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Avance a fita

A idéia é boa – um vídeo que mata
quem o vê. Pena que O Chamado
não faça justiça a ela

Isabela Boscov

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Duas adolescentes sozinhas em casa, à noite, são atacadas por uma força estranha, que mata uma delas – por derrame, aos 16 anos de idade. Intrigada com uma causa de morte tão improvável, a tia da menina, Rachel (Naomi Watts), uma jornalista, começa a investigá-la já no velório. Descobre que a tragédia pode estar ligada a uma fita de vídeo. Quem a assiste recebe imediatamente um telefonema, que anuncia o fim iminente com apenas duas palavras: "sete dias". É todo o tempo de vida que resta à vítima. Como Rachel obtém a fita e assiste a ela, esse é o prazo de que dispõe para decifrar o mistério e tentar escapar ao seu poder. Até aí, O Chamado (The Ring, Estados Unidos/Japão, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país, vai bem. Seus problemas começam naquele ponto que aflige tantos outros filmes que tratam do sobrenatural: a tentativa de bolar um fenômeno que, uma vez explicado, se prove à altura dos augúrios que ele provoca.

Divulgação
Naomi descobre que seu filho viu o que não devia: "estilo" demais


É um desafio grande demais para o diretor Gore Verbinski. Quanto mais ele avança, mais aquele sentimento inicial de perturbação e incômodo se desfaz – má notícia para um gênero que depende tanto da colaboração da platéia para funcionar. A interpretação de Naomi Watts resume bem as limitações do filme. Em Cidade dos Sonhos, de David Lynch, Naomi se mostrou uma atriz extraordinária, daquelas capazes de abarcar várias oitavas num acorde só. Aqui, ela não sai da mesma nota, simplesmente porque não há material para tanto. Verbinski nem sequer sabe trabalhar aquele que seria o apelo maior do filme: o fato de que também o espectador viu as imagens da fita e, portanto, está credenciado a dividir com a protagonista o seu temor.

O Chamado é uma refilmagem americana – bastante fiel, aliás – de Ringu, um cult japonês de 1998. Da sua origem, ele herda a forma quase animista com que os japoneses encaram os produtos da tecnologia, atribuindo a eles algo que pode ser definido como vontade própria. Se essa fosse a única herança carregada pelo filme, estaria de bom tamanho. Mas Verbinski (do tolíssimo A Mexicana) é um desses diretores que já viram de tudo e não digeriram nada. Seu filme é um recordista da apropriação indébita. De Um Cão Andaluz – o marco zero do cinema surrealista, dirigido por Luis Buñuel e Salvador Dalí – a Todo Mundo em Pânico, passando por Alucinações do Passado, Poltergeist, O Sexto Sentido e por aí vai, ele rouba de tudo um pouco. O que une todas essas partes não é o sentido, mas o que se costuma chamar de "estilo": fotografia azulada, locações estranhas, chuva constante e que tais. Os americanos acharam que era o bastante, e O Chamado teve ótimo desempenho na bilheteria. Vai aí então uma proposta para passar o tempo: tente identificar os "ganchos" que foram plantados ao longo do filme para a inevitável continuação.

   
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