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Edição 1 787 - 29 de janeiro de 2003
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Surfistas de butique

A roupa dos esportistas da
prancha sai da praia, invade
as ruas e chega às passarelas

Bel Moherdaui

 
Fotos Pedro Rubens

Elásticos e tênis sem cadarço, dégradé na estampa e jeans bicolor: surfe sem prancha. Camisão florido, não: para as meninas, quanto mais justo e curto, melhor

Cabelo parafinado, pele bronzeada, bermuda colorida, camisão de hibiscos. Até as pessoas mais indiferentes à moda já devem ter notado como o inconfundível estilo dos surfistas, antes restrito à areia e adjacências, invadiu as ruas, os shopping centers e as casas noturnas, como opção preferencial da moçada mais jovem. Em temporadas mais recentes, o estilo chamado surfwear e suas principais características – a cintura baixa, o franzido ajustável com elástico à mostra, os recortes anatômicos e o neoprene, tecido feito para usar na água – foram se disseminando até pousar, como era de prever, nas passarelas. Nos desfiles de primavera-verão europeus, em outubro passado, teve neoprene (Prada e Louis Vuitton), desenhos florais (Miu Miu), estampas de fundo do mar (Balenciaga) e até pranchas carregadas pelas modelos (Chanel). No Brasil, com cultura própria em matéria de praia e ondas, a influência do surfe estende-se inclusive às roupas de inverno: na São Paulo Fashion Week, que acontece nesta semana, uma das novidades é a Osklen, marca carioca em tudo e por tudo identificada com o surfe. Outra estreante, a paulista Uma, aderiu ao neoprene em conjuntos com cara de mergulho, traço também presente nas calças masculinas desenhadas pelo estilista Mario Queiroz. André Lima, com suas labaredas em dégradé, e a mineira Patachou, com seus micros recortados, também atestam o sopro da mesma brisa. "O surfe é a juventude na moda, é esporte, natureza, saúde – tudo o que as pessoas querem", entusiasma-se Mario Queiroz.

A tendência, tal como é agora, não tem nada a ver com a prática do esporte: o surfe-chique é puro reflexo do surfe-shopping center, e em ambos os casos a maioria dos consumidores nem pensa em pegar onda. "Entre os meus clientes, os surfistas são minoria", diz Napoleão Fonyat, da marca carioca Sandpiper. O mesmo acontece com a Star Point, uma rede de lojas multimarcas que tem franquias em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. Na matriz, que é uma loja de rua, os surfistas representam 60% do público. Já nos pontos-de-venda em shopping, cerca de 90% nunca enfrentaram o mar sobre uma prancha. Esse público todo alimenta um mercado de 1,2 bilhão de dólares anuais servido por cerca de 500 grifes, segundo dados da Waves, organizadora de quatro feiras do setor, que atraíram no ano passado 35.000 visitantes.

Mas, afinal, o que é o surfwear? "A origem é óbvia: os surfistas precisavam de uma roupa que funcionasse bem para a prática do esporte. Já a disseminação é curiosa: os próprios surfistas começaram a abrir lojinhas e vender para todo mundo, como forma de sobreviver sem sair de seu meio", diz o empresário Dimitrius Nassyrios, o "Tucano", dono da Star Point – e surfista, claro. O lema é juventude e descontração, com toques provenientes de mecas surfísticas, como o Havaí e a Indonésia. Os principais elementos são as bermudas compridas e coloridas, as estampas florais e praianas, o dégradé, acabamentos coloridos, o corte reforçando as formas do corpo, mistura de cores fortes, tie dye (manchado) e desenho de pranchas e de silhuetas em preto. Feito para meninos, o surfwear, da mesma forma que o próprio surfe, caiu no gosto das meninas, que passaram a usar as jaquetas, os bonés e o que mais lhes coubesse e trouxesse gravado o símbolo da marca cobiçada. Estas, claro, se adaptaram rapidinho, criando um surfwear feminino que passa longe do camisão largo: ele evidencia o corpo com roupas bem justas e curtas. Vitoriosa, a moda surfe é vendida em cerca de 13.000 lojas espalhadas pelo Brasil. Na maioria, prancha é só decoração.

 

Senhora dos pés

Havaianas, legítimo produto da Camargo Corrêa

Fora dos meios especializados, pouca gente sabia: as sandálias Havaianas são controladas por uma empreiteira. A ligação se consolidou na semana passada, quando o grupo Camargo Corrêa, comandado por uma das maiores construtoras do Brasil, se tornou dono da São Paulo Alpargatas, fabricante de um dos chinelos de borracha mais vendidos no planeta. A Camargo Corrêa já era o maior acionista individual da Alpargatas, mas, ao comprar a parte do Bradesco no negócio, elevou sua participação para 61,26% e assumiu controle pleno. Fundada em 1907, a Alpargatas fabrica marcas conhecidas, como Rainha e Topper. Mas seu carro-chefe são mesmo as Havaianas, um fenômeno de vendas, de sobrevivência, de estilo e de ascensão social: de calçado por excelência da população de baixa renda, a sandália de borracha migrou para os pés dos surfistas e gatinhas de praia e acabou conquistando um lugar nos closets da elite. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso já foi fotografado usando um par. A modelo Gisele Bündchen também usava, mas parou ao ser contratada por uma empresa concorrente. Em 41 anos, já foram vendidos 2,5 bilhões de pares de Havaianas. "Trata-se de um caso de amor que nem nós compreendemos totalmente", diz o diretor de marketing da Alpargatas, Rui Porto. A virada fashion se deu em 1994, quando a empresa ampliou a oferta de cores e resolveu investir pesado em publicidade. Hoje, as Havaianas são exportadas para 46 países – 11 milhões de pares no ano passado. Podem ser compradas em Paris, nas Galeries Lafayette, e freqüentam pés de modelos como Naomi Campbell e Kate Moss. Em resumo: o chinelo para lavar quintal ficou muito chique.



   
 
   
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