Rio de Janeiro
É caso de polícia
Documento exclusivo revela um mar de corrupção
no coração dos órgãos de segurança
do Rio
Ronaldo França
Antonio Gauderio/Folha Imagem
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| Garotinho em solenidade da PM:
corrupção na cúpula da polícia
desafia o governo |
As crises na área da segurança pública
do Rio de Janeiro se repetem governo após governo.
Só não são entediantes porque a cada
vez que emergem revelam lances mais estarrecedores de corrupção
e lama. Não há governador que não tenha
topado com o problema nas últimas duas décadas.
Anthony Garotinho assumiu o governo fluminense no ano passado
com planos revolucionários para o setor. Mas neste
mês escorregou no lodaçal e levou um tombo
– do mesmo modo que seus antecessores.
A crise que se iniciou agora, com a denúncia de que
a cúpula da Polícia Civil estaria tomada por
um grupo de corruptos, não tem precedentes. Principalmente
porque foi dentro dos jardins do Palácio que a bomba
explodiu. A podridão veio à tona quando o
então coordenador da área de segurança,
Luiz Eduardo Soares, apresentou um conjunto de denúncias
ao Ministério Público. Ele afirmou que, para
conseguir melhores índices de combate à criminalidade,
Garotinho se aliou à chamada "banda podre" da polícia.
Zeca Fonseca
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| Soares: a chefia da polícia
sob suspeita |
Esse é o sugestivo apelido que se dá ao conjunto
de policiais que, a despeito de sua eventual eficiência
na captura de criminosos, montam esquemas inacreditáveis
de venda de liberdade a traficantes, extorsão, desmanche
de veículos e até tortura. São esses
alguns dos crimes citados num documento encaminhado pelo
ex-coordenador de segurança ao governador. Trata-se
de um ofício confidencial de alto poder de destruição
política. São descrições impressionantes,
que constam do documento entregue a VEJA pelo próprio
governador. Suas oito páginas contêm o coração
da crise do Rio, com organogramas da teia de corrupção
e a descrição de cada uma das suspeitas. Não
foram apresentadas provas, mas a simples citação
dos casos por autoridade do governo mereceu a instalação
de uma comissão especial de investigação.
Num dos itens, acusa-se a delegada de proteção
à criança e ao adolescente, Márcia
Julião, de coordenar um grupo de policiais na extorsão
de comerciantes da rede hoteleira do centro da cidade. O
que se estaria oferecendo, em troca de 500 reais mensais
de cada um deles, era a permissão para que adolescentes
freqüentassem livremente os motéis.
Domingos Peixoto
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| Operação desastrada
na Mangueira: Garotinho impressionou ao subir o morro
e pedir desculpas por abuso |
Em outra denúncia do mesmo documento, o chefe da
Polícia Civil, Rafik Louzada, e mais dois policiais
seriam suspeitos de ter comprado três lojas de franquia
de uma cadeia de fast food. O valor de 300.000
dólares de cada uma leva à imediata conclusão
de que o dinheiro teria sido obtido com corrupção.
Um dos principais assessores de Louzada também foi
acusado de chefiar um esquema de loteamento das delegacias
do Estado. Os delegados interessados em ter sob seu domínio
um território mais fértil em número
de ocorrências teriam de pagar por isso. Os preços,
entre 15 000 e 60 000 reais, seriam uma pechincha diante
do que uma bem montada teia de corrupção pode
render.
Essa é a grande crise do governo Garotinho nessa
área. Até aqui, sua atuação
na segurança foi marcada por atitudes surpreendentes.
Em maio do ano passado, o governador subiu o Morro da Mangueira,
na Zona Norte, para pedir desculpas pela morte de um menino
durante uma batida policial. Há dois meses, chamou
a seu encontro uma turma de refugiados angolanos, injustamente
acusados de estar ensinando técnicas de guerrilha
aos traficantes cariocas. Grupos de direitos humanos lançaram
loas ao governador por suas posições. Por
trás dessas atitudes, estava o antropólogo
Luiz Eduardo Soares, que desde o início do governo
vinha sendo uma espécie de eminência parda
da Secretaria de Segurança Pública. Doutor
em filosofia pela Universidade de Virgínia, nos Estados
Unidos, Soares estudou nos últimos quinze anos a
segurança pública. Sua sólida formação
na área não ajudou seu desempenho: ele acabou
esbarrando na falta de capacidade executiva para colocar
em prática as boas idéias que tinha. É
evidente que o corrupto aparelho policial fluminense obstruiu
de todas as maneiras o trabalho de Soares. Mas ele estava
ali exatamente para demolir essa barreira e não conseguiu.
Até três meses atrás, aparentava ter
com o governador uma inabalável cumplicidade. No
dia 11 de fevereiro, Soares enviou uma carta a Garotinho
alertando para a influência da chamada "banda podre"
nos altos escalões da polícia. Dias depois,
o antropólogo foi chamado ao Palácio Guanabara
para tratar do assunto. Garotinho prometeu uma faxina, que
não veio. A relação foi azedando e
ruiu de vez quando Soares procurou o Ministério Público,
há duas semanas, para fazer suas denúncias
sem sequer avisar ao secretário de Segurança
Josias Quintal. Soares afirmou que não confiava na
corregedoria para encaminhar o assunto. O mal-estar foi
imediato. A crise não poupou a amizade. Garotinho
demitiu o auxiliar ao vivo durante uma entrevista na Rede
Globo. "Ficou inviável a presença dele na
Secretaria de Segurança Pública", disse o
governador a certa altura da entrevista, cristalizando seu
estilo peculiar de governar pela mídia. Garotinho
gosta de demissões e nomeações feitas
à luz das câmaras. Consta de seu currículo,
em seu período como prefeito de Campos, a demissão
de diversos funcionários pelo rádio. Desta
vez, porém, o arroubo pegou mal. A impressão
que ficou para a opinião pública, a despeito
das intrigas palacianas, foi que o governador puniu um funcionário
que zelava pela moralidade.
Marcelo Sayão
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Ponto do bicho no Rio: cidade
voltou a ser ocupada desde o início do novo
governo
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A corrupção cresce com mais vigor no terreno
fértil da desorganização da polícia
do Rio. A Polícia Civil, apesar de um quadro muito
menor de funcionários, com 11..000
policiais, é uma usina mais produtiva de trapaças.
A Polícia Militar, com sua rígida hierarquia
e filosofia tomadas de empréstimo do Exército,
consegue manter um controle mais rígido de seu efetivo
de 29 000 homens. A corrupção, nesse caso,
se dá no varejo. É na Polícia Civil
que se negocia a corrupção no atacado. Quando
um PM prende alguém na rua, o máximo que pode
fazer é levá-lo a uma delegacia. Seu poder
acaba aí.
É o delegado que tem na mão a caneta que
leva o infrator para dentro do sistema judiciário.
Usá-la ou não passa a ser, no caso dos corruptos,
uma questão de preço. "A corrupção
na Polícia Civil chegou a níveis intoleráveis",
confirma Garotinho. Como a organização da
instituição é precária, as delegacias
se transformaram em órgãos quase independentes.
O delegado tornou-se uma espécie de barão
da segurança, com poder de prender ou soltar conforme
o que lhe pagam ou deixam de pagar.
Michel Filho
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Marco
Antonio Cavalcanti
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| Quintal
e Rafik: a cúpula da segurança é
acusada de se aliar a um grupo de policiais corruptos
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Desorganização da força policial
e policiais desonestos não são uma chaga apenas
do Rio. Acontecem em todo o país. A diferença
é que, sob os braços abertos do Cristo Redentor,
floresceu uma ligação ímpar entre policiais
e o jogo do bicho, uma estrutura criminosa cuja organização
é muito superior à da própria polícia.
Não é difícil prever a conseqüência.
"É pelo bicho que tudo começa. Ele serve de
justificativa para outros delitos", afirma o deputado estadual
Hélio Luz, do PT, que foi chefe de polícia
no governo anterior. Foi Luz quem, no calor da crise na
semana passada, acusou o governo do Estado de ter feito
um acordo com os bicheiros. "Basta ver que os pontos do
bicho voltaram à rua. O policial vê isso e
quer o dele também", afirma. O jogo do bicho está
ligado à própria história da polícia
carioca. Num estudo recente, a Secretaria de Segurança
descobriu que a lógica centenária da divisão
de delegacias era determinada pela divisão dos territórios
dos bicheiros. Isso porque os delegados tratavam de estabelecer
por meios próprios sua área de influência
para garantir o domínio da corrupção
num determinado espaço urbano. Com o tempo, a ligação
com o bicho abriu caminho para o tráfico de drogas,
uma invenção bem mais recente, que tomou de
assalto a cidade e criou raízes na polícia.
Quando se pensava que a bateria desferida por Soares contra
a corrupção já era letal, a CPI do
Narcotráfico aumentou na terça-feira passada
a artilharia com a revelação de fitas de grampo
telefônico, feito sobre o traficante carioca Fernandinho
Beira-Mar. Entre outras revelações, ele diz
que um policial do Rio já o teria extorquido quatro
vezes, e tomado uma casa de praia, um apartamento, cinco
carros e uma lancha. As conversas demonstram que a polícia
é eficiente para prender bandidos, mas seus corruptos
são muito mais competentes para negociar a liberdade
dos criminosos. Não é à toa que o carioca
está mais uma vez sobressaltado. É mesmo de
estarrecer a constatação de que a conduta
dos homens da segurança é, ela mesma, um caso
de polícia.
Com reportagem de Marcelo
Carneiro e Silvia Rogar