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Edição 1 787 - 29 de janeiro de 2003
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A carta de Meirelles

O presidente do BC explica por
que a inflação explodiu em 2002
e como vai combatê-la

Adriana Carvalho

 

Helvio Romero/AE

Meirelles culpa o dólar, os reajustes de tarifas e o "efeito Lula" pela inflação alta de 2002...

"Caso a taxa de câmbio tivesse permanecido no patamar de 2,55 reais (...) se a inflação dos preços administrados pelo governo tivesse sido igual à dos preços livres, a variação do IPCA em 2002 teria sido de 5,98% (...) se além disso as expectativas de mercado para a inflação tivessem permanecido no centro da meta, a inflação alcançaria 4,3%."

...diz que a situação vai melhorar...

"Com a dissipação dos efeitos (...) a inflação acumulada em doze meses deverá cair rapidamente no último trimestre de 2003."

...e que a política econômica não muda.

"Em suma, o regime macroeconômico de metas para inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal tem demonstrado ser capaz de absorver fortes choques sobre a economia."


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A carta aberta que Henrique Meirelles, presidente do Banco Central (BC), escreveu ao ministro da Fazenda, Antônio Palocci, na semana passada, é uma mostra do grau de maturidade que o trato das finanças públicas atingiu no Brasil. A carta é uma obrigação legal, uma medida de transparência auto-imposta ao BC por um decreto de 1999. Ela deve ser escrita sempre que a inflação escapa das metas previstas pelo Ministério da Fazenda. A primeira dessas cartas foi escrita em 2002, quando Armínio Fraga informou ao ministro Pedro Malan as razões de não ter conseguido conter a inflação dentro do figurino combinado em 2001. A carta de Meirelles é maior e mais interessante que a de Fraga porque trata de um governo anterior e de um ano eleitoral cheio de sobressaltos. A carta reconhece que o "efeito Lula", a desconfiança dos mercados em relação ao compromisso do PT de manter a estabilidade, teve enorme peso no fato de a inflação ter batido em 12,5%. O impacto das expectativas negativas no ano eleitoral, da depreciação cambial e do aumento de tarifas contribuiu com 8,2 pontos porcentuais no aumento da inflação, segundo o cálculo do BC. Ou seja, sem a especulação de origem eleitoral, a inflação no ano passado poderia ter sido de apenas 4,3 % – dentro das metas, portanto, o que teria poupado Meirelles de escrever a carta da semana passada.

A carta de Meirelles é interessante também pelas projeções a respeito da economia brasileira neste ano e em 2004. E também pelo que revela sobre as armas do BC para conter a inflação, cujas metas para 2003 foram alargadas para 8,5%. Meirelles informa ao ministro da Fazenda que em sua avaliação, sem os efeitos perturbadores de um ano eleitoral, a inflação deve cair "rapidamente no último trimestre de 2003". Mais adiante o presidente do BC reafirma a manutenção do arsenal econômico ortodoxo colocado de pé no governo de Fernando Henrique Cardoso. "O regime macroeconômico de metas para inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal tem demonstrado ser capaz de absorver fortes choques sobre a economia." Meirelles informa também que o aumento dos juros continua sendo sua arma principal para brigar contra a inflação. Foi o que fez na semana passada, horas depois de assinar a carta a Palocci.

Para um país que precisa crescer e gerar empregos, juros altos são uma condenação, um peso do qual os governos precisam se livrar o quanto antes. Mas, para baixar juros sem riscos, a economia precisa estar mais sadia do que a brasileira atualmente. Isso ficou claro na semana passada. Com toda sua significação histórica e projeções de esperança, a troca de governo não tornou a economia brasileira menos vulnerável. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu isso na quinta-feira passada, ao analisar o aumento dos juros feito pelo Banco Central. Em resumo, Lula comparou a economia a um "filho doente" e ele próprio a um "novo médico" e admitiu que por enquanto o remédio tem de ser o mesmo que vinha sendo receitado, juros altos. Na quarta-feira, o BC aumentou de 25% para 25,5% o juro básico da economia. Como foi a primeira mexida no juro do governo petista, esse 0,5 ponto porcentual causou comoção nas expectativas dos agentes econômicos bem mais elevada do que seus efeitos positivos ou negativos sobre a economia brasileira. Como ato inaugural de um governo de esquerda, o BC queria mostrar que não será leniente no combate à inflação com as armas tradicionalmente aceitas nas economias modernas.

O ministro Palocci considerou a mexida na taxa de juros uma questão "técnica" e adiantou que mais remédios antigos e amargos estão saindo da botica. O principal deles é o aumento do chamado superávit primário, aqueles recursos que sobram no caixa do governo depois de feitas todas as despesas, com exceção do pagamento dos juros da dívida. Aumentar o superávit primário significa gastar menos, apertar ainda mais o cinto. O objetivo é mostrar aos credores do governo que o Brasil tem condições de pagar seus débitos.

 
 
   
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