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Edição 1 787 - 29 de janeiro de 2003
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O mercado do poder

Os partidos da base aliada seduzem
parlamentares que não "conseguem"
ser oposição e aumentam de tamanho

Malu Gaspar


Montagem sobre fotos de Ana Araujo, Nelio Rodrigues, José Paulo Lacerda/AE
Bispo Rodrigues, do PL: derrota na disputa com o PTB pelo passe de um parlamentar Costa Neto, do PL: sigilo sobre a filiação de deputados para tentar evitar concorrência Jefferson, um dos pescadores do PTB: "Nós oferecemos expectativa de poder" Martinez: depois de enfrentar denúncias na eleição, o petebista volta à elite do Congresso

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Eles estão de volta

O deputado José Carlos Martinez, do PTB paranaense, atravessa uma grande fase. Há seis meses, como coordenador de campanha do então candidato a presidente Ciro Gomes, o parlamentar viveu seu inferno astral. Ao ter o passado revirado, descobriu-se que ele acumulava uma dívida de 15 milhões de reais para com a Receita Federal, resultado dos negócios nunca bem explicados com Paulo César Farias, o caixa de campanha do ex-presidente Fernando Collor de Mello. O caso complicou a campanha de Ciro e obrigou Martinez a sair de cena. Isso, ao que parece, já virou coisa do passado. Martinez está de volta à elite do Congresso. Ele tem trânsito livre no Palácio do Planalto, cruza os corredores da Câmara sempre com um séquito de deputados e jornalistas e fala com a autoridade de quem virou uma das estrelas do Parlamento. Martinez e um grupo de mais dez deputados estão exercendo a sedutora influência de ser governo para atrair colegas e fortalecer seus partidos. Oferecem cargos, verbas e acesso aos palácios e ministérios.

Em fevereiro, quando será empossado o novo Congresso, estima-se que mais de cinqüenta deputados tenham trocado de legenda. Essa movimentação, embora esdrúxula, sempre acontece e é motivada pela insatisfação com as composições que emergiram das urnas. Há políticos cuja sobrevivência depende exclusivamente da relação que mantêm com o governo, seja ele qual for. Assim, pela tradição, chega a soar como natural a corrida em direção aos partidos que estão no poder. A troca acaba sendo boa tanto para o deputado que se alimenta dessa proximidade como para os partidos que governam, na medida em que ampliam a base de apoio necessária para votar suas propostas. Com a eleição de Lula, em tese, a corrida deveria ser em direção ao PT. Mas o partido tem critérios rígidos para aceitar novos integrantes. A alternativa dos políticos foi buscar abrigo nos partidos aliados do governo Lula – PL, PTB, PDT, PPS, PSB e PV. O PT partido não topa esse jogo de sedução, mas o PT governo tem visto a migração com bons olhos e incentiva o trabalho das lideranças aliadas.

"Nós oferecemos expectativa de poder", explica o deputado Roberto Jefferson, líder do PTB na Câmara, que faz dupla com José Carlos Martinez. Até na estética se vê movimentação para o lado do poder. O petebista Martinez passou a usar barba como os petistas mais puros-sangues. Não é à toa. O PTB tem chances de sair como o grande vitorioso nesse vai-e-vem. O partido, que elegeu 26 deputados, contabilizava 34 na semana passada. Espera chegar a fevereiro com 45. Seria um crescimento grande, maior que o do PL, o partido do vice-presidente José Alencar, que até o final da semana passada, por estratégia, não havia anunciado nenhuma nova adesão. O líder do PL, Valdemar Costa Neto, determinou que o partido só apresente seus novos integrantes no último momento, para impedir avanços de outras siglas sobre seu rebanho e evitar, assim, ser alvo de leilão por parte de quem quer valorizar o passe. Nos bastidores, porém, a caça continua intensa. O deputado Jair Bolsonaro, aquele que já defendeu o fechamento do Congresso, elegeu-se pelo PPB e foi disputado pela tropa do PTB e pelo bispo Rodrigues, um dos líderes-caçadores de novas filiações do PL. Acabou seduzido pelos argumentos do PTB. "Os parlamentares, na grande maioria, são mamíferos. Isto é, não vivem sem uma teta", diz Bolsonaro. Teta, para o deputado, é sinônimo de cargos no governo e facilidade para liberação de verbas.

Os líderes do PPS de Ciro Gomes dizem que, com a legenda, a coisa é diferente. Afirmam que ali a negociação com os novos agregados não se dá em função de cargos ou benesses. O partido já filiou dois novos deputados, ambos vindos do PFL – Átila Lins e Francisco Garcia, do Amazonas. Saiu das urnas com quinze deputados e espera fechar o mês com uma bancada de 22. Entre eles, terá gente oriunda do PSDB e até do PFL. O deputado paranaense Rubens Bueno, que está acompanhando as negociações, afirma que isso não constrange. "Quem vem para cá vai ter de se afinar com nossa linha partidária, e isso todo mundo sabe." Os convites são sempre referendados por um telefonema que o parlamentar recebe do ministro Ciro Gomes. Pelo lado do PSB, o trabalho de cooptação parlamentar tem sido feito pelo ex-governador Anthony Garotinho, que já viajou por vários Estados em busca de adesões. O campo magnético que o governo produz sobre os partidos é tão poderoso que às vezes nem é necessário o trabalho dos mercadores. O PPB de Paulo Maluf e Delfim Netto, que vem perdendo parlamentares para a base governista, encontrou uma solução para evitar o encolhimento do partido. Não vai ser governo, mas também não vai para a oposição. Dos 49 deputados eleitos pela legenda, apenas catorze declaram não querer muita proximidade com o Palácio do Planalto. O deputado Nelson Meurer explica: "O perfil dos nossos eleitos é o de ser governo. Se fizermos oposição, não nos elegeremos nem para inspetor de quarteirão". A turma da pescaria oficial entendeu o recado.

 
 
   
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