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O maestro da Segunda

O milionário americano Gilbert Kaplan
ganhou fama com sua obsessão por
uma sinfonia de Mahler

Sérgio Martins

 

Divulgação

Henry Grossman
O americano Kaplan à paisana e no pódio: ele comprou a baqueta de Mahler e um anel que foi da mulher do compositor

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Para ouvir: as versões de Segunda Sinfonia

O milionário americano Gilbert Kaplan, de 61 anos, possui noções limitadas de teoria musical. Mesmo assim, nos últimos vinte anos, regeu mais de 100 concertos mundo afora, à frente de orquestras como as sinfônicas de Londres e de Pittsburgh e a Orquestra da Rádio da Baviera. Como isso é possível? Graças a uma obsessão: o repertório de Kaplan resume-se a uma única obra, a Segunda Sinfonia do austríaco Gustav Mahler (1860-1911). A essa composição longa e complexa sobre o tema da morte e da ressurreição, que requer uma enorme orquestra para ser executada, além de um coro e de um conjunto adicional de metais, Kaplan já dedicou infindáveis horas de estudo. Graças a esse trabalho, ele acredita ter realizado a gravação perfeita da Segunda Sinfonia – a única que respeita, ponto por ponto, as intenções do autor. O registro aconteceu em dezembro, quando Kaplan viajou à Áustria para reger a Filarmônica de Viena. O trunfo do mahlermaníaco é uma partitura especial, que incorpora correções manuscritas feitas pelo compositor depois da primeira execução da obra, no fim de 1895. Essas mudanças, de acordo com Kaplan, jamais foram levadas em conta pelos regentes da Segunda – uma lista que inclui os celebrados Leonard Bernstein, Claudio Abbado e sir Simon Rattle. "Nos ouvidos de Mahler, a obra devia soar exatamente como nos concertos que eu realizei em Viena", diz Kaplan.

O primeiro contato de Gilbert Kaplan com a Segunda Sinfonia deu-se em 1965. Ele era jornalista econômico, incapaz de distinguir um ré de um dó. A convite de um amigo, foi assistir a um ensaio da Orquestra Sinfônica Americana. "Ainda tento encontrar palavras para definir o que senti quando a música começou. Na hora decidi que aquela obra direcionaria a minha vida." E assim foi, muito embora Kaplan também tenha gasto alguma energia amealhando uma fortuna. Ainda nos anos 60, ele ganhou seu primeiro milhão de dólares na Bolsa. Pouco depois, criou a Institutional Investor, que se tornou uma espécie de bíblia do mercado financeiro. Quando a revista foi vendida, em 1984, ele embolsou 100 milhões de dólares.

Antes de desfazer-se de sua revista, Kaplan já havia encasquetado com a idéia de reger a Segunda. Preparou-se tomando aulas de regência durante um ano e meio. Depois, gastou 200.000 dólares no aluguel do Avery Fisher Hall (casa da Filarmônica de Nova York) e no cachê da Orquestra Sinfônica Americana. Distribuiu convites para os funcionários da Institutional Investor e, em setembro de 1982, subiu ao pódio. Para surpresa de todo mundo, a apresentação foi um sucesso mesmo entre quem não recebia salário de Kaplan. Os críticos presentes gostaram do concerto e incentivaram o milionário a continuar regendo. Ele, então, decidiu entregar-se definitivamente a sua paixão musical.

Hoje em dia, Kaplan dá aulas – sobre Mahler, é claro – na prestigiadíssima Juilliard School, de Nova York. E atravessa o mundo sempre que se apresenta uma oportunidade de reger. "Pela Segunda, nem cobro cachê. Basta bancarem os custos que vou." Sua saga mahleriana registra inclusive duas passagens pelo Brasil, em 1985 e 1987. E ele se anima: "Ouvi dizer que há uma sala de concertos nova em São Paulo. Não querem incluir a Segunda na programação?". Kaplan possui uma coleção de objetos de Mahler. Adquiriu sua baqueta, o único anel com que o músico austríaco presenteou sua mulher, Alma, e os famosos manuscritos anotados da Segunda Sinfonia, a partir dos quais ele e a musicóloga austríaca Renate Stark-Voit estabeleceram a partitura "legítima" da obra.

Como regente, Kaplan está longe de contar com o talento e a imaginação de um Bernstein ou de um Abbado. Mas foi a sua gravação da Segunda Sinfonia, realizada em 1988 com a Orquestra Sinfônica de Londres, que vendeu 175 000 cópias – o maior sucesso na discografia de Mahler. Nem assim o milionário escapa das alfinetadas. "Se Dom Quixote tivesse virado o rei da Espanha, não teria sido um êxito maior – e mais improvável", ironizou o crítico inglês Noman Lebrecht. O registro de seu concerto com a Filarmônica de Viena deverá chegar às lojas no início de outubro, pelo tradicional selo Deutsche Grammophon, e certamente causará uma discussão danada no meio da música erudita. "Há passagens muito mais precisas nessa versão do que nas anteriores", diz Renate Stark-Voit. Gilbert Kaplan faz barulho com a sua obsessão pela Segunda Sinfonia.

 

De batuta contra o machismo


Divulgação
Marin Alsop: a primeira mulher a ser designada para chefiar uma grande orquestra inglesa


Ex-professor de Claudio Abbado e Zubin Mehta, entre outros maestros do primeiro time, o regente húngaro Hans Swarowsky (1899-1975) tinha uma opinião bastante firme sobre a contribuição que as mulheres poderiam dar à música erudita: "Elas são mais úteis na cozinha". Engana-se quem imagina que esse é um preconceito já superado. Excetuadas as divas do canto lírico, mulheres ainda enfrentam todo tipo de barreira para conseguir espaço nesse universo. Em 1996, por exemplo, o governo austríaco anunciou que cortaria as verbas da centenária Filarmônica de Viena caso ela não derrubasse sua política explicitamente machista de contratação de músicos. A orquestra lutou sete anos antes de curvar-se. Só na semana passada, anunciou a admissão de uma mulher em suas fileiras – a violista Ursula Plaichinger. Embora esse seja um caso extremo, a maioria das grandes orquestras do mundo tem proporção muito baixa de instrumentistas mulheres – em geral, algo em torno de um terço. Se há poucas mulheres empunhando instrumentos, o que dizer então daquelas que empunham batutas? Podem-se contar nos dedos as maestrinas de renome: a veterana inglesa Jane Glover, a galesa Sian Edwards, a americana Marin Alsop. Esta última é responsável pela maior proeza. Ex-pupila de Leonard Bernstein e atual diretora musical da Sinfônica do Colorado, nos Estados Unidos, ela tornou-se no fim do ano passado a primeira mulher a assumir a chefia de uma orquestra inglesa de renome, a Sinfônica de Bournemouth. No Brasil, podem-se citar dois nomes (além do de Chiquinha Gonzaga, que regia as próprias obras no século XIX): Lígia Amadio e Érika Hindrikson.

Argumentos ridículos costumam ser empregados para justificar o veto a mulheres nas orquestras. O principal, claro, é que elas seriam "frágeis" – incapazes de resistir às pesadas cobranças dos maestros mais famosos e mais ainda de impor respeito aos músicos no caso de ousarem reger. A trajetória de Jane Glover basta para refutar essa idéia. A maestrina, que já gravou com a Royal Philarmonic Orchestra da Inglaterra e comandou diversos conjuntos de câmara, certa vez degolou metade dos integrantes de um conjunto que refugou sob seus comandos. Marin Alsop também já se tornou conhecida pela firmeza, enquanto uma revelação recente, a venezuelana Natalia Luis-Bassa, exercita um método misto. "Minha primeira abordagem é sempre o sorriso. Se não funciona, não hesito em jogar pesado", diz ela. No ano passado, Natalia foi finalista de um concurso realizado pelo regente americano Lorin Maazel para escolher pupilos. Ele viajou pelo mundo e testou mais de 300 músicos. Escolheu Natalia e uma outra mulher – a chinesa Xian Zhang. "Elas são excepcionais. Talento não tem nada a ver com sexo", diz Maazel, constatando o óbvio.



   
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