Sobre o nacionalismo
"No Norte, o livre cambismo,
a despeito de enfraquecer a soberania, é uma causa
progressista, ao passo que em alguns rincões da América
Latina é tomado como uma postura entreguista e reacionária"
Ilustração Alê Setti
Como
amiúde gostamos de celebrar, o Brasil nunca experimentou
furacões e terremotos. E também nunca sofremos
bombardeios de potências estrangeiras nas guerras
em que estivemos metidos. O máximo que tivemos em
matéria de invasões estrangeiras em nosso
território foi no terreno das importações
dos investimentos diretos, nada que gerasse sofrimento,
muito pelo contrário. Nosso nacionalismo, portanto,
é moderado e sem ressentimentos. Seus exageros ocasionais
jamais se traduziram em manifestações de racismo
e ódio, ou em perseguições a minorias
religiosas, etnias ou imigrantes. Por isso mesmo temos certa
condescendência para com manifestações
nacionalistas, bem como um misto de alívio e fascínio
mórbido em ver cenas de maremotos no Oceano Pacífico
e de furacões no Golfo do México, bem longe
de nós.
Na Europa a postura definitivamente não é
a mesma: há cautela, e mesmo temor, quanto aos perigos
do nacionalismo. As feridas do passado são imensas,
tão grandes que merecem todo o cuidado para que se
evitem os erros que levaram às duas guerras mundiais
e ao holocausto. Nessa linha, pode-se argumentar que o processo
de integração européia avançou
até o inusitado extremo de adotar uma moeda única
devido ao impulso político de fechar os espaços
para rivalidades nacionais e evitar sua degeneração
em um nacionalismo econômico predatório e às
barbaridades que daí se seguem. A experiência
do euro é única nesse domínio: pela
primeira vez na história da humanidade, diversos
países prósperos, no livre exercício
de suas vontades nacionais, na plenitude democrática
e na ausência de um processo inflacionário
terminal, decidiram abandonar suas moedas nacionais em troca
de benefícios econômicos que não se
sabia muito bem explicar. Como se justifica tamanho abandono
de soberania por parte de algumas das nações
mais poderosas deste planeta?
É interessante lembrar que os economistas europeus
exibiam sempre um genuíno entusiasmo com os preparativos
para a moeda única. As nações deviam
arrumar a casa do ponto de vista fiscal e monetário,
reduzir o endividamento público, eliminar restrições
comerciais e financeiras remanescentes, ou seja, fazer todas
as coisas que nós todos sabemos, exceto pelos suspeitos
de sempre, que os países devem fazer em matéria
de finanças públicas e políticas macroeconômicas.
Mas quando se perguntava especificamente sobre o "day after",
ou acerca dos benefícios derivados da moeda única
(e não dos preparativos para ela), os argumentos
eram feitos de puro vento.
Já os líderes do processo, políticos
e diplomatas, por sua vez, tinham uma resposta na ponta
da língua: a moeda única reduzia o oxigênio
para o nacionalismo, o espaço para a hostilidade
econômica para com a vizinhança e, portanto,
a probabilidade de guerras. Exatamente o mesmo raciocínio
dos artífices do Mercosul. Quem especula sobre as
possíveis conseqüências de uma corrida
nuclear com os argentinos e observa as tensões entre
Índia e Paquistão em nossos dias não
pode deixar de apreciar as dimensões geopolíticas
do processo de integração econômica.
É curioso, por outro lado, que esses benefícios
da integração internacional estejam geralmente
ausentes das análises sobre o processo de globalização,
que tem nos processos de integração comercial
um de seus capítulos mais importantes. Não
está incorreto assinalar que a abertura comercial
representa uma perda de soberania, embora num sentido rasteiro.
Da mesma forma que tratados internacionais levam as nações
a se auto-impor limitações, por exemplo, para
a fabricação de armas de destruição
em massa e para condutas protecionistas. No Norte, o livre
cambismo, a despeito de enfraquecer a soberania, é
uma causa progressista, ao passo que em alguns rincões
da América Latina é tomado como uma postura
entreguista e reacionária. Ou pelo menos era, até
que o binômio proteção & inflação
nos levou a um buraco muito fundo, de onde só vamos
sair se modificarmos drasticamente nosso relacionamento
com o resto do mundo, como de fato temos feito nos últimos
anos.
Gustavo Franco é
economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)