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Edição 1 787 - 29 de janeiro de 2003
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Rogério Montenegro
Sala do Cinemark: em apenas cinco anos, a rede americana tornou-se líder disparada no Brasil

As salas confortáveis, com ar
condicionado e som de primeira,
espalham-se pelo interior do Brasil
e ajudam a atrair aos cinemas
o maior público em uma década

Adriana Carvalho


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Conforto e tecnologia

Contrariando todas as expectativas, o público de cinema no Brasil saltou de 74 milhões em 2001 para 90 milhões em 2002. O crescimento foi de 21%. É o maior número já registrado nos últimos dez anos. O faturamento acompanhou o mesmo ritmo e alcançou 529,5 milhões de reais, um avanço de 25% em relação ao ano anterior. Muitos analistas calculavam que, com o barateamento e a explosão da venda de televisores, videocassetes e, mais recentemente, de DVDs e de equipamentos de home theater, os brasileiros iriam com menos freqüência ao cinema. Contavam também com a competição da popularização da internet como mais um fator para afastar os espectadores das salas de exibição. Os analistas erraram feio. O que salvou o negócio de exibição de filmes foi a revolução de conforto, que levou à construção de centenas de novas salas de cinema em todo o Brasil. Simplesmente as tecnologias domésticas ainda não conseguem reproduzir em casa as experiências sensoriais de uma sessão de cinema numa moderna sala de exibição, como as que se espalharam pelo Brasil nos últimos anos.

Esse foi o grande fenômeno. "Por melhor e mais esperado que fosse um filme, era difícil ter casa lotada por causa da falta de conforto e da tecnologia ultrapassada", diz Paulo Sérgio Almeida, diretor da Filme B, empresa de análise do mercado de cinema. Essa realidade começou a mudar com a entrada de grandes grupos estrangeiros no mercado brasileiro, a partir da metade da década de 90. Construíram novas salas, as chamadas multiplex. Com cada fileira de cadeiras num nível, a visão da tela só é atrapalhada se alguém com a estatura de Shaquille O'Neal, o astro do basquete americano, sentar-se na frente, algo extremamente improvável. Os estrangeiros trouxeram também a tendência de aumentar o tamanho dos assentos. Nas melhores salas eles são reclináveis e têm espaço especialmente recortado no braço da poltrona para colocar refrigerantes e guloseimas. Investiram em projetores de filmes mais modernos e na tecnologia do som digital, a mais moderna disponível hoje em dia. Criaram uma rede de serviços que vai da venda de pipoca à comodidade dos ingressos antecipados. Ao optar por instalar os novos cinemas dentro de shopping centers, ofereceram também segurança aos espectadores.

O Cinemark – o terceiro grupo no ranking americano – tornou-se o maior exibidor do Brasil, com 264 salas e um faturamento que em 2002 chegou a 200 milhões de reais. Para os grupos estrangeiros, a atração do mercado brasileiro vai além dos resultados de 2002. Todos miram no potencial de crescimento. O sucesso dos grupos estrangeiros no Brasil mexeu com os concorrentes nacionais. A corrida para instalar novas salas foi inevitável. O mais tradicional exibidor brasileiro, com 86 anos de história, teve de adequar sua estratégia para não ser varrido do mapa pela concorrência estrangeira. Severiano Ribeiro fez associações internacionais e correu atrás das inovações. Hoje o grupo, que exibiu o primeiro filme falado no Brasil, no fim dos anos 20, se vangloria de operar em uma de suas salas um equipamento de projeção digital. Mesmo nos Estados Unidos são raras as salas dotadas de projetores digitais, em que as velhas bobinas de filmes são substituídas por discos ópticos de grande capacidade ou por outro meio digital de gravação. Além da preocupação de estar na vanguarda das inovações tecnológicas, os exibidores de cinema estão levando o conforto, antes restrito às salas das capitais, ao interior do país. "Os exibidores estão investindo no desbravamento dos mercados do interior e das capitais do Nordeste", diz José Carlos Oliveira, diretor executivo da UCI no Brasil, a terceira na lista dos maiores exibidores. Assim como o Cinemark, a UCI chegou em 1997 ao Brasil.

 
Ag. Folha
Cine Paramount, em São Paulo, nos anos 50: o conforto e a tecnologia só chegaram há poucos anos

Outra previsão errônea dava conta de que os pequenos exibidores tenderiam a desaparecer pela entrada no mercado de concorrentes estrangeiros, com mais dinheiro e alta tecnologia. Pois os pequenos não apenas sobreviveram como cresceram e aderiram às inovações tecnológicas. Eles dominam o mercado em cidades com menos de 250.000 habitantes e nos bairros de periferia das capitais, praças que não interessam aos grandes exibidores. Um exemplo é o grupo São Luiz de Cinemas, que tem 28 salas no interior de São Paulo e de Minas Gerais. "Antes precisávamos batalhar um espaço dentro dos shoppings. Hoje são eles que correm atrás da gente", explica Marcelo Jorge de Lima, diretor da rede. Assim como acontece nos shoppings das grandes capitais, os estabelecimentos do interior se deram conta de que os bons cinemas trazem público não só para os filmes, mas também para as compras. Por isso, costumam oferecer aos exibidores a construção do esqueleto das salas em troca de uma porcentagem na bilheteria.


O mercado americano, o maior do mundo em faturamento, também teve um ótimo 2002. No ano passado, o setor faturou 9,2 bilhões de dólares, ou 10% a mais que em 2001, a taxa mais alta em doze anos. O público também aumentou e chegou a 1,5 bilhão de espectadores. "A razão do renascimento do cinema é simples. Os filmes melhoraram e as salas ficaram mais confortáveis", diz Paul Dergarabedian, presidente da Exhibitor Relations, empresa de Los Angeles especializada em estudos estatísticos sobre a indústria cinematográfica. Pelo que dizem os números, o potencial do mercado brasileiro é muito grande. O México tem uma sala de cinema para 37.000 habitantes. O Brasil tem uma para 105.000 habitantes.

 
Massao Goto Filho
Lucas Digital Sound
À esquerda , o presidente da Cinemark no Brasil, Valmir Fernandes. Ao lado, Jerry Steckling, da Lucas Digital: novas tecnologias

O mercado americano é o laboratório de inovações. É também onde as tecnologias se tornam populares. As telas Imax, que podem ter altura equivalente à de um prédio de oito andares, antes eram raras nos Estados Unidos. Agora estão espalhadas por dezenas de cidades de grande porte. A Lucas Digital, a companhia do mago do cinema George Lucas, é uma das que mais apostam na digitalização dos filmes e das salas para atrair e manter o público. A empresa de Lucas, criador da série Guerra nas Estrelas, ajudou a desenvolver o sistema de som EX, da Dolby. Esse sistema tem um canal de som extra, localizado na parte de trás da sala. Dessa maneira, os produtores conseguem efeitos sonoros que envolvem o espectador e acompanham mais realisticamente as cenas. "O controle sobre o som é hoje tão perfeito que temos de simplificá-lo um pouco, de modo que o espectador se lembre de que está numa sala de cinema, e não metido numa situação real", diz Jerry Steckling, engenheiro de som da Lucas Digital.



 
 
   
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