| Fale conosco |
| Ajuda |
| Mapa do site |
![]() |
|
|
Crie seu grupo |
Diabetes o inimigo ocultoA
doença causada pelo excesso
Karina Pastore e Paula Neiva
O diabetes costuma ser uma doença que avança lenta e sorrateiramente. Quando os primeiros sintomas aparecem pode ser tarde demais. Infarto, derrame, insuficiência renal, cegueira, paralisia, amputação de pernas ou pés e impotência sexual estão entre os seus efeitos mais devastadores. As proporções desse mal já são epidêmicas. Em 1985, as vítimas do diabetes somavam 30 milhões em todo o mundo. Hoje, são mais de 170 milhões. Se esse ritmo de crescimento se mantiver, o diabetes não demorará a se tornar a principal causa de morte nos cinco continentes. No Brasil, o cálculo é que haja 10 milhões de diabéticos. Metade deles não sabe que está doente (veja os sintomas abaixo). Entre os que receberam o diagnóstico, quase um quarto não se submete a nenhum tipo de tratamento. Deixado a seu próprio curso, o diabetes reduz a expectativa de vida do paciente em até sete anos. A enfermidade tem um peso importante na maior causa de óbitos por doença no país, os distúrbios cardiovasculares. O diabetes surge de um defeito num dos processos mais vitais ao ser humano: o metabolismo da glicose, um tipo de açúcar. Combustível para os mais de 100 trilhões de células do organismo, a glicose é obtida a partir dos alimentos, especialmente os carboidratos. Depois de digeridos, pães, massas, doces e tubérculos, como a batata, são transformados basicamente em glicose. Pela corrente sanguínea, ela chega às células. Para entrar em cada uma delas e fornecer a energia necessária para o bom funcionamento do corpo humano, a glicose precisa de uma espécie de chave, o hormônio insulina. Produzida pelo pâncreas, numa pessoa sadia, a insulina acompanha os altos e baixos das taxas de glicose a que o organismo está sujeito durante o dia e a noite. A harmonia precisa ser perfeita. Quando ela não existe, o diagnóstico é de diabetes. Por falta completa ou parcial de insulina, esse açúcar não tem como entrar nas células e fica concentrado no sangue. O excesso pode provocar danos graves aos vasos sanguíneos e comprometer todos os órgãos e tecidos do corpo (veja quadro). Há duas versões da doença. Responsável pela minoria dos casos, o diabetes tipo 1 é a mais agressiva delas. Por motivos ainda não totalmente esclarecidos, o sistema imunológico ataca e destrói as células pancreáticas produtoras de insulina, as ilhotas de Langerhans. A produção de insulina é completamente interrompida. Antes chamada de "diabetes juvenil", por se manifestar sobretudo no início da puberdade, a doença impinge a suas vítimas uma rotina penosa. Elas têm de tomar várias picadas de agulha durante o dia, para medir as taxas de glicose no sangue e injetar insulina. Sem as doses de hormônio artificial, elas simplesmente não sobrevivem. É o diabetes tipo 2, no entanto, que mais preocupa os médicos. Sua incidência cresce assustadoramente. No passado, a doença se manifestava somente em pessoas com mais de 45 anos e, por isso, era conhecida pelo nome de "diabetes senil". Atualmente, ela aparece em quem está na faixa dos 30 anos e já há muitos registros de jovens e adolescentes que apresentam o problema. O diabetes tipo 2 evolui sem dar o menor sinal de sua presença. No início da moléstia, o pâncreas mantém a produção de insulina como de hábito. Aos poucos, no entanto, as células adiposas e musculares tornam-se resistentes à ação do hormônio. Com isso, os níveis de glicose no sangue aumentam. Para compensar o excesso desse açúcar, o pâncreas incrementa a fabricação de insulina, por meio das tais ilhotas de Langerhans. Mas há um limite para isso. "A produção compensatória de insulina não se mantém indefinidamente, porque, conforme o diabetes avança, o número de células secretoras do hormônio diminui", explica o endocrinologista Freddy Goldberg Eliaschewitz, pesquisador da Universidade de São Paulo. Uma pessoa sadia possui de 1 milhão a 1,5 milhão de ilhotas de Langerhans. Quando essa quantidade é reduzida à metade, fica impossível manter uma secreção de insulina suficiente para controlar os níveis de glicose. Por isso, é inevitável que a maioria dos pacientes do diabetes tipo 2 tenha de recorrer a mecanismos artificiais de reposição de insulina. Cinco anos depois dos primeiros sintomas da doença, metade já é obrigada a usar as injeções. "Embora sejam capazes de equilibrar a quantidade de glicose por um tempo às vezes bastante longo, os remédios disponíveis não conseguem impedir a progressão do diabetes tipo 2", afirma o médico Eliaschewitz. A descoberta de uma substância que aumentasse o número de células secretoras de insulina representaria a cura do diabetes. Isso ainda está longe de acontecer, mas há uma boa notícia nesse terreno. Coordenada pela bioquímica Mari Sogayar, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, uma equipe de cientistas brasileiros e italianos descobriu que o veneno do escorpião tem o poder de multiplicar as ilhotas de Langerhans. A novidade acaba de ser publicada no Journal of Investigative Medicine, revista científica da Federação Americana de Pesquisa Clínica. Os estudos começaram há cerca de cinco anos, quando, ao analisar o pâncreas de um homem morto, em Minas Gerais, vítima de picadas de escorpião, os pesquisadores notaram uma proliferação anormal das células produtoras de insulina. Eles resolveram verificar, então, se o veneno continha uma substância capaz de estimular a multiplicação das ilhotas. Os estudos concluíram que sim. O próximo passo é isolar, entre os componentes da peçonha do escorpião, aquele que estimula o aumento das células que secretam insulina. Dessa forma, será possível fabricar um medicamento que impeça a progressão do diabetes e, quem sabe, o cure. Outra promissora frente de pesquisas é o transplante das ilhotas de Langerhans, indicado para o tratamento dos diabéticos tipo 1. Apenas treze centros no mundo estão aptos a realizar o procedimento. No ano passado, o Brasil entrou para esse clube seleto, do qual fazem parte os Estados Unidos, a Inglaterra e o Canadá, entre outros. Em 1º de dezembro de 2002, sob a coordenação do doutor Eliaschewitz, foi realizado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, o primeiro transplante de ilhotas da América Latina. Por uma incisão de 2 milímetros no abdômen de Telma Mércia Rosário de Almeida, os médicos injetaram-lhe 252.000 ilhotas, que, extraídas de um pessoa morta, foram tratadas e purificadas em laboratório. Telma, uma administradora de empresas de 45 anos, é portadora do diabetes tipo 1 desde os 19. Seu tratamento ainda não acabou. Serão necessários mais dois transplantes para que ela possa um dia se livrar das injeções de insulina. De qualquer forma, já com a primeira cirurgia, o número de agulhadas diárias foi reduzido à metade (veja depoimento da paciente). O transplante das ilhotas de Langerhans é uma técnica que vem sendo testada desde a década de 70. Os melhores resultados começaram a ser obtidos a partir de 2000, em pesquisas realizadas na Universidade de Alberta, no Canadá. A grande diferença entre a cirurgia realizada no centro canadense e as demais está sobretudo no processo de purificação das ilhotas. As experiências de Alberta tornaram-se referência em todo o mundo. "Desde então, 189 transplantes foram realizados. Os resultados mais recentes apontam uma taxa de sucesso em torno de 80%, só no primeiro ano", diz a nefrologista Irene Noronha, professora da Universidade de São Paulo. Um dos inconvenientes do transplante é que o paciente precisa se submeter até o fim da vida a uma terapia imunossupressora, para evitar a rejeição. E os efeitos colaterais dessas drogas são pesados. Baixam a resistência imunológica, aumentando os riscos de doenças oportunistas, como infecções. Podem ainda aumentar os níveis do colesterol ruim e de triglicérides, fator de risco para doenças cardiovasculares. Além de ter um componente hereditário ainda mais forte do que o do tipo 1, o diabetes tipo 2 está muito relacionado a problemas da vida moderna, tais como sedentarismo, stress, obesidade e uma alimentação desregrada (veja quadro). Daí o seu crescimento vertiginoso nos últimos anos. A primeira opção de tratamento é equilibrar a dieta do paciente e colocá-lo para fazer ginástica. Pesquisas recentes da Associação Americana do Diabetes mostram que essa combinação é uma arma poderosa tanto no controle como na prevenção do mal. Médicos americanos acompanharam quase 3.500 pacientes pré-diabéticos por três anos. Ao término dos estudos, entre os homens e mulheres submetidos a uma dieta pouco calórica e pobre em gorduras e a uma rotina de meia hora de exercícios físicos, cinco vezes por semana, registrou-se uma redução de quase 60% no aparecimento de novos casos. O grande empecilho para o controle do diabetes tipo 2 é justamente a dificuldade da maioria de se engajar de verdade num estilo de vida saudável. Pesquisas mostram que menos da metade dos que se propõem a levar um cotidiano saudável continua firme em seu propósito ao fim de um ano. Se para uma pessoa sadia mudar o seu dia-a-dia não é fácil, imagine para um diabético, cujas mudanças têm de ser radicais e efetivas. Para agravar ainda mais o problema no Brasil, o diabético resiste a aderir ao tratamento com remédios. De cada 100, apenas sete usam insulina. Segundo os especialistas, esse contingente deveria ser, no mínimo, quatro vezes maior. "Os pacientes têm o conceito errado de que o uso de insulina artificial significa que a doença está em estágio avançado", diz a endocrinologista Denise Franco, do conselho consultivo da Associação de Diabetes Juvenil. Quanto mais se adiam o diagnóstico e o tratamento, pior é. No Brasil, a doença tende a ser descoberta entre sete e doze anos depois de instalada. Não é raro o diagnóstico ser feito no pronto-socorro, durante um atendimento de emergência. Descrito pela primeira vez no século II, o diabetes só começou a ser desvendado no início do XX. Em 1921, os médicos canadenses Frederick Banting e Charles Best isolaram a insulina em laboratório. Esperava-se que a descoberta fosse a solução para a difícil equação do diabetes. Extraído de bois, o hormônio começou a ser usado em seres humanos. A terapia, porém, causava sérias reações alérgicas. Foi, então, substituída pelo tratamento com insulina de porcos. Apesar de mais parecida com o hormônio humano, a substância ainda apresentava efeitos colaterais que limitavam o seu uso. A grande revolução só viria na década de 80. Graças à engenharia genética, foi possível produzir em laboratório uma insulina muito semelhante à humana. Mas a nova substância não acompanha as oscilações naturais dos níveis de açúcar no organismo. Ou seja, é preciso que o próprio paciente monitore seus índices de glicose e determine quando e quanto injetar de insulina. Até bem pouco tempo atrás, a única forma de evitar os picos de glicose era determinar com exatidão o horário da refeição e aplicar a insulina quarenta minutos antes. Para facilitar a vida dos doentes, foram criadas insulinas ultra-rápidas. Em vez de demorarem quase uma hora para fazer efeito, elas começam a agir em apenas cinco minutos. Isso permite que o paciente tenha mais liberdade para almoçar e jantar. As bombas de infusão são outra opção às constantes injeções de insulina. Do tamanho de um pager, podem ser usadas no cinto ou no bolso do casaco. O dispositivo é programado para liberar quantidades predeterminadas de insulina. A engenhoca liga-se ao corpo do paciente por intermédio de uma agulha inserida no seu abdômen ou coxa. O hormônio é despejado no organismo por um pequeno tubo plástico. Um dos maiores desafios da ciência é dar fim às agulhadas. Não existe, porém, tecnologia capaz de criar uma insulina em comprimido. Em contato com o trato gastrointestinal, a insulina torna-se inócua. Em breve serão lançadas versões do hormônio que prometem diminuir ainda mais a necessidade de injeções. Até o fim do ano, chega ao Brasil a Lantus. Produzida pelo laboratório Aventis Pharma, ela é uma insulina que atua por aproximadamente 24 horas, sem picos de atividade. Ou seja, ao longo de um dia, o desempenho do remédio mantém-se estável. A Lantus já foi aprovada nos Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra. Dentro de no máximo cinco anos, está prevista a chegada ao mercado das duas primeiras insulinas inaláveis, a Exubera, também da Aventis Pharma e da Pfizer, e a Aerx, do Novo Nordisk. A primeira virá sob a forma de pó e a outra será líquida. Bilhões de dólares são investidos na pesquisa de remédios e no desenvolvimento de novos artefatos que melhorem a vida dos diabéticos. Mas, se é impossível prevenir o diabetes tipo 1, continua relativamente barato afastar a ameaça do tipo 2. Bastar estar atento aos sinais do corpo e adotar hábitos saudáveis.
|
|
|