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Edição 1 787 - 29 de janeiro de 2003
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A arma supersecreta

Prontos para ir à guerra sem
o apoio da ONU, os Estados Unidos
podem testar contra o Iraque
a bomba de microondas


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A bomba de microondas
Na internet
Especial EUA contra Iraque

O vilão da história deveria ser Saddam Hussein. O ditador do Iraque invadiu dois países (Irã e Kuwait), usou gases venenosos para massacrar a minoria curda e, suspeita-se, esconde com propósitos malignos armas de destruição em massa. O malvado internacional do momento, no entanto, é o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. A razão é sua insistência em fazer a qualquer custo a guerra contra o Iraque, apesar da relutância do restante do mundo. Na segunda-feira 27, os inspetores da ONU encarregados de procurar arsenais de armas de destruição em massa no Iraque vão apresentar ao Conselho de Segurança das Nações Unidas o primeiro relatório sobre o levantamento que fizeram. Devem informar que não encontraram as provas da existência de arsenais clandestinos e pedir prazo maior para investigar. Dois dias depois, o Conselho decidirá o que fazer. Os americanos gostariam de obter logo o respaldo da organização para um ataque militar ao Iraque. Se for no voto, os Estados Unidos perdem com certeza. A maioria dos quinze países que compõem o órgão máximo da ONU está disposta a conceder mais tempo aos inspetores. Na semana passada, numa reunião entre seus chefes de Estado, a França (que tem direito de veto no Conselho) e a Alemanha anunciaram que não vêem justificativa para a guerra. Sem se importar, Bush deixou claro que está disposto a correr todos os riscos para cumprir a promessa de varrer do poder – e logo – seu desafeto iraquiano. Com ou sem a aprovação da ONU.

 
AFP
Montagem com fotos de Bush e Blair em Londres: protestos em todo o mundo

Bush parece ter optado pelo caminho mais rápido para se livrar de Saddam. Sua estratégia é aproveitar a fragilidade militar do Iraque, que ainda não se recuperou da surra levada na Guerra do Golfo, em 1991, para liquidar rapidamente a fatura e, com isso, aplacar as críticas internas e externas à guerra. Para a Casa Branca, é preferível derrubá-lo já, antes que o ditador iraquiano se alie ao terrorismo islâmico ou adquira tecnologia nuclear para ameaçar os Estados Unidos e os países vizinhos – como a Coréia do Norte está fazendo agora. O Pentágono deverá usar contra Saddam suas armas mais sofisticadas, algumas que nem sequer foram testadas na campanha do Afeganistão, concluída há um ano. Uma vedete da nova geração do ultramoderno arsenal americano é a bomba de microondas – um segredo guardado a sete chaves pelo Pentágono que promete revolucionar a estratégia de combate. A bomba de microondas não é uma munição convencional, e sim uma arma de energia direta. Não abala prédios nem estruturas. O que faz é danificar circuitos eletrônicos, por meio da emissão de pulsos de energia eletromagnética. Queima equipamentos de comunicação e computadores, mesmo os que se encontram em locais fechados ou subterrâneos. Em teoria, pode inutilizar as armas químicas e biológicas, que dependem de equipamentos eletrônicos para ser utilizadas. Até o sistema de ignição dos tanques inimigos deixa de funcionar. Com isso, os iraquianos seriam privados de comunicação, veículos ou lançadores de foguete. Teriam de lutar às cegas, apenas com armas pessoais.

Alvos fixos não têm defesas contra uma arma como a bomba de microondas. Os EUA já desenvolveram sofisticados softwares, com mapas tridimensionais de Bagdá e de outras cidades iraquianas, com destaque para instalações militares e possíveis depósitos de armas químicas e biológicas. Com o auxílio de um GPS, o sistema de navegação por satélite, basta programar os ataques. Em tese, os pulsos emitidos pela bomba de energia não são letais para humanos. O nível de energia suficiente para danificar ou destruir um circuito eletrônico é menor que o mínimo necessário para queimar a pele de um ser humano. Mas, como a bomba de microondas nunca foi utilizada em situação de combate, seu efeito real é uma incógnita. Uma coisa sabida é que tem efeito devastador sobre marca-passos cardíacos e aparelhos hospitalares de sustentação da vida. Há dois tipos de bomba de microondas. A versão mais antiga libera energia através de uma explosão, mas seu foco não é preciso. Chamada de e-bomb, é ofertada por fabricantes russos em feiras internacionais de armamentos e pode ser transportada em mísseis teleguiados, como o Tomahawk.

 
Reuters
Soldados americanos em treinamento: concentração de tropas no Golfo

Já a arma ultra-secreta desenvolvida pelo Pentágono faz uso do mesmo princípio, mas emite um único feixe de energia. "É um raio de energia composto de três partes: um gerador, uma máquina para gerar a onda na freqüência desejada e uma antena para direcionar o feixe de energia", disse a VEJA o analista militar Loren Thompson, diretor do Instituto Lexington, um centro de estudos com sede em Washington. Por se propagar à velocidade da luz (300.000 quilômetros por segundo), atinge o alvo antes que o militar designado para acioná-la tenha tido tempo de tirar o dedo do gatilho. O flash de energia é invisível e gera 2 bilhões de watts – o suficiente para acender simultaneamente 20 milhões de lâmpadas de 100 watts. Seu poder de destruição é limitado a um raio de 300 metros, e parte da energia gerada é dissipada em sua trajetória até atingir o alvo. Tecnicamente, ela pode ser acionada do solo. Por motivos de segurança, tudo indica que a bomba será acoplada a um avião – os militares americanos temem que, se for disparada de um navio, a arma possa danificar os chips da própria embarcação.

A atual concentração de mais de 100.000 soldados americanos no Golfo Pérsico é um sinal de que o ataque é para breve. Uma autoridade americana, citada pelo jornal inglês The Guardian, diz que, no que se refere à data do início da guerra, "meses é uma palavra proibida". Em Washington "só se fala em semanas". Se uma nova guerra no Golfo parece iminente, os motivos para provocá-la ainda não convenceram nem mesmo aliados tradicionais dos Estados Unidos. O presidente americano afirma ter razões de sobra para derrubar o ditador de Bagdá – a quem considera uma fonte permanente de tensão no Oriente Médio desde que assumiu o poder, 23 anos atrás. Por enquanto, Bush conta apenas com o apoio de Inglaterra, Itália, Espanha e Austrália para dar início a uma ofensiva militar contra Saddam. A França ameaçou exercer seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU no caso de Washington tentar impor uma resolução propondo intervenção militar no Iraque. China e Rússia, que também fazem parte do Conselho de Segurança, já avisaram que preferem o caminho da negociação diplomática ao da guerra. O mesmo serve para os países árabes, sensíveis às turbulências que um novo conflito traria à região do Oriente Médio. Bush perdeu apoio a sua causa até mesmo nos Estados Unidos. Pesquisas mostram que sete em cada dez americanos só aprovam uma invasão do Iraque com respaldo da ONU. De quebra, Bush foi alvo de manifestações de protesto em várias regiões dos Estados Unidos – as maiores desde a Guerra do Vietnã. Mesmo assim, o presidente americano manteve a retórica belicosa. Mandou na semana passada mais 36.000 soldados para o Golfo e reforçou a pressão psicológica contra Saddam. Num recado inusitado aos militares iraquianos, Bush ameaçou julgá-los por crimes de guerra caso insistam em defender o Iraque durante a invasão americana. Não é à toa que Bush é o vilão da hora.

 
 
   
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