Com o caos aéreo
e a corrida armamentista da Venezuela, militares brasileiros voltaram ao centro
da atenção do país. VEJA faz uma radiografia das Forças
Armadas e traz dados da primeira pesquisa da história com os homens
de farda, mostrando o que eles querem e o que pensam
Em
Resende, no interior do Rio de Janeiro, o aspirante Diógenes Serra Azul
Albuquerque se diz satisfeito com sua escolha profissional. Ele está cursando
o 3º ano da Academia Militar das Agulhas Negras, instituição
que forma os oficiais do Exército. Ganha 800 reais por mês, gosta
do curso que concluirá no ano que vem e tem clareza sobre o papel do Exército
no Brasil de hoje. "Vivemos uma situação de paz, mas não
dá para prever o que será o mundo daqui a cinco ou dez anos",
diz ele, repetindo, com precisão milimétrica, o pensamento de seus
superiores. Em Brasília, um ex-piloto de caça conta por que deixou
a Aeronáutica depois de quinze anos de serviço. "Desde criança,
sonhava em ser piloto de caça", afirma ele, que pede para não
ser identificado. "Passei risco de morte, mas sempre achei que valia a pena.
Nos últimos anos, com salário baixo e equipamento obsoleto, comecei
a repensar minha vida. A paixão me sustentou por muito tempo, mas me sentia
inútil. Achei que era hora de mudar." Como tenente-coronel, ele ganhava
cerca de 7.000 reais. Agora, fará concurso para promotor do Ministério
Público. Se passar, começará com 12.000 reais.
O aspirante do Exército e o ex-piloto da Aeronáutica vêm de
um mesmo mundo o mundo militar, que, como se pode constatar, é capaz
de exercer fascínio no caso de uns e destruir até sonhos de infância
no caso de outros. A reportagem de VEJA começa com esses dois personagens
para que, desde o início, o leitor tenha em mente um aspecto central: as
Forças Armadas brasileiras, essa instituição cuja história
remonta a 350 anos, não são o paraíso nem o inferno, e os
militares brasileiros, esse contingente de 290.000 homens, não são
heróis nem vilões. As Forças Armadas e seus integrantes são,
a um só tempo, um pouco das duas coisas: viveram glórias e tragédias,
ouviram aplausos e vaias. Agora que o Brasil celebra 22 anos de democracia depois
de 21 anos de ditadura, os militares, com uma intensidade rara, voltam a chamar
a atenção do país, felizmente não em razão
de rebuliços nos quartéis ou acenos à cólera das legiões.
A atenção que atraem se deve a fatores que incluem o caos aéreo,
a posse de um ministro da Defesa como Nelson Jobim, cujas ambições
políticas só são menos notórias que seu talento para
o marketing, e a escalada armamentista do ditador venezuelano Hugo Chávez.
Nesse cenário, é relevante saber o que os militares pensam e o que
querem.
Ana
Araújo
TAMANHO
DA TROPA Cadetes da Academia Militar
das Agulhas Negras, em Resende, marcham durante treinamento: será que um efetivo
de 100·000 homens não seria suficiente?
Em parceria com a CNT/Sensus, VEJA realizou duas pesquisas: uma com a população,
entrevistando 2.000 pessoas em 24 estados, e outra inédita na história
brasileira, ouvindo a opinião dos próprios militares. Foram entrevistados
384 soldados e oficiais, em dezenove cidades. Todos do Exército, única
força pesquisada por reunir 65% do contingente militar do país.
A cúpula do Exército autorizou os pesquisadores a entrar nos quartéis
e questionar qualquer militar, sem a presença de superiores, e fez uma
única exigência, aqui atendida: informar que a opinião dos
militares é dos militares, não do Exército como instituição.
A pesquisa mostra que os militares acham o Brasil um país desorganizado
(63,5%), reclamam da obsolescên-cia dos equipamentos militares (68,5%),
acham que a criação de reservas indígenas mina a segurança
da Amazônia (68,2%) e pensam que os presidentes civis têm lhes dado
tratamento inadequado (77,1%), embora gostem do formato do Ministério da
Defesa (56%), ainda que preferissem vê-lo comandado por um militar (69,5%).
O cruzamento das pesquisas, cotejando a opinião de civis e militares, traz
revelações curiosas. Os civis são esmagadoramente favoráveis
ao emprego do Exército na luta contra o crime, já os militares nem
tanto (veja quadro). Ainda no campo da criminalidade
urbana, a pesquisa mostra que 50,8% dos civis não aceitam o recurso dos
maus-tratos contra criminosos para obter informações, e só
35,4% dos militares têm a mesma opinião mas é preciso
ressalvar que a pergunta feita para civis e militares não é exatamente
igual (veja quadro). Além das diferenças,
civis e militares estão em notável sintonia de pensamento em alguns
casos. Um ponto em que uns e outros exibem maioria semelhante é com relação
à Amazônia: ambos temem que a floresta seja ocupada por uma potência
estrangeira (veja quadro). É uma sintonia
interessante, sobretudo porque o temor que os militares têm de uma invasão
amazônica às vezes soa como paranóia fardada mas até
que faz sentido diante da penúria de gente e de equipamentos das Forças
Armadas, uma realidade que o grosso da população civil ignora.
Ana
Araújo
EVASÃO
E CONCURSOS Mulheres de militares protestam
em Brasília por melhores soldos para os maridos: evasão crescente e procura por
concursos públicos
O Brasil
possui o 15º maior efetivo militar do mundo e o maior da América do
Sul, mas, em números proporcionais, considerando o tamanho do país
e da população, tal vantagem some. A Colômbia é a campeã
sul-americana na relação entre o tamanho do efetivo do Exército
e o do território. Tem um militar para cada 8 quilômetros quadrados.
O Chile vence na relação entre efetivo e população,
com 5.500 fardados para cada grupo de 1 milhão de habitantes. Além
disso, o Brasil tem problema grave de equipamento. Os militares sonham com as
maravilhas da tecnologia e preparam um plano de investimento que, idealmente,
consumiria 16 bilhões de reais em cinco anos, mas vivem uma realidade dramática.
O Exército possui tanques dos tempos da Guerra da Coréia, de 1953.
A Marinha, responsável pelo litoral brasileiro, não tem navio com
menos de vinte anos de uso. Há fragatas inglesas do início da década
de 70. A Aeronáutica, talvez a força mais bem equipada, possui aviões
Buffalo com mais de quarenta anos que nem saem do chão e estão sendo
canibalizados para ceder peças a outros aviões.
A escassez de dinheiro repercute na própria formação da tropa.
Ao treinar tiro num tanque blindado Cascavel, um aspirante-a-oficial do Exército
usava munição do próprio blindado. Como cada tiro custa 250
dólares, o Exército comprou um redutor de calibre para que o treinamento
passasse a ser feito com bala de fuzil, que custa 10 reais. Pior: as primeiras
aulas de tiro são realizadas com chumbinho e fuzis de ar comprimido. Só
depois de alguma prática, o aspirante tem direito a utilizar a munição
de 10 reais. Na Aeronáutica, um piloto de caça voava 250 horas por
ano no treinamento. A hora de vôo de um caça supersônico sai
por 1.000 reais. Por isso, o treinamento hoje não passa de oitenta horas.
"A preparação é pior, causa frustração
pessoal, e os profissionais não têm a mesma qualificação",
diz um dos brigadeiros que comandam a Aeronáutica pedindo o anonimato.
"Temos um plano para aumentar o treinamento para 100 horas/ano, mas é
impossível voltar às 250 horas do meu tempo", diz ele, que
se formou em 1990. A penúria, no entanto, nunca desestabilizou centros
de excelência das Forças Armadas, como o Instituto Tecnológico
de Aeronáutica ou o Instituto Militar de Engenharia. Outras despesas foram
cortadas. O Exército chegou a adotar meio expediente nos quartéis
às segundas e às sextas-feiras. Só para cortar o almoço
de segunda e o jantar de sexta, poupando duas refeições. Na Vila
Militar, bairro onde vivem 25.000 militares e seus familiares no subúrbio
do Rio, há fartos sinais de precariedade. Um exemplo: nos dois hospitais
do bairro não se fornece roupa de cama. O paciente leva de casa.
Ana
Araujo
"Desde criança sonhava em ser piloto de caça. Passei
risco de morte, mas sempre achei que valia a pena. Nos últimos anos, comecei a
repensar minha vida. A paixão me sustentou por muito tempo, mas me sentia inútil.
Achei que era hora de mudar." EX-PILOTO
DE CAÇA
Com a história
recente do regime militar e as recorrentes discussões sobre indenizações
a familiares de esquerdistas que morreram, fica-se com a impressão de que
a vida nacional é toda ela permeada pelo embate entre civis e militares.
É engano. Como a conquista da independência se deu sem a interferência
de militares, o Brasil começou sua vida autônoma em 1822 de modo
notavelmente infenso à influência da caserna. O Brasil era um império
ordeiro, cultor do civilismo e orientado pelo constitucionalismo da Inglaterra.
Havia um agudo contraste com os vizinhos, na maioria repúblicas em permanente
convulsão e dominadas por caudilhos. Com a Guerra do Paraguai (1864-1870),
que produziu a maior carnificina da história sul-americana, o Brasil ganhou
seus primeiros heróis militares, que começaram a cobrar de dom Pedro
II, o imperador, o devido reconhecimento ao seu sacrifício. O Exército
conquistou identidade, tornou-se uma corporação. Começou
aí a saga da influência militar na vida brasileira. Tal influência
resultou no golpe que proclamou a República, em 1889, deu no tenentismo
dos anos 20 do século passado, deflagrou a Revolução de 1930,
deixou rastro na ditadura do Estado Novo e desembocou no golpe de 1964
que deu início ao mais longo período de domínio fardado na
história do país.
Encerrado
o regime de 64, os militares perderam espaço e influência na vida
nacional. No governo Sarney (1985-1990), ainda eram fortes, pois o presidente
recorria ao aconchego dos urutus sempre que julgava necessário. Fernando
Collor (1990-1992) demonizou os militares na campanha eleitoral, mas consumiu
um cordato matrimônio com eles no seu breve governo. Sob Itamar Franco (1992-1994),
os militares, acionados para corrigir qualquer emergência, experimentaram
seu último período de influência. De 1995 em diante, entre
os governos de Fernando Henrique e Luiz Inácio Lula da Silva, dois perseguidos
pelo regime militar, a situação mudou.
"A
mais séria crise da história das Forças Armadas está
em curso desde 1995 e é causada pela falta de prioridade e pelo desconhecimento
do que as Forças Armadas representam para o estado", diz o cientista
político Geraldo Cavagnari, do Núcleo de Estudos Estratégicos
da Universidade Estadual de Campinas. De 1995 até 2003, os militares perderam
uma série de regalias herdadas do regime militar. Entre outros cortes,
deixaram de receber licença de um mês para cada dez anos trabalhados,
gratificação salarial de 1% por ano de serviço e promoção
automática ao se aposentar, que garantia um salário 10% mais alto
do que na ativa.
Com isso, a grande batalha
dos militares tem sido não perder dinheiro. Pelos dados do World Economic
Outlook da ONU, o Brasil está entre os países da América
do Sul que menos investem nas Forças Armadas. Em 2005, gastou-se 1,8% do
PIB. É um porcentual inferior ao do Equador (3,7%), do Chile (3,5%), da
Colômbia (3,3%) ou da Bolívia (2,2%). Os comandantes militares fazem
questão de denunciar essa situação sempre que possível.
Ao transmitir o cargo ao sucessor em março, o então comandante do
Exército, general Francisco de Albuquerque, disse que o dinheiro não
dava nem para "superar o desgaste de décadas". O almirante Julio
Soares de Moura, ao assumir a Marinha, denunciou que a situação
era "insustentável". Com a gritaria, os militares arrancaram
2,2 bilhões de reais a mais do Orçamento do ano que vem. Já
é alguma coisa. Corresponde a 3% do total do Orçamento, mas nem
de longe lembra os áureos tempos, durante a ditadura, quando chegaram a
abocanhar 24% do Orçamento uma enormidade absurda, é claro.
Diante das dificuldades, não surpreende que a evasão cresça.
No ano passado, bateu o recorde: 206 oficiais foram embora. Neste ano, 136 já
pediram o quepe.
"O Brasil ou tinha
capacidade de produzir equipamentos de ponta ou recursos para comprá-los.
Hoje, não tem nem uma coisa nem outra", avalia o professor Expedito
Bastos, pesquisador de assuntos militares da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Cálculos oficiais indicam que, entre 2002 e 2006, o salário dos
militares caiu 19,2% em termos reais. Já os servidores civis tiveram aumento
real de 5,29%. "O sonho de um militar hoje é prestar concurso público.
Em toda cerimônia nos quartéis há distribuição
de panfletos de cursinho preparatório. É raro encontrar um militar
de baixa patente satisfeito com a carreira", diz Ivone Luzardo, presidente
da União Nacional de Esposas de Militares, entidade que organiza panelaços
e acampamentos por aumentos salariais. Na Vila Militar no Rio, há propaganda
de cursos em quase todas as portas de unidades militares. Pudera. Um soldado ganha
menos do que um policial militar de Alagoas, a menor remuneração
do país. Dá 850 reais contra 772. As di- ferenças na iniciativa
privada são mais gritantes. Um capitão médico do Exército
recebe uns 6.000 reais. Um médico de uma fundação como o
Hospital Sarah Kubitschek, sonho de consumo dos doutores militares, tem salário
inicial de 10.000 reais.
Os militares
têm seu quinhão de responsabilidade pela situação crítica.
À falta de gente e dinheiro alia-se um defeito geográfico produzido
por eles mesmos: os militares estão presentes onde não se precisa
deles e ausentes de onde são necessários. Há mais fardados
no Rio do que na Amazônia. Em parte, o descompasso geográfico decorre
dos altos custos de deslocamento, mas também da resistência dos militares
em deixar a boa vida à beira-mar. Uma deformação estrutural
revela tal viés: as Forças Armadas são magras na base, mas
obesas na cúpula. O Exército tem 151 generais para um efetivo de
190.000 militares. Dá um general para cada 1.258 homens. É mais
do que é observado em países em guerra, como Estados Unidos ou Israel.
Nesse cenário, seria razoável criar uma estrutura mais enxuta e
ágil, mas aí a coisa esbarra no corporativismo militar. Especialistas
dizem que o Exército poderia ter 20.000 homens altamente treinados para
se deslocar para qualquer ponto do país em menos de 24 horas e 80.000 homens
para ocupar os demais batalhões. Dá 100.000, quase a metade do contingente
atual, dentro do qual não há nem 5.000 capazes de se deslocar num
único dia para qualquer área do território. No entanto, 63,3%
dos militares acham que o Exército, hoje, é menor do que o necessário.
Só 3,1% o consideram grande demais.
Com
tudo somado, militares e estudiosos do assunto são quase unânimes
em afirmar que as Forças Armadas atravessam a pior crise da história.
Isso, naturalmente, ajuda a minar o astral da tropa, mas, talvez de modo surpreendente,
não se ouve um pio contra os civis ou o regime democrático. "Pode
haver algum general pensando isoladamente em golpe, em volta ao poder. Mas o Exército
não tem mais nada de imediato a oferecer à sociedade, não
tem mais respaldo popular", diz Expedito Bastos, da Universidade Federal
de Juiz de Fora.
Fabiano
Accorsi
O
QUE É BOM RESISTE Um teste no Instituto
Tecnológico de Aeronáutica (acima) e uma experiência no Instituto Militar
de Engenharia: os centros de excelência permanecem de pé
Ana
Araújo
Na
pesquisa realizada pela CNT/Sensus, 35% dos civis dizem que gostariam de ter os
militares de volta ao governo. É um número alto, mas é preciso
levar em conta que quase 60% são contrários e entre eles
estão muitos dos próprios militares. Quando os jovens falam na volta
dos militares ao poder, no entanto, nem sempre isso tem conotação
tão negativa quanto parece aos que já eram adultos no tempo da ditadura.
Quanto mais o tempo passa, a memória empalidece e melhora a reputação
das Forças Armadas. Desde 1989, o Ibope mede o prestígio dos militares.
Nas pesquisas iniciais, cerca de 50% dos pesquisados diziam confiar nos militares.
Nos levantamentos mais recentes, esse porcentual passou a girar em torno de 70%.
Entre
os militares, existe uma aceitação inconteste do poder civil. Na
pesquisa, embora 56% deles digam que os presidentes militares trouxeram mais desenvolvimento
ao país, 23% acham que os civis fazem um trabalho melhor. É a metade,
mas não deixa de ser significativo que exista uma massa na caserna a prestigiar
civis em detrimento de militares. "A realidade mundial é outra, não
há clima para intervenções militares nem intenção
nas Forças Armadas de promovê-las", diz o general Gerson Menandro,
comandante da Academia das Agulhas Negras. "Após quase vinte anos
de eleições diretas para presidente, está consolidado entre
os militares o respeito à alternância de poder." As trombetas
que tocam de vez em quando vêm dos clubes militares, que reúnem os
oficiais da reserva. Mesmo ali, não prospera o golpismo. Eis a avaliação
do general da reserva Gilberto Figueiredo, que preside o Clube Militar, com sede
no Rio: "Há problemas sérios no país, mas eles têm
de ser resolvidos dentro da democracia. Não há mais espaço
no Brasil atual para revoluções militares".
Nada
disso significa que as Forças Armadas tenham se transformado em um grupamento
sem idéias nem ideais. A instituição nutre um forte sentimento
corporativo e pode-se perceber, aqui e ali, a persistência da ideologia
do inimigo interno uma ideologia que veio da França, e não
dos Estados Unidos, ao contrário do que muitos pensam. O Exército,
particularmente, tem-se na conta de uma reserva moral, de último sustentáculo
da estabilidade e da ordem e as pesquisas de opinião mostram que
a instituição é vista assim pelo povo.
"Esse
sentimento pode ser constatado pelo fato de que o Exército ainda hoje mantém
a chamada estratégia da presença, espalhando quartéis
por todo o território nacional, até em cidades em que são
absolutamente desnecessários", diz o professor João Roberto
Martins Filho, da Universidade Federal de São Carlos e presidente da Associação
Brasileira de Estudos de Defesa, fundada há dois anos. Ou seja: os militares
preservam um sentimento corporativo e uma visão de mundo distinta dos civis.
Imaginar que, por isso, os militares devem ser vistos como inimigos ou que um
golpe pode estar sendo gestado é uma tolice. As diferenças entre
civis e militares são grandes, mas naturais e complementares. Existe espaço
suficiente na caserna para a realização profissional do aspirante
Diógenes Serra Azul Albuquerque e, na vida civil, para o recém-chegado
ex-piloto de caça.
SUBIR OU NÃO
SUBIR O MORRO?
Vanderlei
Almeida/AFP
UMA
QUESTÃO DE LÓGICA Militares ocupam escadaria
num morro do Rio: eles temem que, envolvendo-se no combate ao crime, o Exército
seja contaminado pela bandidagem. Faz sentido, mas é lógico manter 190 000 homens
armados sem guerra à vista?
Quando
fizeram a segurança dos chefes de estado que estiveram no Rio de Janeiro
para a conferência do meio ambiente, a Eco 92, os militares tiveram sucesso
total. Desde então, com o aumento da criminalidade no Rio, a idéia
de colocar o Exército para policiar a cidade tornou-se recorrente. Em julho,
nos Jogos Pan-Americanos, os militares novamente saíram às ruas,
e os cariocas, aliviados com a súbita queda em assaltos e crimes, voltaram
a aplaudi-los. A atuação do Exército como força policial,
no entanto, é o tema que mais divide a opinião de militares e civis.
Entre os civis, 87,9% apóiam a idéia de levar o Exército
a subir o morro em busca de bandidos, segundo pesquisa feita pela CNT/Sensus em
parceria com VEJA. Entre os militares, apenas 43,8% aceitam a idéia e outros
20,3% dizem que depende do caso. As objeções levantadas pelos militares
contra a presença do Exército nos morros cariocas fazem sentido.
Eles dizem que são treinados para a guerra, não para enfrentar o
crime. Em combate, são preparados para eliminar o inimigo, não para
detê-lo. São treinados para atuar em equipe, em pelotões,
não individualmente ou em dupla, como costuma ocorrer na guerra policial
urbana. É tudo verdade.
Mas a
questão central permanece: qual a lógica de manter um Exército
com 190 000 homens armados sem uma guerra para travar, enquanto o crime
organizado, espantosamente bem armado, aterroriza uma população
indefesa? A população, claramente, acha que não há
lógica. Os militares, embora desgostando da idéia, têm mostrado
interesse crescente em debater a possibilidade de ajudar no combate ao crime.
O assunto é pauta constante nos quartéis e academias, e já
existe até treinamento. Na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman),
aspirantes a oficial do Exército treinam técnicas de comando e combate
numa cidade cenográfica, semelhante a um morro carioca tem casebres,
botecos, vielas, grades, muros, só não tem moradores caminhando
pelas ruelas. A disciplina, chamada de GLO, que se traduz por "garantia da
lei e da ordem", é obrigatória no 3º dos quatro anos do
curso. Na Aman, também há uma palestra por mês sobre temas
da atualidade. Neste ano, em duas ocasiões o tema foi a situação
do Rio e do narcotráfico. "Temos de estar sempre preparados para atuar
nas cidades na garantia da ordem para o caso de haver necessidade", justifica
o general Gerson Menandro, diretor da Aman. Fiel ao código de conduta militar,
o general Menandro não diz se ele próprio é a favor ou contra
o Exército subir o morro.
Em geral,
os altos oficiais são contra. Um dos maiores temores é a contaminação
do Exército pela criminalidade. Trata-se de um risco real. Em junho passado,
a polícia prendeu uma quadrilha composta de ex-integrantes da tropa de
elite do Exército, na Ilha do Governador. Eles foram cooptados para dar
lições de guerrilha aos "soldados" das facções
criminosas, principalmente com aulas de tiro. Para uma categoria como os militares,
tão ciosa de seu patriotismo e de sua retidão de caráter,
constatar que ex-colegas se envolveram com a bandidagem é um choque. O
Exército, caso venha a ser escalado para combater o crime, talvez devesse
aprimorar os mecanismos de controle de sua tropa, acionar seus serviços
de inteligência, tudo para evitar a ramificação da criminalidade.
Mas é praticamente certo que algum tipo de infiltração, de
fato, aconteceria. Outro fantasma que atormenta os militares é a morte
acidental de algum civil. "Seria a desmoralização das Forças
Armadas, que já estão com a imagem arranhada pela crise nos aeroportos",
diz um oficial da ativa, para completar em seguida: "Há até
um pensamento paranóico na caserna de que o governo tem intenção
de colocar os militares na rua só para desmoralizá-los". De
fato, é uma abordagem um tanto paranóica. Como indica a pesquisa
do instituto Sensus, é a opinião pública, com uma ampla maioria,
que gostaria de ver os militares ajudando a combater a criminalidade.
CHÁVEZ DÁ A LARGADA NA
CORRIDA ÀS ARMAS
Juan
Carlos Hernandez/AP
O
CÉU É DA VENEZUELA? Os caças russos Sukhoi
30, comprados pela Venezuela, são os mais modernos em atividade hoje na região
O fantasma da corrida armamentista foi exorcizado na América do Sul depois
da onda de democratização dos anos 80, mas seu espectro está
de volta à região, e o motivo é um só: a Venezuela
de Hugo Chávez. Com o sexto maior Exército do subcontinente, o país
está se armando até os dentes. Nos últimos tempos, Chávez
comprou 24 caças russos Sukhoi 30, que são hoje os mais modernos
da região. Adquiriu 53 helicópteros e 100 000 fuzis de assalto
AK-103 destinados a armar um exército popular, pois a força
regular tem apenas 60 000 homens e tem planos de transformar sua
força naval na mais avançada da América do Sul. Tudo à
custa de investimentos de 4,3 bilhões de dólares em cinco anos.
A manobra de Chávez, que reivindica uma fatia robusta do território
da Guiana, já provocou alarme do ex-presidente José Sarney, para
quem o ditador venezuelano está querendo criar "uma potência
militar". O próprio comandante do Exército brasileiro, general
Enzo Peri, numa referência velada à escalada de Caracas, disse recentemente
que o Brasil precisa se preocupar com sua "capacidade de dissuasão".
Tais
temores ainda não repercutem entre a população em geral.
A pesquisa do Sensus realizada em parceria com VEJA mostra que 57,9% dos brasileiros
não acreditam na possibilidade de um conflito armado com os vizinhos e
46,5% não acham que os governos populistas de Venezuela, Bolívia
e Equador representem ameaça ao país. Os militares estão
mais alarmados (veja o gráfico). A preocupação com vizinhos,
em especial a Venezuela, pode ser mero pretexto dos militares para valorizar seu
papel ou faz sentido mesmo fora da caserna? É certo que, neste momento,
o Brasil detém a supremacia militar na região, como acontece desde
a Independência, em 1822, mas é crescente o risco de perdê-la.
"Se o Brasil continuar como está, andando para trás, em dez
anos perderemos a liderança", aposta o cientista político Expedito
Bastos, do Núcleo de Assuntos Militares da Universidade Federal de Juiz
de Fora.
Há uma tróica
de países a ameaçar a superioridade brasileira além
da Venezuela, a conta fecha com o Chile e a Colômbia. Embora com poderio
militar menos vistoso que o brasileiro, os três países têm
ambiciosos planos de reaparelhamento do material bélico. Com investimento
de 3,9 bilhões de dólares, o Chile está recebendo caças
americanos, fragatas inglesas, submarinos franceses e tanques alemães.
A Colômbia, que anunciou investimento de 3,6 bilhões de dólares,
quer aumentar seu efetivo em 38 000 homens. Os três países
já têm, hoje, uma proporção mais confortável
que a brasileira entre militares e civis. No Brasil, há 1 650 militares
para cada milhão de habitantes. Na Venezuela, são 2 350 militares.
Na Colômbia, 3 600. No Chile, 5 500. O mesmo acontece na relação
entre o tamanho do efetivo do Exército e o do território. O Brasil
tem um militar para cada 45 quilômetros quadrados. Na Venezuela, é
um fardado por 27 quilômetros. No Chile, um para 15. Na Colômbia,
um para 8 quilômetros.
O Exército
brasileiro tem preocupações que a maioria dos civis julga um exagero
tem até batalhão especializado em ataque químico e
biológico, que foi usado nas visitas do papa Bento XVI e do presidente
George W. Bush. Mas a questão dos países vizinhos é seu calcanhar-de-aquiles.
"A movimentação armamentista dos vizinhos traz medo às
Forças Armadas, principalmente ao Exército", diz o cientista
político Alexandre Fuccille, do Núcleo de Estudos Estratégicos
da Universidade Estadual de Campinas. Ouvido com a condição de manter
o anonimato, o comandante de uma das Armas diz o seguinte: "A situação
na América do Sul é alarmante. Chávez está armando
a Venezuela e planeja armar a Bolívia de Evo Morales. O Chile tem aumentado
o orçamento militar e aplica o treinamento mais intensivo e eficiente da
região. Se Chávez construir uma rede de apoios com países
mais ao sul e bases para sua Força Aérea, será uma ameaça
grave. O Brasil não pode pensar que não há ameaça.
Vivemos tempos de paz, mas essa paz pode não ser tão duradoura".
A
história ensina que relações militares podem deteriorar-se
abruptamente ou aprimorar-se, mas, nesse caso, sempre de modo mais lento
que abrupto. A histórica rivalidade entre Brasil e Argentina é um
exemplo de melhora. "Os argentinos estão muito mais preparados do
que nós para a integração militar no âmbito do Mercosul",
atesta o professor João Roberto Martins Filho, da Universidade Federal
de São Carlos, e presidente da Associação Brasileira de Estudos
de Defesa. Na crescente proximidade entre os dois países, já há
tropa brasileira em terras da Argentina, e tropa argentina treinando em porta-avião
brasileiro. Enquanto Chávez cultiva seus delírios bolivarianos,
pelo menos a parte sul da América do Sul tem logrado mandar um recado de
paz e sensatez.
COM OS OLHOS NA AMAZÔNIA
Antonio
Milena
ENTRE
A MATA E A PRAIA Militares em treinamento
na Amazônia: a região é considerada prioridade, mas tem mais fardado no litoral
do Rio do que na floresta
Nos
185 anos de vida independente do país, os militares brasileiros já
se preocuparam com temas bastante diversos dos paraguaios, com os quais
lutaram até 1870 no mais sangrento conflito da América do Sul, aos
comunistas financiados pelo ouro de Moscou, nos anos 60 e 70 do século
passado. Hoje, a preocupação central é a Amazônia.
Com sua vastidão verde, suas promessas de fartura genética e sua
generosa oferta de água doce, a Amazônia é considerada pelos
militares um dos grandes "pontos de cobiça" do mundo. Na pesquisa
da CNT/Sensus em conjunto com VEJA, 82,6% dos militares disseram que a Amazônia
corre o risco de sofrer uma ocupação estrangeira. O que chama mais
atenção é a revelação de que a esmagadora maioria
dos civis compartilha a mesma opinião com os militares (veja o quadro abaixo)
embora não haja um único sinal concreto de que uma invasão
seja iminente ou esteja sendo planejada. "Não podemos nos descuidar
das fronteiras, do nosso parque industrial, da nossa capital e da Amazônia",
resume o cientista político Geraldo Cavagnari, membro do núcleo
de estudos estratégicos da Universidade Estadual de Campinas.
No
caso da Amazônia, as Forças Armadas brasileiras não temem
os países vizinhos. Temem as potências estrangeiras (além
dos cientistas e dos missionários). Acham que os estrangeiros podem estar
interessados nas riquezas ainda desconhecidas da floresta. Com os vizinhos com
os quais compartilha a Amazônia, como Colômbia, Venezuela e Peru,
o Brasil tem feito exercícios conjuntos, destinados a coibir o contrabando
e o narcotráfico nas fronteiras. Exército e Aeronáutica,
as forças que mais se dedicam à região, também têm
promovido ações sociais em áreas carentes, como oferta de
tratamento médico e odontológico, para suprir a ausência do
estado. "É preciso evitar que guerrilheiros das Farc colombianas ou
paramilitares venezuelanos entrem no Brasil e usem a Amazônia como refúgio",
diz o cientista político Eliézer Rizzo de Oliveira, professor aposentado
da Unicamp e diretor do Centro Brasileiro de Estudos da América Latina.
Ele completa: "Hoje, as ameaças assumiram novas formas: narcotráfico,
crime organizado, tráfico de pessoas e poder da delinqüência
sobre populações sem proteção do estado".
Apesar
da preocupação com a floresta, os militares até hoje não
conseguiram ocupá-la de forma minimamente razoável. Menos de 10%
das unidades militares estão na região. Do efetivo de 190 000 homens
do Exército, menos de 15% trabalham na região só cerca
de 25 000 homens. Nos estados do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e do Espírito
Santo, que não fazem fronteira com nenhum país nem estão
sob a ameaça de ocupação estrangeira, há quase o dobro
de militares 49 000. Nos últimos vinte anos, o Exército transferiu
dois grandes batalhões para o norte do país. O batalhão de
Petrópolis, no Rio, foi para Boa Vista, a capital de Roraima. Outro batalhão,
antes localizado em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, deslocou-se para
Tefé, no Amazonas. Um terceiro, o de Niterói, também no Rio,
está sendo enviado a São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, mas
o deslocamento integral não aconteceu até hoje. A última
promessa é concluí-lo até o fim do ano. Não é
necessária muita imaginação para saber por que alguns militares
resistem em deixar o aprazível litoral do Rio para se embrenhar na mata
de São Gabriel da Cachoeira.