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O
mercado do poder
Os
partidos da base aliada seduzem
parlamentares que não "conseguem"
ser oposição e aumentam de tamanho
Malu Gaspar
Montagem sobre fotos de Ana Araujo, Nelio Rodrigues, José Paulo
Lacerda/AE
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| Bispo
Rodrigues, do PL: derrota na disputa com o PTB pelo passe de um parlamentar
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Costa
Neto, do PL: sigilo sobre a filiação de deputados para tentar evitar
concorrência |
Jefferson,
um dos pescadores do PTB: "Nós oferecemos expectativa de poder"
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Martinez:
depois de enfrentar denúncias na eleição, o petebista
volta à elite do Congresso |

Veja também |
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O
deputado José Carlos Martinez, do PTB paranaense, atravessa uma
grande fase. Há seis meses, como coordenador de campanha do então
candidato a presidente Ciro Gomes, o parlamentar viveu seu inferno astral.
Ao ter o passado revirado, descobriu-se que ele acumulava uma dívida
de 15 milhões de reais para com a Receita Federal, resultado dos
negócios nunca bem explicados com Paulo César Farias, o
caixa de campanha do ex-presidente Fernando Collor de Mello. O caso complicou
a campanha de Ciro e obrigou Martinez a sair de cena. Isso, ao que parece,
já virou coisa do passado. Martinez está de volta à
elite do Congresso. Ele tem trânsito livre no Palácio do
Planalto, cruza os corredores da Câmara sempre com um séquito
de deputados e jornalistas e fala com a autoridade de quem virou uma das
estrelas do Parlamento. Martinez e um grupo de mais dez deputados estão
exercendo a sedutora influência de ser governo para atrair colegas
e fortalecer seus partidos. Oferecem cargos, verbas e acesso aos palácios
e ministérios.
Em fevereiro, quando será empossado o novo Congresso, estima-se
que mais de cinqüenta deputados tenham trocado de legenda. Essa movimentação,
embora esdrúxula, sempre acontece e é motivada pela insatisfação
com as composições que emergiram das urnas. Há políticos
cuja sobrevivência depende exclusivamente da relação
que mantêm com o governo, seja ele qual for. Assim, pela tradição,
chega a soar como natural a corrida em direção aos partidos
que estão no poder. A troca acaba sendo boa tanto para o deputado
que se alimenta dessa proximidade como para os partidos que governam,
na medida em que ampliam a base de apoio necessária para votar
suas propostas. Com a eleição de Lula, em tese, a corrida
deveria ser em direção ao PT. Mas o partido tem critérios
rígidos para aceitar novos integrantes. A alternativa dos políticos
foi buscar abrigo nos partidos aliados do governo Lula PL, PTB,
PDT, PPS, PSB e PV. O PT partido não topa esse jogo de sedução,
mas o PT governo tem visto a migração com bons olhos e incentiva
o trabalho das lideranças aliadas.
"Nós
oferecemos expectativa de poder", explica o deputado Roberto Jefferson,
líder do PTB na Câmara, que faz dupla com José Carlos
Martinez. Até na estética se vê movimentação
para o lado do poder. O petebista Martinez passou a usar barba como os
petistas mais puros-sangues. Não é à toa. O PTB tem
chances de sair como o grande vitorioso nesse vai-e-vem. O partido, que
elegeu 26 deputados, contabilizava 34 na semana passada. Espera chegar
a fevereiro com 45. Seria um crescimento grande, maior que o do PL, o
partido do vice-presidente José Alencar, que até o final
da semana passada, por estratégia, não havia anunciado nenhuma
nova adesão. O líder do PL, Valdemar Costa Neto, determinou
que o partido só apresente seus novos integrantes no último
momento, para impedir avanços de outras siglas sobre seu rebanho
e evitar, assim, ser alvo de leilão por parte de quem quer valorizar
o passe. Nos bastidores, porém, a caça continua intensa.
O deputado Jair Bolsonaro, aquele que já defendeu o fechamento
do Congresso, elegeu-se pelo PPB e foi disputado pela tropa do PTB e pelo
bispo Rodrigues, um dos líderes-caçadores de novas filiações
do PL. Acabou seduzido pelos argumentos do PTB. "Os parlamentares, na
grande maioria, são mamíferos. Isto é, não
vivem sem uma teta", diz Bolsonaro. Teta, para o deputado, é sinônimo
de cargos no governo e facilidade para liberação de verbas.
Os líderes do PPS de Ciro Gomes dizem que, com a legenda, a coisa
é diferente. Afirmam que ali a negociação com os
novos agregados não se dá em função de cargos
ou benesses. O partido já filiou dois novos deputados, ambos vindos
do PFL Átila Lins e Francisco Garcia, do Amazonas. Saiu
das urnas com quinze deputados e espera fechar o mês com uma bancada
de 22. Entre eles, terá gente oriunda do PSDB e até do PFL.
O deputado paranaense Rubens Bueno, que está acompanhando as negociações,
afirma que isso não constrange. "Quem vem para cá vai ter
de se afinar com nossa linha partidária, e isso todo mundo sabe."
Os convites são sempre referendados por um telefonema que o parlamentar
recebe do ministro Ciro Gomes. Pelo lado do PSB, o trabalho de cooptação
parlamentar tem sido feito pelo ex-governador Anthony Garotinho, que já
viajou por vários Estados em busca de adesões. O campo magnético
que o governo produz sobre os partidos é tão poderoso que
às vezes nem é necessário o trabalho dos mercadores.
O PPB de Paulo Maluf e Delfim Netto, que vem perdendo parlamentares para
a base governista, encontrou uma solução para evitar o encolhimento
do partido. Não vai ser governo, mas também não vai
para a oposição. Dos 49 deputados eleitos pela legenda,
apenas catorze declaram não querer muita proximidade com o Palácio
do Planalto. O deputado Nelson Meurer explica: "O perfil dos nossos eleitos
é o de ser governo. Se fizermos oposição, não
nos elegeremos nem para inspetor de quarteirão". A turma da pescaria
oficial entendeu o recado.
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