Como o jovem rabino Michel Schlesinger
conquistou o respeito e o afeto da maior e
mais poderosa congregação judaica do Brasil
Adriana
Dias Lopes
Lailson
Santos
Keiny
Andrade
O
rabino Michel (na foto, com o pergaminho da Torá): o sucessor de
Sobel
A poderosa Congregação
Israelita Paulista (CIP), que conta com 5.000 afiliados e
o apoio das mais ricas e influentes famílias judaicas
de São Paulo, sofreu um abalo em março passado,
com a detenção do rabino Henry Sobel em Palm
Beach, na Flórida, acusado de furtar, de diferentes
lojas, gravatas de marcas famosas. Sobel era presidente do
rabinato da entidade havia 24 anos e, nessa condição,
tornou-se um dos mais visíveis líderes religiosos
do país. A notícia da prisão, recebida
com óbvia estupefação geral, deixou ainda
mais perplexo o jovem Michel Schlesinger, de 30 anos, assistente
de Sobel na presidência da CIP desde 2005. "Ao
ler a história na internet, liguei imediatamente para
o celular dele, mas não consegui falar", lembra.
Os dois só se encontrariam no dia seguinte, no hospital
onde Sobel foi internado com o diagnóstico de transtorno
de humor, descontrole emocional e alterações
de comportamento. Depois do incidente, o rabino de língua
enrolada nunca mais voltaria a exercer a presidência
da CIP. Em seu lugar, entrou Michel. "O afastamento brusco
de Sobel me obrigou a amadurecer mais rapidamente. Não
será fácil manter o padrão", diz
ele, um presidente sem presidência, visto que o cargo
de 30 000 reais mensais foi formalmente extinto em outubro.
Do hebraico rav,
rabino é sinônimo de mestre, professor. Tanto que Jesus era chamado
pelos apóstolos de rabi, uma transliteração de rav.
Os rabinos são a principal referência espiritual e cultural na religião
judaica. Eles fazem celebrações e aconselham os congregantes. Para
isso, devem estudar pelo menos quatro anos em tempo integral. Os estudos incluem
não só as leis da Torá, o livro sagrado do judaísmo,
como aulas de oratória, cultura de outras religiões e psicologia.
Já que não há hierarquia entre os rabinos, a sua permanência
na CIP depende diretamente de seu desempenho junto à comunidade. Pelo que
mostrou até agora, Michel terá muitos anos à frente do seu
rebanho.
"Ele tem
um equilíbrio fantástico. Estimula as tradições e,
ao mesmo tempo, é um homem acessível, que fala de igual para igual
com as pessoas", diz Boris Ber, presidente da Federação Israelita
do Estado de São Paulo. Com seu jeitão de amigo mais experiente,
Michel tem conquistado um grupo bastante arredio, o dos adolescentes. Ele tem
lá seus truques. Nas aulas de preparação para o bar-mitzvá,
ritual de passagem para a vida adulta dos garotos de 13 anos, por exemplo, ele
inclui os vídeos do YouTube como fonte de pesquisa de cultura judaica.
O rabino tem até página no site de relacionamentos Orkut.
Na juventude, chegou a pensar
em seguir a carreira artística. Teve aulas de teatro
com o ator Dan Stulbach, mas logo percebeu que não
iria muito longe. "Como ator, Michel é um ótimo
rabino", brinca Stulbach. A escolha religiosa nasceu
quando ele cursava o 3º ano da Faculdade de Direito da
Universidade de São Paulo. A opção não
surpreendeu os parentes e amigos mais próximos. Desde
a infância, na escola Renascença, ele participava
intensamente das atividades ligadas à religião
judaica. Aos 17 anos, já dava aulas de bar-mitzvá.
Em 2001, formado em direito, Michel mudou-se para Jerusalém,
a fim de freqüentar a escola de rabinato. Geralmente,
os custos desse curso cabem ao futuro rabino ou à sua
família. No caso de Michel, seus estudos foram pagos
pela CIP. Depois de quatro anos no exterior, ele voltou ao
Brasil e assumiu o posto de rabino-assistente da congregação.
Ele imaginava permanecer como braço-direito de Sobel
por pelo menos mais uma década. O episódio das
gravatas, no entanto, encurtou o seu caminho até o
topo. "Michel é um rabino completo. É trabalhador,
culto e consegue tocar a vida das pessoas. Ele tem um grande
futuro", diz Sobel, hoje rabino emérito da congregação.
Michel gosta de ouvir elogios, é claro, mas se coloca
sempre na posição de devedor. "Eu sou meu
pior avaliador", afirma. Duas vezes por semana, faz análise
freudiana. "Na medida em que me conheço melhor,
consigo ser mais útil às pessoas."
Pela tradição
judaica, de modo a servir de exemplo para a comunidade, é esperado que
o rabino tenha sua própria família. Michel casou-se com a antropóloga
Juliana, sua amiga de adolescência, em dezembro de 2005. Em todo Shabat,
o dia de descanso para os judeus comemorado semanalmente (do pôr-do-sol
de sexta-feira ao pôr-do-sol de sábado), o casal Schlesinger recebe
alguns congregantes para jantar. É Michel quem põe a mesa e, vez
por outra, faz a comida. Suas especialidades são macarrão com legumes
e feijoada. Feijoada kosher, fique bem claro, sem carne de porco e preparada com
uma série de prescrições que não a contaminem do ponto
de vista religioso. Os convidados dificilmente se repetem. "Os congregantes
devem sentir-se abrigados. Convidá-los a jantar em minha casa é
uma demonstração dessa minha preocupação", diz.
O estilo acolhedor de Michel é um sucesso de audiência. Ele recebe
cerca de 100 e-mails diários, a maioria de jovens com dúvidas sobre
tradições judaicas e pedidos de aconselhamento. Todas as mensagens
são respondidas, de casa, ao longo das manhãs. É durante
as manhãs também que Michel prepara seus discursos, escreve artigos
para cinco jornais judaicos e estuda a Torá. Às 3 da tarde,
começa seu expediente na CIP. Quando se afastou da presidência da
entidade, Sobel recomendou a Michel: "Cuide bem da lojinha". A julgar
pela opinião da comunidade, ela nunca esteve tão bem cuidada.