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Aparecem
as provas
Documentos de autoridades suíças
comprovam
depósitos dos fiscais
do Rio suspeitos de corrupção
Marcelo Carneiro e Ronaldo França

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A
descoberta do propinoduto montado bem no topo da máquina de arrecadação
do Rio de Janeiro criou uma situação insólita. Os
33,4 milhões de dólares depositados num banco suíço
eram, até a semana passada, uma fortuna fabulosa para a qual não
havia proprietários disponíveis. Os quatro fiscais da Secretaria
de Fazenda do Rio e seus quatro colegas da Receita Federal eram apontados
por autoridades suíças como os donos do dinheiro, mas eles
insistiam em negar a propriedade da montanha de dólares. Rodrigo
Silveirinha, o mais graduado entre eles, chegou a fazê-lo em rede
nacional de televisão. Todos argumentavam que não havia
prova da existência das contas. Na semana passada, o argumento caiu
por terra. O Jornal do Brasil divulgou documentos nos quais o Ministério
Público da Suíça mostra que Silveirinha e sua turma
são mesmo os titulares das contas abertas no Union Bancaire Privée.
A papelada enviada ao Brasil pelas autoridades suíças mostra
mais. Na lista de dezessete beneficiários dos milhões de
dólares aparece, além de parentes de Silveirinha e de seus
colegas, o nome de três outros auditores da Receita: Roberto Vommaro,
Heraldo Braga e Marco Antonio Bonfim da Silva. Na semana passada, VEJA
apurou que a ligação entre os servidores envolvidos na trama
é, em alguns casos, muito antiga. São amigos de infância,
por exemplo, o fiscal de renda do Estado Carlos Eduardo Pereira Ramos
dono de duas contas totalizando 18 milhões de dólares
e o auditor federal Amauri Nogueira. Ambos moravam num subúrbio
do Rio quando ingressaram em seus postos, na Receita e na Secretaria de
Fazenda. Amauri tornou-se auditor na década de 80. Carlos Eduardo
ingressou na Fazenda em 1990. Hoje a dupla está milionária,
com direito a casa e apartamento de luxo na Barra da Tijuca. Silveirinha
juntou-se ao grupo no fim dos anos 90. Em 1999 foi nomeado pelo ex-governador
Anthony Garotinho para a Subsecretaria de Administração
Tributária. Logo escolheria Carlos Eduardo para chefiar a importante
inspetoria de empresas de grande porte. Amauri, titular da conta mais
antiga, de 1989, foi apresentado a Silveirinha por Carlos Eduardo.
O propinoduto fluminense é de grosso calibre, o que explica os
fiscais terem amealhado tantos milhões em tão pouco tempo.
Só para efeito de comparação, lembre-se o episódio
da descoberta do dinheiro no escritório da Lunus, no Maranhão.
Na empresa de propriedade de Jorge Murad, marido da ex-governadora Roseana
Sarney, foi encontrado 1,3 milhão de reais. A quantia encontrada
nas contas dos fiscais cariocas é 90 vezes maior. Mesmo assim,
o impacto da descoberta do 1,3 milhão de reais na Lunus foi suficiente
para demolir a candidatura do PFL à Presidência da República.
No Rio, as conseqüências estão por vir. O escândalo
pôs às claras o frágil sistema de controle do Estado
sobre sua equipe de fiscalização. Até as luminárias
do Palácio Guanabara sabiam, havia tempos, que existia um grupo
de fiscais corruptos em atuação. O próprio ex-governador
Anthony Garotinho já tinha sido alertado disso em três ocasiões.
Mesmo assim, o esquema seguiu sua rotina de extorsões. Comprovada
a existência do dinheiro nas contas, o Estado finalmente se pôs
a trabalhar para encontrar os responsáveis e punir os culpados.
Nesse caso, não há o que contestar no andamento das investigações,
que, como se vê pelos documentos apresentados na semana passada,
já apontam para o crime de enriquecimento ilícito. O desafio
da Polícia Federal e do Ministério Público agora
é provar atos de corrupção e descobrir novas ramificações.
Na semana passada, a governadora Rosinha Garotinho determinou o afastamento
de todos os fiscais da Fazenda que ocupavam cargo de chefia e criou uma
secretaria só para cuidar da arrecadação. Rosinha
também baixou decreto exigindo que todo o primeiro escalão
do governo e servidores em cargos de direção entreguem cópias
de suas declarações de renda dos últimos anos. Esses
funcionários terão também de informar se respondem
a processos cíveis ou criminais ou se já foram condenados
em algum. É um passo importante para apurar os fatos e enfrentar
a crise de confiança deflagrada com a descoberta das contas na
Suíça. Mas ainda há um longo caminho pela frente.
As revelações da última semana mostram que a parte
visível do escândalo dos fiscais fluminenses pode ser apenas
a ponta do iceberg.
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