofício confidencial de alto poder de destruição política. São descrições impressionantes, que constam do documento entregue a VEJA pelo próprio governador. Suas oito páginas contêm o coração da crise do Rio, com organogramas da teia de corrupção e a descrição de cada uma das suspeitas. Não foram apresentadas provas, mas a simples citação dos casos por autoridade do governo mereceu a instalação de uma comissão especial de investigação. Num dos itens, acusa-se a delegada de proteção à criança e ao adolescente, Márcia Julião, de coordenar um grupo de policiais na extorsão de comerciantes da rede hoteleira do centro da cidade. O que se estaria oferecendo, em troca de 500 reais mensais de cada um deles, era a permissão para que adolescentes freqüentassem livremente os motéis.

 

 
Domingos Peixoto
Operação desastrada na Mangueira: Garotinho impressionou ao subir o morro e pedir desculpas por abuso

Em outra denúncia do mesmo documento, o chefe da Polícia Civil, Rafik Louzada, e mais dois policiais seriam suspeitos de ter comprado três lojas de franquia de uma cadeia de fast food. O valor de 300.000 dólares de cada uma leva à imediata conclusão de que o dinheiro teria sido obtido com corrupção. Um dos principais assessores de Louzada também foi acusado de chefiar um esquema de loteamento das delegacias do Estado. Os delegados interessados em ter sob seu domínio um território mais fértil em número de ocorrências teriam de pagar por isso. Os preços, entre 15 000 e 60 000 reais, seriam uma pechincha diante do que uma bem montada teia de corrupção pode render.

Essa é a grande crise do governo Garotinho nessa área. Até aqui, sua atuação na segurança foi marcada por atitudes surpreendentes. Em maio do ano passado, o governador subiu o Morro da Mangueira, na Zona Norte, para pedir desculpas pela morte de um menino durante uma batida policial. Há dois meses, chamou a seu encontro uma turma de refugiados angolanos, injustamente acusados de estar ensinando técnicas de guerrilha aos traficantes cariocas. Grupos de direitos humanos lançaram loas ao governador por suas posições. Por trás dessas atitudes, estava o antropólogo Luiz Eduardo Soares, que desde o início do governo vinha sendo uma espécie de eminência parda da Secretaria de Segurança Pública. Doutor em filosofia pela Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos, Soares estudou nos últimos quinze anos a segurança pública. Sua sólida formação na área não ajudou seu desempenho: ele acabou esbarrando na falta de capacidade executiva para colocar em prática as boas idéias que tinha. É evidente que o corrupto aparelho policial fluminense obstruiu de todas as maneiras o trabalho de Soares. Mas ele estava ali exatamente para demolir essa barreira e não conseguiu.

Até três meses atrás, aparentava ter com o governador uma inabalável cumplicidade. No dia 11 de fevereiro, Soares enviou uma carta a Garotinho alertando para a influência da chamada "banda podre" nos altos escalões da polícia. Dias depois, o antropólogo foi chamado ao Palácio Guanabara para tratar do assunto. Garotinho prometeu uma faxina, que não veio. A relação foi azedando e ruiu de vez quando Soares procurou o Ministério Público, há duas semanas, para fazer suas denúncias sem sequer avisar ao secretário de Segurança Josias Quintal. Soares afirmou que não confiava na corregedoria para encaminhar o assunto. O mal-estar foi imediato. A crise não poupou a amizade. Garotinho demitiu o auxiliar ao vivo durante uma entrevista na Rede Globo. "Ficou inviável a presença dele na Secretaria de Segurança Pública", disse o governador a certa altura da entrevista, cristalizando seu estilo peculiar de governar pela mídia. Garotinho gosta de demissões e nomeações feitas à luz das câmaras. Consta de seu currículo, em seu período como prefeito de Campos, a demissão de diversos funcionários pelo rádio. Desta vez, porém, o arroubo pegou mal. A impressão que ficou para a opinião pública, a despeito das intrigas palacianas, foi que o governador puniu um funcionário que zelava pela moralidade.

 

Marcelo Sayão

Ponto do bicho no Rio: cidade voltou a ser ocupada desde o início do novo governo


A corrupção cresce com mais vigor no terreno fértil da desorganização da polícia do Rio. A Polícia Civil, apesar de um quadro muito menor de funcionários, com 11..000 policiais, é uma usina mais produtiva de trapaças. A Polícia Militar, com sua rígida hierarquia e filosofia tomadas de empréstimo do Exército, consegue manter um controle mais rígido de seu efetivo de 29 000 homens. A corrupção, nesse caso, se dá no varejo. É na Polícia Civil que se negocia a corrupção no atacado. Quando um PM prende alguém na rua, o máximo que pode fazer é levá-lo a uma delegacia. Seu poder acaba aí.

É o delegado que tem na mão a caneta que leva o infrator para dentro do sistema judiciário. Usá-la ou não passa a ser, no caso dos corruptos, uma questão de preço. "A corrupção na Polícia Civil chegou a níveis intoleráveis", confirma Garotinho. Como a organização da instituição é precária, as delegacias se transformaram em órgãos quase independentes. O delegado tornou-se uma espécie de barão da segurança, com poder de prender ou soltar conforme o que lhe pagam ou deixam de pagar.

 

Michel Filho
Marco Antonio Cavalcanti
Quintal e Rafik: a cúpula da segurança é acusada de se aliar a um grupo de policiais corruptos

 

Desorganização da força policial e policiais desonestos não são uma chaga apenas do Rio. Acontecem em todo o país. A diferença é que, sob os braços abertos do Cristo Redentor, floresceu uma ligação ímpar entre policiais e o jogo do bicho, uma estrutura criminosa cuja organização é muito superior à da própria polícia. Não é difícil prever a conseqüência. "É pelo bicho que tudo começa. Ele serve de justificativa para outros delitos", afirma o deputado estadual Hélio Luz, do PT, que foi chefe de polícia no governo anterior. Foi Luz quem, no calor da crise na semana passada, acusou o governo do Estado de ter feito um acordo com os bicheiros. "Basta ver que os pontos do bicho voltaram à rua. O policial vê isso e quer o dele também", afirma. O jogo do bicho está ligado à própria história da polícia carioca. Num estudo recente, a Secretaria de Segurança descobriu que a lógica centenária da divisão de delegacias era determinada pela divisão dos territórios dos bicheiros. Isso porque os delegados tratavam de estabelecer por meios próprios sua área de influência para garantir o domínio da corrupção num determinado espaço urbano. Com o tempo, a ligação com o bicho abriu caminho para o tráfico de drogas, uma invenção bem mais recente, que tomou de assalto a cidade e criou raízes na polícia.

Quando se pensava que a bateria desferida por Soares contra a corrupção já era letal, a CPI do Narcotráfico aumentou na terça-feira passada a artilharia com a revelação de fitas de grampo telefônico, feito sobre o traficante carioca Fernandinho Beira-Mar. Entre outras revelações, ele diz que um policial do Rio já o teria extorquido quatro vezes, e tomado uma casa de praia, um apartamento, cinco carros e uma lancha. As conversas demonstram que a polícia é eficiente para prender bandidos, mas seus corruptos são muito mais competentes para negociar a liberdade dos criminosos. Não é à toa que o carioca está mais uma vez sobressaltado. É mesmo de estarrecer a constatação de que a conduta dos homens da segurança é, ela mesma, um caso de polícia.

Com reportagem de Marcelo Carneiro e Silvia Rogar