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Edição 1 787 - 29 de janeiro de 2003
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O curinga de Lula

Quem é o assessor de governo
que reforça ministros, faz indicações
para a equipe econômica e fala em
nome do presidente

Felipe Patury e Thaís Oyama


Antonio Milena
Luiz Gushiken
Idade: 52 anos
Saúde: teve câncer e sofreu 1 infarto
Família: filho de um imigrante japonês, é o primogênito de sete irmãos. Casado com a bancária Elizabeth, tem três filhos
Formação: administração de empresas
Carreira: foi office-boy, bancário, presidente do Sindicato dos Bancários e deputado federal. Fundou o PT e coordenou três das quatro campanhas de Lula ao Palácio do Planalto das quais participou
Amigos no governo: além do presidente Lula, o ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, o da Fazenda, Antônio Palocci, e o das Cidades, Olívio Dutra

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No papel, o ministro de Comunicação de Governo, Luiz Gushiken, ocupa uma pasta com atribuições vagas. Entre elas, a "formulação da concepção estratégica nacional" e o "controle de planos, programas e projetos de natureza estratégica". Na prática, vem recebendo de Lula algumas das missões mais delicadas do governo. Há dez dias, Gushiken chamou o ministro da Segurança Alimentar, José Graziano, para uma conversa sobre o Fome Zero. O lançamento do projeto social mais importante de Lula estava atrasado, e a proposta do ministro vinha recebendo muitas críticas, até mesmo da igreja, de ONGs e de petistas influentes. Deixando claro que falava em nome do presidente, Gushiken fez dois "pedidos" ao ministro Graziano: que o programa fosse acelerado e que Graziano "ouvisse mais a sociedade". Logo depois, a data de lançamento do programa foi anunciada. Gushiken também entrou em ação quando o ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, defendeu o fim do regime especial de aposentadorias para militares e juízes. Berzoini ouviu do ministro que estava "equivocado", foi lembrado de que o presidente Lula era favorável ao regime especial e aconselhado a recuar. No dia seguinte, o Ministério da Previdência convocou uma reunião com os militares para anunciar que o regime especial seria mantido. Na Esplanada dos Ministérios já se sabe que Gushiken é um dos raros colaboradores de Lula que falam em nome do presidente.

Quando foi chamado por Lula, ele pediu um cargo burocrático no governo. Alegou que não tinha condições de assumir grandes responsabilidades porque estava mal de saúde. Agora tem dito para amigos que está assustado com a dimensão de suas atribuições. Além das operações de resgate, ele já foi chamado para ajudar a encaixar peças em várias áreas do governo. Gushiken auxiliou na escolha dos dois mais importantes ministros do governo: o da Fazenda, Antônio Palocci, seu amigo desde os anos 70, e Berzoini, a quem apoiou no movimento sindical e ajudou a eleger deputado federal. Um outro amigo, Adacir Reis, ex-assessor de Gushiken na Câmara dos Deputados, assumiu a Secretaria de Previdência Complementar – posto de onde se controlam os poderosos fundos de pensão. O ministro também é consultado sobre nomeação para cargos importantes nos bancos federais e estatais. Dois diretores do Banco do Brasil passaram pelo seu crivo. Nos últimos dias, ele ajudava a escolher os futuros dirigentes da Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, e da Petros, dos empregados da Petrobras.

 
Ana Araujo
A família Gushiken: há mais de dez anos, reuniões todos os domingos, sempre às 8 da manhã

Gushiken é o ministro que tem mais vínculos com o presidente. Os dois se conheceram há mais de vinte anos, no movimento sindical. Lula liderava as greves dos metalúrgicos no ABC paulista, e Gushiken dirigia os bancários. Foram vizinhos de cela quando estiveram presos em decorrência de suas atividades políticas durante a ditadura. Fundaram juntos o PT e nunca se distanciaram. Em 1989, Lula avisou que só concorreria ao Planalto com Gushiken na presidência do partido. "China", como Lula o chama, acabou assumindo a coordenação de três das quatro campanhas presidenciais petistas das quais participou. Em razão de seu estado de saúde, relutou em aceitar o convite para participar da campanha no ano passado. Lula mandou o PT montar uma superestrutura para tê-lo por perto. Foram contratados uma enfermeira e um motorista, e alugou-se um flat a dois quarteirões do comitê eleitoral para hospedá-lo. Hoje, Gushiken é dos poucos amigos do presidente convidados a freqüentar o sítio de Marisa, na Represa Billings, em São Paulo. Também é um dos poucos que têm liberdade para criticá-lo.

Há dois anos, ele vem enfrentando graves problemas de saúde. Gushiken teve um infarto em outubro de 2001. Meses depois, soube que estava com câncer. Em fevereiro de 2002, submeteu-se a uma cirurgia para retirada de todo o estômago. No pós-cirúrgico, contraiu uma septicemia que quase o matou. Por causa da operação, hoje tem uma série de restrições: tem de comer de duas em duas horas e precisa ir ao banheiro com tanta freqüência que fica constrangido, por exemplo, quando tem de viajar de avião.

 
Antonio Milena
Ana Araujo

Graziano, do Fome Zero, e Berzoini, da Previdência: apoio de Gushiken na condução de projetos vitais

Luiz Gushiken entrou no movimento sindical pelas correntes mais radicais da esquerda e foi um dos líderes sindicais mais temidos do Brasil. Em 1985, sob sua liderança, mais de 700.000 bancários cruzaram os braços. Antes dos computadores, essas greves paralisavam a economia. O Sindicato dos Bancários de São Paulo tornou-se um dos mais fortes do mundo. No campo teórico, ele percebeu que era possível unir o prestígio dos metalúrgicos do ABC à força dos bancários, que tinham uma rede nacional, para unificar o movimento sindical. Esse foi o embrião da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Deputado federal eleito três vezes pelo PT, Gushiken foi contra os principais pontos da reforma da Previdência quando proposta pelo governo FHC. Mais recentemente, transformou-se num dos mentores do PT light. Abandonou quase todas as suas velhas propostas sobre a Previdência.

O ministro de Lula veio de família modesta. A mãe, já morta, era dona-de-casa. O pai, nascido em Okinawa, no Japão, foi dono de um bar e, mais tarde, vendedor de bebidas. Chegou a ter uma fábrica de macarrão na cidade de Osvaldo Cruz, no interior de São Paulo, mas o negócio faliu antes de Gushiken nascer. Primogênito de sete filhos, começou a trabalhar aos 14 anos, como office-boy. Aos 20 anos, mudou-se para São Paulo e tornou-se funcionário do Banco do Estado de São Paulo (Banespa). Nesse período, cursou filosofia na Universidade de São Paulo e administração na Fundação Getúlio Vargas. O primeiro curso ele abandonou depois de um ano. O segundo, seis meses antes de se formar. É casado há 24 anos e tem três filhos, o mais velho com 19 anos. A pedido do petista, a família em breve se muda da cidade paulista de Indaiatuba para Brasília. Gushiken reclama que, morando em hotel e sem a mulher ao lado, é impossível seguir o regime prescrito pelo médico.

O ex-ateu Gushiken dedica-se há mais de vinte anos ao estudo das religiões. É capaz de passar horas discutindo assuntos como a cabala judaica ou a diferença entre o zen-budismo e o budismo tibetano. Certa vez, correu São Paulo em busca de um especialista que pudesse lhe explicar o motivo de uma diferença de tradução entre duas versões que havia adquirido do Corão. Os filhos e a mulher seguem a religião bahai, doutrina que nasceu na Pérsia, atual Irã, no século XIX e tem por princípio a defesa da união de todos os credos, povos e governos. Gushiken não se considera um bahai, mas admira a doutrina. Há mais de dez anos, a família do ministro preserva um ritual curioso. Todos os domingos, às 8 da manhã, os Gushiken se encontram para uma oração, seguida de uma reunião em que a família discute problemas e projetos. É exatamente o que o chefe da família faz durante a semana em Brasília, em nome do presidente da República.

 
 
   
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