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No
mundo da fantasia
Fãs de quadrinhos japoneses
usam codinome
oriental e imitam
seus personagens favoritos
Thaís
Oyama
Fotos Antonio Milena
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| A
caminho do festival: garotas vestidas como personagens dos quadrinhos
reproduzem heroínas meigas, modestas e magras |

Veja também |
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No
Japão, "otaku" é sinônimo de menino-problema. Um tipo
esquisitão que não tem amigos e passa o tempo todo dedicado
obsessivamente a um determinado passatempo. No Brasil, a palavra ganhou
sentido bem mais festivo. É usada para designar uma tribo urbana
formada por meninos e meninas de cabelos espetados, carregados de chaveirinhos
coloridos nas mochilas e unidos por uma paixão comum: mangás,
os quadrinhos japoneses repletos de onomatopéias, bons sentimentos,
cortes em primeiro plano e personagens de olhos imensos e coração
mole.
Otakus, na versão brasileira, têm um fraco por tudo que soe
vagamente japonês, conhecem as medidas e o tipo de sangue de seu
personagem favorito e, em ocasiões especiais, não se contentam
em vestir-se como ele. Andam, falam e se comportam tal e qual seus heróis.
A estudante de computação gráfica Suzy Costa, 26
anos e um figurino talhado para se destacar entre os 10.000 participantes
que compareceram ao encontro de mangamaníacos realizado em São
Paulo na semana passada, gastou dias treinando o passo sereno e a fala
pausada de sua personagem predileta, Motoko, a brava lutadora de quendô
de Love Hina. A produção caprichada incluiu um hakama
(calça de luta) feito sob medida para ela e um bokken (espada de
madeira) comprado no bairro paulistano da Liberdade. Suzy é uma
otaku-modelo. Diz pensar em mangás e animes, como são chamados
os desenhos animados japoneses, "24 horas por dia". Embora não
tenha ascendência oriental, costuma pontuar suas frases com expressões
japonesas e só se apresenta como Su-Chan (o sufixo "chan", acoplado
a nomes próprios, faz com que eles fiquem no diminutivo: algo como
Suzinha, neste caso). O estudante Ricardo Cruz, de 21 anos, outro otaku
apaixonado, foi mais longe. Aos 17 anos, conseguiu convencer os pais a
deixá-lo morar por um ano no Japão. Aprendeu a língua
e hoje, orgulhosíssimo, já pode ler os quadrinhos no original.
Ricardo é presença garantida nos encontros de fanáticos
por animes: montou um grupo de cantores de karaokê cujo repertório
é inteiramente composto de músicas de seriados japoneses.
O maior hit da banda é Ore wa seigi da! Jaspion (ou Meu
nome é justiça! Jaspion), tema de abertura da série
que fez sucesso no Brasil no fim dos anos 80. Os primeiros acordes da
canção são suficientes para levar alguns otakus às
lágrimas.
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| Reunião
de otakus: dos muito jovens
aos eternos adolescentes |
Ao
contrário dos seriados japoneses, velhos conhecidos do público
brasileiro, os mangás são fenômeno recente por aqui.
Antes restritos a uns poucos iniciados, estão hoje disseminados
por várias faixas etárias, dos muito jovens, que já
nasceram acostumados a esse universo através dos desenhos animados
da TV, aos que relutam em deixar a adolescência. As duas principais
editoras de quadrinhos japoneses do país, a JBC e a Conrad, colocam
nas bancas 1 milhão de exemplares por mês. Dragon Ball,
o título de maior sucesso entre adolescentes, vende 150.000 cópias.
A saga de Goku, o extraterrestre ingênuo que tem por missão
defender a Terra, é criação de Akira Toriyama, um
dos mais famosos desenhistas de mangás do Japão. Mistura
de Walt Disney com J.D. Salinger, o venerado, recluso e ligeiramente amalucado
Toriyama já tem até fã-clube no Brasil.
Os enredos dos gibis não mudam muito: são, basicamente,
a glorificação das qualidades mais admiradas no Oriente.
Os heróis se vêem diante de obstáculos aparentemente
intransponíveis e sofrem até perceber que só por
meio da perseverança e da união com o próximo vencerão.
A maioria das histórias dedicadas às meninas segue a mesma
linha e é de dar urticária em qualquer feminista,
com heroínas sempre meigas, magras e modestas. Além, claro,
de prontas a se sacrificar em nome dos outros. As personagens femininas
em geral têm traços delicadamente erotizados, com sainhas
curtas e decotes instigantes, o que ajuda a explicar sua popularidade
junto ao público às voltas com os fragores da puberdade.
Ao contrário dos similares americanos, nem todos os personagens
de mangás vivem na esfera intergaláctica, travam batalhas
em cidades do futuro ou são dotados de superpoderes. Pelo contrário,
muitos se caracterizam pela banalidade de suas existências. São
meninas que se apaixonam por professores, meninos que não conseguem
passar no vestibular e funcionários públicos que têm
medo da mulher e fazem reverências ao chefe toda vez que tomam bronca
dele. Para a pesquisadora Sonia Bibe Luyten, autora do livro Mangá,
o Poder dos Quadrinhos Japoneses, é essa humanidade dos heróis
japoneses um dos principais motivos do sucesso dos mangás. "Os
personagens vêm do universo real. São tímidos, atrapalhados
e míopes", diz. "Todo mundo se identifica com eles."
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Você
é um otaku quando...
Conhece as medidas, o sotaque, os trejeitos e até o tipo
de sangue do seu personagem preferido (informação
que, para os japoneses, equivale ao signo de cada um), como a estudante
Suzy Costa
Em conversas com amigos, pontua as frases com expressões
usadas pelos heróis de mangás, como "orô?" (para
expressar dúvida) ou "hoyoo!" (para mostrar surpresa)
Sabe cantar, inteirinha e em japonês, a música Dan
Dan Kokoro Hikareteku, tema de abertura da última série
de Dragon Ball
Monta um site, escreve cartas e organiza fóruns na internet
para protestar contra o fato de, num determinado episódio
da série Cavaleiros do Zodíaco, o personagem
Hyoga ter usado um golpe batizado de Raio de Gelo, quando todo mundo
sabe que o seu preferido é o invencível Pó
de Diamante
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