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Crepúsculo
do bardo
Cimbeline
não está entre as
maiores
peças de Shakespeare.
Mas,
ainda assim, fascina
Jerônimo
Teixeira

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Nenhum
outro escritor na história montou uma galeria tão vasta
de personagens memoráveis. Hamlet e Ofélia, Romeu e Julieta,
Macbeth e sua monstruosa esposa atravessaram os séculos firmemente
estabelecidos nas bibliotecas, nos palcos e nas telas de cinema. Póstumo
e Imogênia não tiveram a mesma sorte. A nova edição
de Cimbeline, Rei da Britânia (tradução
de José Roberto O'Shea; Iluminuras; 224 páginas; 35 reais)
dá ao leitor a oportunidade de conhecer mais esse desafortunado
casal criado pelo gênio de William Shakespeare (1564-1616).
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| Shakespeare:
nem comédia, nem tragédia, alguma coisa muito próxima da vida |
Ao
lado da mais conhecida (e mais bem-acabada) A Tempestade, Cimbeline
é uma das últimas peças do dramaturgo inglês,
escrita provavelmente em torno de 1610. Em alguns aspectos, parece testemunhar
um certo cansaço criativo. O personagem da Rainha, com seus fracassados
planos de assassinato, é uma lady Macbeth desprovida de intensidade
trágica, e o cortesão romano Giácomo, com suas intrigas
amorosas, parece uma reedição menos inteligente de Iago,
o vilão de Otelo. Por outro lado, a exuberância desse enredo
cheio de reviravoltas barrocas não deixa de ser fascinante. Identidades
trocadas, virtudes caluniadas, princesas travestidas todos os expedientes
teatrais da obra anterior de Shakespeare parecem ter sido concentrados
nesta única peça, com mais respeito pela fantasia do que
pela verossimilhança. Fluente e criteriosa, a tradução
respeita o virtuosismo poético e dramático do original.
A
ação tem lugar na antiga Britânia. Imogênia,
a filha do rei Cimbeline, casa-se com Póstumo Leonato, um cavaleiro
pobre e virtuoso. Essa união frustra os planos da rainha-madrasta,
que tem um filho de um casamento anterior e gostaria de vê-lo como
sucessor do trono. Influenciado pela esposa, Cimbeline degreda Póstumo,
que se refugia na Roma do imperador Augusto. O casal só vai se
reencontrar depois de inúmeros tropeços e de pelo menos
um grande lance trágico: Imogênia, sob efeito de drogas,
é dada como morta e depositada ao lado de um cadáver decapitado
que está vestido com as roupas de Póstumo. Ao despertar,
a heroína imagina que o morto é o seu amado. É uma
cena pungente, que exige muito da atriz que se dispuser a encarnar Imogênia.
Mas Cimbeline, com seus vilões farsescos e seu happy end
monumental, está longe de ser uma tragédia. Já no
século XVIII o grande crítico inglês Samuel Johnson
que, aliás, não gostava desta peça em particular
observou que as obras de Shakespeare não eram propriamente
nem tragédias nem comédias, mas alguma coisa mais próxima
da vida, com todo seu caos e suas situações ambíguas.
Mesmo não sendo uma das maiores criações de Shakespeare,
Cimbeline confirma sua grandeza inclassificável.
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BASTARDOS
SOMOS TODOS
"Não
poderão os homens ser gerados
Sem
que as mulheres façam a metade
Do
trabalho? Bastardos somos todos,
E
o homem venerável, a quem pai
Chamei,
andava sei lá eu por onde,
Na
hora em que fui gravado. Um cunhador
Com
suas ferramentas fez-me falso;
No
entanto, minha mãe aparentava
Ser
a Diana da época, assim como
Minha
esposa hoje em dia, era sem par."
Trecho
de
Cimbeline,
em que o personagem
Póstumo lamenta a
infidelidade das mulheres,
entre elas sua mãe e sua esposa.
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